José Boto lembra o pouco tempo que existe para treinos aquisitivos, que as equipas estão sempre a recuperar de viagens e de jogos de três em três dias

«Aos europeus que se queixam: venham aqui fazer um aninho!»

Um ano inteiro a competir, com largos períodos de jogos de três em três dias. José Boto fala de um cansaço que visível até em quem não joga

— As especificidades do futebol brasileiro, sobretudo as viagens, as distâncias. O facto de o Brasil ser quase um continente inteiro torna a sua missão… Não sei se desafiante ou exasperante… 

— E, muitas vezes, as pessoas não têm noção do que é o futebol brasileiro a nível de calendário, não é? Mas quando ouço a malta na Europa a dizer «estamos a jogar muito» apetece dizer-lhes «então, venham aqui fazer um aninho». Mas é acima de tudo muito cansativo, mais do que desesperante. Fomos à Colômbia, depois para Porto Alegre, de Porto Alegre fomos para Salvador. São 14 mil quilómetros de avião, com jogos de três em três dias. No outro dia, o Leonardo brincava comigo. Estava a dormir um pouco no autocarro da equipa e acordei. E devia estar mesmo com cara de quem não sabia onde é que estava e ele brincava comigo: «Estamos no autocarro.» Porque mudas de hotel de dois em dois dias, mudas de sítios completamente diferentes. Estás no frio do sul do Brasil, com um clima mais parecido com a Europa e vais para a Bahia, onde é muito mais quente. Estás na Colômbia, depois aqui. E estou a falar de quem não joga. Agora imagina quem tem o esforço de jogar. Muitas vezes, leio as críticas aqui, as pessoas dizerem que as equipas não são consistentes. As duas melhores equipas, que são o Palmeiras e o Flamengo, que lutam pelo título, não são consistentes? É impossível ser consistente com um calendário destes. É impossível tu teres consistência exibicional e de resultados, quando tens jogos de dois em dois dias e o que fazes é recuperar e preparar um pouquinho o jogo seguinte. Tu não tens praticamente treinos aquisitivos para que a equipa consiga não só melhorar como manter os níveis.

Quando contratamos jogadores temos de ver que têm saúde para aguentar três jogos por semana.

— Mas quando se contrata um jogador, isso é pensado?

— É, é pensado até a nível médico. É óbvio que quando contratamos alguns jogadores, como contratámos no ano passado, já com alguma idade, tivemos o cuidado de ver também o histórico de saúde. E também sabemos que há jogadores que não podemos utilizar, aliás quase nenhuns, nos três jogos que temos por semana. Temos esse cuidado. É muito importante ter jogadores com saúde para aguentar um campeonato como este, com outras competições pelo meio. Começámos a competir em janeiro e vamos parar em dezembro. Na Europa não temos nem um pouco de noção do que é isto aqui.

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