José Boto não percebe como num ápice um não-assunto, ou seja, algo que não é credível, se torna um assunto de Estado no Flamengo

«Aqui posso ir a passar na rua e as pessoas gritarem: ‘Não traga o Messi!’»

José Boto revela que demorou algum tempo a adaptar à comunicação social brasileira e à forma como um não-assunto evoluia quase para assunto de Estado

— O cargo de diretor técnico do Flamengo obriga a maior competência futebolística ou a maior capacidade política?

— Pela grandeza, é um clube muito político. Eu estou sempre muito afastado disso, até pelo facto de não ser brasileiro. Não tenho. Não tenho a habilidade de entender as conexões políticas. Isso, claro, como é óbvio, deixo para o presidente. Limito-me às decisões técnicas e a tudo o que eu trabalho no futebol e não pensar sequer na…

— Mas sente-se a política à volta?

— Sente-se. Como é óbvio, sente-se. Há sempre um peso político num clube que tem uma dimensão como e que tem realmente um peso político muito grande.

 — O que é que mais o desgasta? Imprensa, adeptos, agentes ou alguma questão de egos? 

— Aqui no Brasil, a Imprensa. A Imprensa é muito…

— Voraz?

— Exatamente! E muito presente. Há algo aqui no Brasil a que não estava habituado. Que é, por exemplo, sei lá, tu, como jornalista, inventas. Escreves «o Flamengo está interessado no Messi». Portanto, sem nenhuma base verídica. E depois cria-se uma discussão quase nacional à volta de um assunto que não tem qualquer veracidade, percebes? E isso é só o princípio. Acabava por provocar um desgaste… Mas como é possível eles estarem a discutir algo que não corresponde à realidade. E eu passava na rua e as pessoas «Você não traga o Messi!

[risos]
E eu «Mas nunca quis trazer». Estás a perceber? Isso agora já não me faz tanto… Desliguei um pouco disso, não é? Mas realmente há um desgaste muito grande, porque o Flamengo é um clube que dá uma exposição muito grande da tua imagem, percebes? E se tu estás muito atento a isso ou se tu és uma pessoa com uma preocupação excessiva em relação a isso, acaba por te afetar o dia a dia e as tuas decisões e a tua… Felizmente, já aprendi a lidar com essas… Eu, sim, dentro de mim, já aprendi a lidar com isso.

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