O Mundial da exaustão
Um mês e meio de olhos postos na América. Com o aproximar da época desportiva e a precoce eliminação portuguesa, parece que o tempo distendeu em algum momento. Não se deixem enganar, é mesmo o campeonato do mundo mais longo de sempre.
É o Mundial da exaustão. Exaustão da maratona de jogos, mas também exaustão de jogadores. Numa altura em que se debate o congestionamento dos calendários, este Mundial é business as usual: mais jogos dos melhores jogadores, das melhores equipas. Joga-se de julho a julho.
Falei em business? Este é o Mundial das receitas recorde. Bilhetes a preço de ouro, receitas record de direitos televisivos e patrocínios. Nos Estados Unidos tudo existe em proporções desmedidas. Começa no número de jogos, passa pelas receitas e acaba, claro, na influência política. Balogun e o Irão fizeram correr muita tinta. Talvez não a suficiente.
Este foi o Mundial em que o dinheiro calçou chuteiras. As pausas para hidratação, por entre jogos com tórridos 15 graus, travestiram de futebol uma medida metida a martelo para gerar mais dinheiro. Fez-nos perceber como o jogo e o momento das equipas é volátil: a ideia da pausa ser benéfica para quem estava pior no jogo foi repetida e com fundo de verdade.
Foi o Mundial das histórias de encantar. Vozinha foi o protagonista de um conjunto de selecções que se estrearam na prova. Talvez os jogadores de Haiti, Curaçau e Uzbequistão nunca sonhassem jogá-la. Este foi um dos méritos do alargamento. Embora nem sempre competitivas, foram selecções que trouxeram histórias e sonhos novos ao mundo. Num outro patamar, também a Noruega, nos ombros de Haaland, fez sonhar uma geração de noruegueses com feitos inéditos.
Também foi o Mundial do alargamento da intervenção do VAR. O fora-de-jogo automático é bem-vindo — alguém sente a falta do suplício da introdução de linhas? —, bem como o cronómetro para reposições de bola e substituições. Há números que comprovam o aumento do tempo útil. A lei Prestianni, a possibilidade de reversão de cantos ou de segundos amarelos servem a decência e a verdade desportiva.
Por fim, foi o Mundial do adeus. Pode ser o Mundial, mais um, que reforça a coroa na cabeça de Messi — mais uma Bola de Ouro a caminho? —, mas é o Mundial do provável adeus a Modric, Neuer, Neymar, De Bruyne, James e Van Djik. E claro, Ronaldo. O adeus de Portugal, numa participação muito enublada, deixa uma triste fotografia do melhor futebolista português de sempre. Para desilusão de todos, mas para surpresa de ninguém.