Tensão entre Espanha e Marrocos aumenta e coloca dúvidas sobre o Mundial 2030
Apesar de serem coorganizadores do Mundial 2030, juntamente com Portugal, Espanha e Marrocos vivem um clima de rivalidade crescente nos bastidores, com disputas pela sede da final e pela naturalização de jogadores.
Oficialmente, as relações entre as federações espanhola e marroquina são cordiais, especialmente desde que foi anunciada a organização conjunta da maior competição de seleções do Mundo. No entanto, por trás dos panos existe uma luta evidente pelo domínio, escreve o jornal AS, com o país africano a tentar impor a sua vontade em várias frentes. O último confronto em campo entre as duas seleções ocorreu no Mundial do Qatar, no qual a equipa de Luis Enrique foi eliminada nos oitavos de final, após desempate por penáltis (0-3).
A federação marroquina está determinada a que a final do Mundial 2030 se realize no seu território, mais concretamente no Estádio Hassan II, em Casablanca, que se encontra atualmente em construção. Além disso, pretende receber uma das meias-finais no Estádio Moulay Abdellah, em Rabat. Esta ambição surge após a organização da polémica CAN deste ano, que serviu de teste e onde Marrocos exibiu os seus estádios modernos, embora com algumas falhas organizacionais denunciadas, como o tratamento dado a seleções adversárias para obter vantagens desportivas.
Embora as sedes ainda não estejam totalmente confirmadas, o plano da FIFA prevê que Espanha seja a principal anfitriã com 11 estádios, enquanto Marrocos teria seis e Portugal apenas três (Luz, Alvalade e Dragão). Contudo, os avultados investimentos de Marrocos em infraestruturas têm gerado controvérsia interna, com denúncias de associações sobre o abate em massa de cães de rua e protestos juvenis contra o desvio de verbas de serviços básicos para os estádios.
A batalha pela naturalização de talentos
Outro campo de batalha importante é a captação de jogadores nascidos no estrangeiro com ascendência marroquina. Depois dos casos de sucesso de Achraf Hakimi e Brahim Díaz, que se tornaram estrelas dos Leões do Atlas, a federação marroquina intensificou os seus esforços. Recentemente, tentou recrutar Thiago Pitarch, jovem de 18 anos do Real Madrid, mas o jogador nascido em Fuenlabrada parece decidido a representar apenas Espanha.
Marrocos vê na sua diáspora pela Europa uma fonte valiosa de talento para reforçar a seleção. Exemplos como Ismael Saibari, nascido em Espanha, e Ilias Akhomach, que representou as seleções jovens de La Roja antes de optar por Marrocos em 2023, ilustram esta estratégia. Recentemente, a federação anunciou a naturalização de mais seis jovens jogadores de grande potencial, como Rayane Bounida, todos provenientes da Bélgica e dos Países Baixos.
A influência na FIFA como trunfo
A grande cartada de Marrocos para alcançar os seus objetivos, nomeadamente a final de 2030, reside na sua forte ligação à FIFA. A Confederação Africana de Futebol (CAF), com os seus 54 votos, é um aliado poderoso. O seu presidente, o sul-africano Patrice Motsepe, é também vice-presidente da FIFA, e Fouzi Lekjaa, presidente da federação marroquina, acumula os cargos de primeiro vice-presidente da CAF, membro do Conselho da FIFA e presidente do Comité do Mundial 2030, nomeado pelo rei Mohamed VI.
Gianni Infantino, presidente da FIFA, já destacou a importância de uma África unida para ter impacto no futebol mundial. Numa declaração há um ano, afirmou: «No que nos diz respeito na FIFA, precisamos de trabalhar com todos e cada um de vós [...]. Precisamos que todos vós se saiam bem, porque uma África unida, só uma África unida, pode ter um impacto real na FIFA e no mundo».
Este influente bloco de poder africano, próximo de Infantino, é visto como o principal instrumento de Marrocos para fazer valer as suas pretensões. A sua capacidade de decisão ficou demonstrada recentemente, quando a CAF atribuiu a Marrocos o título de campeão da Taça de África mais de dois meses após a final ter sido vencida pelo Senegal.
Após o sucesso na organização do último Mundial de Clubes, Marrocos tem agora um plano ambicioso para acolher a edição de 2029 do torneio em solitário. O país do Norte de África pretende demonstrar que possui capacidade para organizar um evento desta magnitude sem qualquer apoio externo.
Apesar da enorme concorrência para receber o campeonato que reúne as melhores equipas do planeta, a FIFA ainda não tomou uma decisão final sobre a candidatura marroquina.
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