Ser dirigente desportivo

Não esperemos grandes mudanças enquanto pervalecer um certo ‘vale tudo’

SER dirigente desportivo exige (cada vez mais!) a maturidade emocional e a humildade necessárias; tal como é fundamental que saibam respeitar as diferenças de opinião e conheçam as respetivas debilidades, tentando conseguir de forma continuada a respetiva melhoria contínua. Acima de tudo, nunca hesitarem sempre que for necessário tornar claro que ninguém melhora e evolui em enquadramentos permissivos e pouco exigentes.

Primeira conclusão: dificilmente se verificarão grandes mudanças comportamentais nos nossos dirigentes desportivos enquanto no ambiente desportivo nacional continuar a dominar o clima social em que parece ‘valer tudo’ para conseguir ganhar.

A história da civilização humana é a história da criação de hábitos comportamentais (tudo se treina!); e as nossas decisões designadas como conscientes, não são mais que a racionalização posterior de processos comportamentais inicialmente inconscientes. Afinal, num primeiro momento, o comportamento humano ‘acontece-nos’!

Cada coletivo humano possui idênticas emoções básicas e universais. Quando se fundem a identidade individual e social, emerge naturalmente o conceito do coletivo. Mas é igualmente verdade que, quando em grupo, não perdemos a necessidade de ver respeitados os nossos direitos e necessidades individuais, exigindo a quem dirige comportamentos solidários e responsáveis que suscitem a nossa confiança.

Habitualmente, só decidimos mudar de coletivo quando decai a nossa consciência social de lhe pertencer e, principalmente, deixam de existir as respetivas vantagens que nos levaram a aderir pertencer. O que significa que só a nossa consciência social pode suprir essa dificuldade. O sentimento de pertença a um grupo, ajuda a mudar de opinião pois a consciência social tem um poder normativo considerável e permite-nos saber quem somos e também quem são aqueles que nos rodeiam.

Segunda conclusão: urge que a exemplo do que já aconteceu com jogadores, treinadores e árbitros, os dirigentes desportivos nacionais criem a sua própria Associação Nacional dos Dirigentes Desportivos.
Ser dirigente exige que saibam servir, mais do que servirem-se, solicita uma continuada entrega aos outros.

Pensar (muitas vezes!) mais nos interesses daqueles que lideram, que propriamente nos seus. Transferir o centro das suas preocupações para a melhoria das competências e dos comportamentos daqueles que estão sob a sua responsabilidade, tal como da qualidade das competições em que participem. Também aprenderem a gerir diariamente o inesperado.

Como seres humanos, os dirigentes desportivos possuem crenças e convicções cujo poder é, por vezes, avassalador, sobrevalorizando o que herdam do passado, em detrimento do que configuram para o futuro; em muitas das suas decisões é por vezes bem evidente o desrespeito pela opinião daqueles com quem se relacionam.

Não são poucos os dirigentes desportivos para quem imaginar é quase idêntico a ver e por isso confundem em demasia o que se passou de verdade, com aquilo que imaginam que se passou. Em vez de refletirem sobre o futuro e respetivos objetivos comuns, ‘fecham-se’ sobre os dogmas que os dividem.

Para ser dirigente desportivo, não basta saber, nem é suficiente ser um comunicador assertivo! Tem de saber transmitir, ensinar, formar, aconselhar, informar, envolver tudo e todos no processo de desenvolvimento da modalidade. Estar sempre atento aos sinais presentes na realidade, corrigindo eventuais erros entretanto cometidos, incentivando à reflexão sobre o erro, não permitindo que se instale o medo de errar.

Mas atenção! Não é fácil refletir sobre o insucesso. Tendemos sempre a procurar fugir daquilo que nos confronta com os erros que cometemos. Muito em especial quando as expectativas criadas estão para além daquilo que é possível alcançar.

Terceira conclusão: fundamental dimensionar para o futuro próximo dos dirigentes desportivos nacionais a necessidade de um treino comportamental continuado.

Naturalmente, o treino comportamental não é bom ou mau em si mesmo. Depende do modo como é levado a cabo. E de quem por ele se responsabiliza, que mais do que invocar o seu estatuto de autoridade, necessita ser capaz de, relativamente àqueles que treina, levá-los a reconhecer essa autoridade. Criando ambientes de trabalho exigentes e rigorosos! Onde a competência seja reconhecida e incentivada, existam confiança e respeito mútuo, os mais preparados cuidem dos menos preparados, as tradições e os valores coletivos sejam devidamente respeitados, o sucesso de uns seja o sucesso de todos e a inovação e criatividade não sejam só palavras, mas correspondam a atitudes e comportamentos diários. Numa equipa, seja ela de futebol ou de um clube, associação ou federação no seu todo, tem de existir confiança entre os seus membros e compromisso com os objetivos comuns, baseadas no reconhecimento da competência de quem lidera. Não só competência técnica ou académica, mas também na área comportamental. Honestidade das palavras que proferem e coerência das respetivas atitudes.

Também se torna fundamental que os dirigentes desportivos saibam gerir as expectativas daqueles que lideram; aliás, questão muito sensível para quem lidera aos mais variados níveis. A ansiedade de procurar, por vezes, avançar mais depressa que o aconselhável, prejudica o processo de desenvolvimento da modalidade.

Objetivos ambiciosos que não se concretizam, insucessos difíceis de aceitar, frustrações que se acumulam e às quais é preciso reagir, todo um conjunto de questões que dificultam sobremaneira a tarefa de quem é dirigente desportivo. Para conseguirem ultrapassar estas dificuldades, importa mais o modo como transmitem, que aquilo que pretendem transmitir, sendo mais importante a relação a estabelecer com aqueles que lideram e o estilo de comunicação que utilizam que, propriamente, a matéria que abordam. Daí a necessidade de preocupação com aqueles a quem se dirigem, identificando o que sabem e o que pretendem, que expetativas possuem.

Quarta conclusão: transformar atitudes e comportamentos, corrigir defeitos, fazer ressaltar virtudes, requer tempo, reflexão, avanços e recuos, tem de assentar numa visão estratégica quanto ao que os dirigentes desportivos pretendem alcançar a curto, médio e longo prazo.

Personalidades incapazes de lidarem com a frustração sempre contida no insucesso, não se mobilizam porque quem lidera lhes identifica essa dificuldade. Pelo contrário, resistem a admiti-lo, preferem lutar contra essa ideia, tentando por diversas vias que a haver um responsável pelo insucesso, não sejam eles. Nada de pior que a presença de um dirigente desportivo incapaz de se desprender dos seus problemas pessoais ao serviço daqueles que dirige. Pior ainda quando se revela confuso quanto ao que verdadeiramente procura atingir.

Servir, mais que servir-se é a sua responsabilidade. Revelando confiança no potencial daqueles que lidera de modo a conseguir retirar deles o seu melhor. Levando-os à superação e a níveis ótimos de rendimento, tomando como base uma positiva autoestima, um profundo autoconhecimento e uma dedicada auto preparação. Aos dirigentes desportivos cumpre-lhes assim ensinar a aprender, mais que insistir em que os seus colaboradores ‘engulam’ um saber exterior sem significado; quem aprende não é um recipiente vazio a quem devemos ‘encher’ com o nosso saber. Desde que nascemos, transportamos condições base possíveis de desenvolver, se nos envolverem e responsabilizarem no respetivo processo de aprendizagem.

Razão porque os dirigentes desportivos precisam de uma visão otimista acerca das capacidades daqueles que lideram. Acreditar no seu potencial e proporcionar-lhes os meios que requerem para se desenvolverem e progredirem. Os seus liderados não são máquinas programáveis, mas sim seres humanos que sentem e se emocionam. Com formas diferentes de reagir e se comportarem. Que requerem ser envolvidos e motivados no sentido de se empenharem o mais e o melhor possível. Por via de diferentes formas de comunicação, cuja qualidade urge melhorar dia a dia. Por eles e para eles, importa que os ajudem a especificar os objetivos individuais que devem perseguir. Dando-lhes retorno e ‘feedback’ permanente, relativo ao que estão a fazer bem ou mal e dizendo-lhes como corrigir eventuais erros. Reconhecendo os seus esforços e apoiando a sua cada vez maior responsabilização na definição dos objetivos comuns que pretendem alcançar.

Quinta conclusão: aos dirigentes desportivos cumpre serem rigorosos exemplos de coerência e preocupação constante com aqueles que lideram e com o desenvolvimento coletivo da modalidade em que atuam.