Miguel Cardoso: quando o caminho explica o treinador
Há carreiras que não se explicam apenas pelos títulos. Explicam-se pelo caminho, pelas escolhas difíceis e, sobretudo, pela coerência. A de Miguel Cardoso é uma delas. Talvez por isso nunca tenha sido totalmente consensual em Portugal. Talvez por isso seja hoje mais respeitado fora do que dentro.
Formado na ciência, no estudo e no detalhe, Miguel Cardoso representa uma geração de treinadores portugueses que pensou o jogo antes de o gritar. Licenciado, mestre, pedagogo, construiu o seu percurso longe dos holofotes, na formação e na estruturação de processos, antes de chegar ao alto rendimento. FC Porto, SC Braga, Sporting, Deportivo da Corunha e Shakhtar Donetsk fazem parte desse trajeto. Nada foi fruto do improviso. Tudo foi construção.
O Rio Ave marcou o momento de afirmação pública. Futebol positivo, identidade clara, coragem competitiva. Um quinto lugar histórico, 51 pontos e qualificação europeia. Mérito inequívoco. Ainda assim, o carimbo nunca ficou totalmente colado. Seguiram-se Nantes, Celta de Vigo e AEK Atenas – contextos instáveis, projetos frágeis, tempo escasso. Demasiado curtos para consolidar uma ideia, suficientemente expostos para marcar uma reputação. O futebol, hoje em dia, raramente oferece tempo a quem precisa de método. E Miguel Cardoso é, antes de tudo, um treinador de método. Um treinador de processo.
A distinção entre os 20 melhores treinadores do mundo no final de 2025 não foi apenas uma menção simbólica num ranking internacional. É, acima de tudo, o espelho de um percurso construído com coerência, convicção e trabalho num futebol cada vez mais impaciente e refém do aqui e agora. É o reconhecimento de quem caminhou longe do ruído mediático e das exposições simplificadas.
Num tempo em que o sucesso de um treinador é frequentemente medido pelo último resultado ou pela classificação mais recente, esta nomeação ganha um significado mais profundo. Valida um processo longo, sustentado numa carreira que cruza formação académica, reflexão teórica e prática constante no terreno. Miguel Cardoso nunca foi um treinador de atalhos nem de fórmulas milagrosas; fez do crescimento contínuo o seu maior ativo.
O próprio rejeita a ideia de ponto de chegada. Prefere encarar este reconhecimento como um momento de avaliação. Como o próprio me confessou: «Perceber o que foi feito, o que poderia ter sido melhor e o que ainda está por fazer.» Essa capacidade de olhar para trás sem complacência e para a frente sem arrogância ajuda a explicar a solidez do seu percurso. Porque, como reconhece, «ninguém chega aqui sozinho. Há clubes, dirigentes, equipas técnicas, colaboradores, jogadores e famílias que sustentam cada passo. Esta distinção é, também, uma celebração coletiva».
Foi fora de Portugal que verdadeiramente se construiu enquanto treinador principal. Tunísia e África do Sul. Contextos distintos, culturas diferentes, desafios desportivos e humanos exigentes. Em todos, uma constante: adaptação sem abdicação. Flexibilidade sem perda de identidade.
Na Tunísia, ao comando do Espérance de Tunis, um dos clubes mais exigentes e vencedores do continente africano, Miguel Cardoso voltou a confirmar a consistência do seu trabalho. Conduziu o clube ao título nacional tunisino e levou-o até à final da Liga dos Campeões Africanos, numa competição onde a pressão, a exigência emocional e a instabilidade fazem parte do quotidiano. Fê-lo mantendo a sua ideia de jogo, num contexto onde ganhar é obrigação, mas onde nem sempre há paciência para processos. Esse percurso foi particularmente revelador da sua capacidade de liderar em ambientes de alta exigência competitiva, social e cultural, consolidando a sua credibilidade internacional.
E aqui importa sublinhar uma das ideias-chave do pensamento de Miguel Cardoso: a identidade pertence aos clubes; as equipas expressam modelos de jogo. O treinador pode ter identidade, mas o jogo é sempre uma construção contextual. Não existe futebol desligado da cultura, da história, das pessoas e do meio onde se pratica. Essa visão ajuda a explicar a sua capacidade de se inserir em realidades tão distintas, respeitando-as e potenciando-as.
O Mundial de Clubes, liderando o Mamelodi Sundowns, foi um dos momentos mais claros dessa afirmação. Depois de uma final da Liga dos Campeões Africanos em que sentiu que a equipa não conseguiu apresentar a sua melhor versão, a competição global surgiu como espaço de reencontro. Um apelo simples e profundo: sermos nós. Recuperar valores, princípios, ideias de jogo e identidade coletiva. Mostrar ao mundo não apenas resultados, mas uma forma de jogar pensada, treinada e assumida.
A resposta foi clara. O desempenho no Mundial de Clubes projetou internacionalmente não apenas o trabalho da equipa, mas também a qualidade do clube, da estrutura e do futebol ali praticado. Para Miguel Cardoso, foi uma oportunidade de afirmação pessoal e profissional, mas também a confirmação de que a fidelidade aos princípios, quando bem trabalhada, gera competitividade. E a competitividade gera resultados.
No plano técnico, o seu modelo de jogo é exigente, contemporâneo e profundamente estruturado: ofensivo, dominante, equilibrado e adaptável aos contextos. Equipas que querem ter bola, jogar em espaços curtos, ligar setores e assumir o controlo através de uma reação imediata à perda e de uma pressão organizada. Mas também equipas capazes de variar, de atacar a profundidade, de reconhecer os momentos do jogo e de se ajustar ao adversário sem abdicar da identidade. Um modelo moderno, mas regulado, onde a ousadia convive com o rigor.
A ideia de jogo não nasce do improviso nem da adaptação permanente ao oponente, mas de uma convicção clara: o futebol é um sistema de comportamentos organizados. Por isso, as suas equipas procuram assumir a iniciativa, valorizar a posse com intenção, construir desde trás e chegar à baliza com critério. Não há posse ornamental. Há controlo. Há ocupação inteligente do espaço. Há criação de superioridades com sentido e propósito.
Defensivamente, a lógica mantém-se intacta: pressão coletiva e estruturada, reação imediata à perda, blocos compactos, distâncias curtas. A recuperação da bola não é um momento isolado, mas consequência direta da forma como se ataca. Tudo está ligado. Tudo comunica. Tudo faz parte do mesmo organismo que é a equipa.
É neste enquadramento que a periodização tática assume um papel central. Miguel Cardoso pertence à escola que entende o treino como prolongamento do jogo e o jogo como expressão máxima do treino. O físico, o técnico, o tático e o mental não se separam: treinam-se em simultâneo, dentro da mesma ideia. Não há treino descontextualizado nem exercícios desligados do modelo. Há repetição com significado, elevada exigência cognitiva e responsabilização coletiva.
É uma abordagem que exige tempo, estabilidade e jogadores disponíveis para pensar o jogo. Talvez por isso nem todos os contextos europeus lhe tenham permitido revelar plenamente quem é enquanto treinador. Talvez por isso tenha sido necessário sair do epicentro do futebol europeu para encontrar o alinhamento certo entre ideia, contexto e ambição.
Na África do Sul, no Mamelodi Sundowns, encontrou esse contexto. Uma convergência clara entre a sua visão, a identidade do clube, a direção desportiva e a propriedade. Uma sintonia rara num futebol onde a estabilidade é muitas vezes exceção.
Mas se o modelo explica o que as equipas fazem em campo, é na liderança que se percebe quem é Miguel Cardoso fora dele. Afasta-se da figura autoritária e centralizadora. Acredita num treinador agregador, catalisador de pessoas, motivador da estrutura. Um líder que cria ambientes exigentes, mas humanos, onde todos se sentem parte da construção coletiva.
A proximidade com os jogadores não significa ausência de regras, mas clareza de princípios. Valoriza o diálogo, a empatia e a construção conjunta, sem abdicar da exigência, da responsabilidade e da meritocracia. Num balneário moderno, exposto a uma pressão social permanente, essa sensibilidade tornou-se decisiva. Os jogadores reconhecem rapidamente a incoerência, a injustiça e a falta de credibilidade. E é aí que nasce a verdadeira autoridade: na coerência entre discurso, treino e decisão.
O treinador moderno é hoje muito mais do que um estratega. É, como costumo dizer, um influencer de comportamentos. É um gestor de pessoas, líder de processos, organizador de estruturas, avaliador permanente – uma espécie de CEO desportivo. Miguel Cardoso assume essa função com a consciência de que o sucesso é sempre coletivo. Como ele próprio reconhece, somos grandes porque estamos aos ombros de gigantes.
Num futebol onde a pressa atropela projetos, o percurso de Miguel Cardoso lembra-nos que ainda há espaço para caminhos pensados, lideranças sustentadas e sucesso construído com tempo. A distinção entre os melhores do mundo não surge como surpresa, mas como consequência lógica de um trajeto coerente.
Mais do que um prémio individual, é a confirmação de que o futebol ainda reconhece quem trabalha bem, quem pensa o jogo e quem respeita as pessoas.
Nota final: Um muito obrigado ao Miguel Cardoso por ter colaborado neste artigo.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator – a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».