São Paulo atravessa a maior crise de história vencedora
Na quarta-feira, Julio Casares, presidente do São Paulo, renunciou ao cargo, cinco dias após o Conselho Diretivo são-paulino ter votado o seu impeachment por casos de corrupção relacionados à venda de camarotes no MorumBis, estádio do clube. Nessa noite, no mesmo MorumBis, a velha glória Aloísio Chulapa foi um dos muitos adeptos que ficaram presos entre torniquetes por culpa de falha técnica nos acessos. Ainda assim, foi a tempo de ver o tricolor perder para o Paulistão, por 2-3, em casa, com a Portuguesa, hoje na Série D, a quarta divisão do Brasileirão.
Em 2026, o São Paulo vai ver três clubes do estado disputarem a Taça dos Libertadores, não apenas os rivais Palmeiras e Corinthians, como também o mesmo Mirassol que há duas semanas o bateu por 3-0, na estreia do Paulistão. Na antepenúltima jornada do Brasileirão de 2025, sofreu no Maracanã a pior derrota dos últimos 24 anos, um 6-0 para o Fluminense. Nos cofres, uma dívida de 160 milhões de euros, défices operacionais contínuos, transfer bans e investigações da polícia a Casares, o primeiro líder são-paulino na história alvo de destituição.
Mas o que aconteceu ao clube apelidado de «modelo» na primeira década do século XXI, vencedor da Libertadores de 2005, do Mundial de Clubes do mesmo ano, e do Brasileirão três anos seguidos, de 2006 a 2008? «Na altura, nenhum outro clube brasileiro tinha infraestruturas, como academias, e o São Paulo já tinha duas, de topo, para os profissionais e para a formação, departamentos médicos modernos, foi quem melhor se adaptou à Lei Bosman no mercado e era dono do melhor estádio da cidade», conta Arnaldo Ribeiro, jornalista e autor de “Os Dez Mais do São Paulo”, a A BOLA.
«Esse estádio, na época Morumbi, hoje MorumBis por razão de patrocínio, era o melhor da cidade e devia ter sediado o Mundial 2014 mas por manobras políticas a opção foi pelo estádio, construído de raiz, do Corinthians, o que gerou uma mudança de forças», continua Ribeiro, referindo-se aos três títulos do Brasileirão, à Libertadores e ao Mundial de Clubes conquistados pelo Timão na segunda década do século. «Em paralelo, os outros dois grandes clubes do Brasil, o Flamengo e o Palmeiras, reestruturam-se, fazem academias, contratam profissionais de topo em todas as áreas e abatem as dívidas.»
Já o São Paulo fez o percurso inverso. «E, perdendo protagonismo, o clube perdeu-se, as administrações, outrora tão elogiadas, passaram a ser más desportiva e economicamente, o clube não conseguiu mais contratar grandes jogadores nem fazer grandes vendas, porque tinha a melhor formação do país mas também aí já foi ultrapassado, e hoje vive o pior momento da história até porque teve o pior presidente da história», completa o ex-jornalista da ESPN Brasil, SporTV, Placar, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e outros veículos.
Solução? «As SAF [SAD em Portugal] são vistas como solução mas o São Paulo é diferente de outros clubes comprados porque é muito caro, tem um património enorme, estádio gigantesco, duas academias maravilhosas, então, quanto custa o clube? Difícil avaliar», diz Ribeiro. Porém, ainda é o terceiro emblema mais popular do país, só atrás de Fla e Timão, à frente de Palmeiras e de Vasco da Gama e de todos os outros gigantes, e conta com estrelas, como o argentino Calleri ou o ala Lucas Moura, jóias emergentes, como Marcos Antônio, e até um campeão europeu, Cédric Soares.