Um Sporting mais sólido ou impossível de sustentar?
O Sporting vive hoje um período desportivo positivo. Contudo, o sucesso não dispensa reflexão crítica e atenta. Devemos, aliás, ter a lucidez de preparar o futuro. Curiosamente, uma das áreas onde identifico maior espaço para melhorar situa-se exatamente numa das bandeiras desta Direção: a gestão financeira. Foi precisamente esse o motivo que me levou a aceitar o desafio de integrar a Lista A, liderada por Bruno Sá, com responsabilidade direta nesta área.
Se olharmos com atenção para os números mais recentes, encontramos algumas questões que não podem ser ignoradas.
Nos últimos dois anos, o passivo consolidado do Grupo Sporting aumentou em mais de 60 milhões de euros. Este crescimento acontece precisamente num período em que o clube beneficiou de receitas muito elevadas — as maiores da sua história — quer através de transferências de jogadores, quer através da participação nas competições europeias.
Ao mesmo tempo, verificamos um aumento muito significativo da dívida a fornecedores, que passou de cerca de 39 milhões de euros quando esta Direção tomou posse para aproximadamente 119 milhões de euros atualmente.
Ou seja: a dívida a fornecedores triplicou.
Triplicar dívida nunca é um detalhe contabilístico. É sempre um sinal financeiro que merece ser levado a sério.
Recordo que os próprios 39 milhões de euros foram, no passado, apresentados por esta Direção como um valor extremamente elevado e um problema que o Sporting deveria evitar no futuro.
Acresce que, recentemente, o Grupo Sporting recorreu ainda a uma emissão de cerca de 225 milhões de euros em dívida obrigacionista, com uma taxa de juro de 5,75% ao ano, por 28 anos.
Uma taxa elevada, que significa pagar milhões de euros em juros todos os anos durante décadas.
Importa ainda lembrar que, segundo a própria Direção, parte deste financiamento serviu, entre outros objetivos, para fazer face a necessidades financeiras de curto prazo.
Traduzido de forma simples: estamos a emitir dívida de muito longo prazo, a uma taxa elevada, para resolver compromissos imediatos — quase como se de uma bola de neve financeira se tratasse.
Quando a dívida cresce mais depressa do que a capacidade de a pagar, a prudência deixa de ser uma opção — passa a ser uma obrigação.
Sabemos, com clareza, para que outros fins será destinado este financiamento de 225 milhões de euros?
Continuamos a ter pouca informação e pouco envolvimento dos sócios em decisões financeiras desta dimensão.
Uma taxa elevada, que significa pagar milhões de euros em juros todos os anos durante décadas.
Importa ainda lembrar que, segundo a própria Direção, parte deste financiamento serviu, entre outros objetivos, para fazer face a necessidades financeiras de curto prazo.
Traduzido de forma simples: estamos a emitir dívida de muito longo prazo, a uma taxa elevada, para resolver compromissos imediatos — quase como se de uma bola de neve financeira se tratasse.
Quando a dívida cresce mais depressa do que a capacidade de a pagar, a prudência deixa de ser uma opção — passa a ser uma obrigação.
Sabemos, com clareza, para que outros fins será destinado este financiamento de 225 milhões de euros?
Continuamos a ter pouca informação e pouco envolvimento dos sócios em decisões financeiras desta dimensão.
Outro exemplo que merece maior transparência é a operação de aquisição da sociedade detentora do Alvaláxia. Até hoje, os sócios não conhecem com clareza todos os detalhes desta operação: como foi financiada, que responsabilidades financeiras foram assumidas e qual o impacto real nas contas do clube.
Perante todos estes factos, parece-me legítimo colocar algumas perguntas simples, mas fundamentais.
Se estamos num dos períodos financeiramente mais favoráveis dos últimos anos — com receitas recorde de transferências e de competições europeias — porque continua o passivo a crescer de forma tão expressiva?
Se a estrutura financeira do Sporting é hoje mais robusta, porque tivemos de recorrer a financiamento de 225 milhões de euros a uma taxa de 5,75%?
E porque razão a dívida a fornecedores aumentou de forma tão expressiva?
Estamos de facto a tornar o Sporting mais sólido financeiramente — ou estamos apenas a aumentar a sua dimensão e os seus compromissos empurrando a dívida para a frente?
Porque, quando o passivo cresce, quando a dívida a fornecedores dispara e quando se recorre a financiamento de centenas de milhões de euros a taxas elevadas, surge inevitavelmente uma questão a médio prazo: quem irá sustentar esta estrutura financeira no futuro?
Estará o Sporting verdadeiramente tão sólido financeiramente como nos é transmitido?
Ou estaremos a viver um momento de entusiasmo coletivo, sustentado por bons resultados desportivos e por receitas extraordinárias, enquanto a estrutura de dívida permanece elevada — quase como se estivéssemos numa grande celebração cuja conta, inevitavelmente, os sócios terão de pagar mais tarde.
Perante este cenário, é importante questionar o seguinte: mantendo-se este nível crescente de endividamento, poderá o Sporting vir a ser pressionado a abrir a sua SAD à entrada de investidores externos?
Não afirmo que esse seja o caminho. Mas também não devemos fingir que essa possibilidade não existe.
Se queremos garantir que o Sporting continua a pertencer aos sportinguistas, então devemos discutir estas questões com transparência, enquanto ainda estamos em posição de escolher o nosso futuro.
Porque a verdadeira independência de um clube começa sempre pela sua independência financeira.
Porque um clube verdadeiramente forte não é apenas aquele que ganha hoje.
É aquele que se prepara para continuar forte durante muitos anos.
O verdadeiro teste à solidez de uma instituição não acontece nos anos em que tudo corre bem. Acontece quando surgem as dificuldades.
Os períodos de sucesso devem servir para reduzir riscos, fortalecer a estrutura financeira e preparar o futuro — não para aumentar a dependência de receitas extraordinárias ou de financiamento cada vez mais pesado.
Todos queremos celebrar títulos, vitórias e noites europeias memoráveis. Mas também temos o dever de garantir que o entusiasmo de hoje não se transforma numa fatura pesada para os sócios amanhã.
Porque, no final do dia, todos queremos um Sporting cada vez mais forte e capaz de prosperar de geração em geração.
E esta é precisamente uma das razões pelas quais a nossa lista se apresenta.
Porque, no fundo, não existe dinheiro do clube — existem apenas responsabilidades que todos nós, sportinguistas, acabamos por assumir.
Quem sustenta verdadeiramente o Sporting — ontem, hoje e amanhã — são os seus sócios e simpatizantes.