Os adeptos do futebol
No início dos anos 60 do século passado, ser adepto do FC Porto era um ato de fé, apenas comparável a uma prece quase desesperançada mas carregada de uma intensa religiosidade fervorosa. Ganhar era um sonho que só um milagre tornaria possível, tais eram as montanhas, imponentes, que se erguiam ante nós.
Nesses anos, ser adepto do FC Porto era um sonho de profunda convicção e de crença absoluta no dia em que tudo mudaria e que nós, o Porto, seríamos invencíveis. Lembro-me como se fosse hoje. Ir a Lisboa era o maior dos desafios para nós, portistas. Um dia que o Porto foi jogar a Lisboa, estava eu em Santa Apolónia quando chegou o comboio vindo do Porto, com os nossos jogadores. Iam jogar com o Sporting. Vi-os desfilar diante de mim. Contemplei-os como um jovem adepto que vê, admira e venera os seus ídolos.
Entre todos eles, vi o Gomes, o Fernando Gomes. Nessa altura, eu nem tinha bem a noção do que era o Fernando Gomes, o capitão glorioso, bibota de ouro, goleador implacável, jogador fino e elegante, mas letal. Nessa altura, eu só sabia que ele era o Gomes e ganhei toda a coragem que tinha para lhe dizer, ganhem o jogo amanhã, ganhem ao Sporting, Perdemos, mais uma vez. Mas eu não perdi a esperança, nunca, de um dia sermos invencíveis. Nesse tempo, sofríamos muito com as derrotas inevitáveis. Eram tão inevitáveis que eu sofria de frustração, mas nunca de resignação.
Eu acreditava. Sempre acreditei. E, nessa altura, o que eu mais queria era ganhar ao Benfica, o colosso europeu dos anos 60 e 70 que deslumbrava futebol. Cada jogo com o Benfica era uma dor, um sofrimento, uma raiva chorada. Quando é que poderíamos ganhar-lhes, quando é que poderíamos suplantá-los, ser melhores do que eles?
Os anos 80 do século XX chegaram. E, com eles, a hegemonia portista do futebol português. E europeu e mundial, por instantes. Éramos, finalmente, invencíveis, superiores, demolidores e temidos. O Benfica e o Sporting temiam-nos, como nós antes os tínhamos temido.
Lembro-me como se fosse hoje. Junho de 1978: como é possível esquecer aquele dia 11, um dia cheio e luminoso que nos resgatou de uma escuridão de 19 anos? O Estádio das Antas estava tão pequeno, naquela tarde! Mas nele couberam todos os que queriam ver, sentir e celebrar o dia histórico do regresso do Futebol Clube do Porto! E lá estava eu, sozinho entre milhares de gargantas e olhos e corações e lágrimas e sufocos e espasmos e explosões de alegria. Tanta alegria.
Dizem-me que desmaiei quando a equipa entrou em campo. Não me lembro disso, mas lembro-me de ter visto uma cratera impossível entre as dezenas de espectadores à minha volta que me deixavam respirar e me perguntavam se eu estava bem. Se eu estou bem? Claro que estou bem. Ali estavam eles, comigo: Fonseca, Rodolfo, Simões, Freitas e Murça. Octávio, Oliveira e Ademir. Seninho, Gomes e Duda. O Gomes marcou dois. Eu estava lá. Vi perfeitamente.
No ano seguinte, a mesma história. Éramos bicampeões, carago! 4-1 contra o Barreirense e o início de uma história sem fim à vista.
Hoje, somos gigantes. Mas continuamos a ser, como eu quero, um clube do Porto. Podemos ter ganho muitos campeonatos, podemos ter sido campeões europeus e do Mundo, mas continuamos a ser o clube do Porto, aquela cidade que se agarra a ti como uma mãe. Nunca ninguém deixa de ser do Porto. Nunca!
António Lobo Antunes, que desenhou palavras inesquecíveis e emocionantes, amava o futebol, apesar de ser benfiquista. Disse um dia, creio que à revista Ler, que o futebol «era pura criação, uma atividade eufórica, uma magia cinzelada, uma nascente de prazer, uma inspiração, um entusiasmo». É difícil dizer tanto sobre o futebol como disse António Lobo Antunes. Mas ele conseguiu resumir aquilo de que eu mais gosto no futebol. A alegoria da vida, a fusão de emoções, a elevação, a superação, a felicidade. É tudo isto o futebol, mas o que eu amo, acima de tudo, é o futebol do adepto. Hoje, só resta o adepto no futebol. Tudo o mais são figurantes. Jogadores que envergam a nossa camisola, não a deles. Jogadores que beijam o emblema no calor da euforia, no êxtase de um golo. Sem sentirem o emblema.
O futebol é dos adeptos, não dos patrocinadores. Mostra-me um adepto, na bancada de um estádio de futebol, que esteja a sentir o jogo como uma indústria. Mostra-me um adepto sentado numa bancada de um estádio de futebol que esteja a vibrar com o valor de mercado daquele ponta de lança ou no lucro que aquele lateral nos vai render. Diz-me um, e eu calo-me. Mas, antes disso, deixa-me falar-te do futebol que eu amo. O ruído de um estádio. Alguma vez paraste para sentir e ouvir o som de um estádio de futebol? Sim, ele fala contigo. Alguma vez olhaste para as expressões dos adeptos? Aquele esgar de ansiedade, aquele rubor de felicidade, aquele rejúbilo de golo, aquele olhar suplicante que se transforma em dor — ou em alegria.
Vi, há dias, num FC Porto-Arouca, uma imagem que idolatra o futebol. Penálti para o Porto. 91 minutos, estava 1-1. Na bancada, mãe e filha. A mãe sucumbe à emoção. Tapa os olhos, não quer ver, não consegue enfrentar o risco de uma perda irreparável. A filha, excitada pelo momento, olha para a mãe, vê o gesto de desespero e esperança e desvia o olhar, em respeito. Mãe e filha, diante do mesmo penálti, partilham a mesma emoção. A mãe não quer ver, a filha sofre pelas duas. Sim, a filha sofre pelas duas. E as duas exultam quando o estádio urra de alegria, que som aquele, que estrondo de felicidade e de alívio, que força aquela, a dos adeptos. Naquele momento, fez-se futebol. Confesso que me emocionei e, como sempre, chorei.
Choro muito a ver futebol. Sempre de alegria. É a minha força. Estou vivo para me emocionar, para me arrepiar pelos golos, pelas conquistas, pelo esforço.
Lembro-me como se fosse hoje. Tínhamos de ganhar ao Benfica para podermos ser campeões. Estava 1-1, jogávamos no Dragão, que nunca deixou de acreditar. Nem eu. Estava em casa, desesperado, a assistir àqueles momentos finais, tenebrosos, negros, implacáveis. Até que Liedson desmarca Kelvin, Kelvin acelera para a área e de pé esquerdo remata e explode. Explodimos. Eu explodi. Corri pela casa, feito louco, aos gritos e a chorar, incontrolável. Estava a fazer-se futebol. Fez-se futebol. Aquele foi o segundo melhor momento da minha vida como adepto do FC Porto. O primeiro? Depois conto…
Na frente do campeonato, tudo na mesma. Para o FC Porto, o empate na Luz soube a derrota mas foi um mal menor. Quatro e sete pontos de vantagem e menos uma final para jogar. Com os sinais dados na Luz, as perspetivas são animadoras. Somos os únicos a depender de si próprios para chegar ao fim em primeiro. Falta o mais difícil.
Para o fim, uma sugestão. 'A tribo do futebol' é um livro notável de Desmond Morris. Escrito em 1981, o livro aborda o fenómeno do futebol à luz dos comportamentos sociais e das dinâmicas de grupo. A edição de 2016 tem prefácio de José Mourinho. Vale a pena ler.
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