Manifestação dos adeptos do Tottenham antes do recente jogo frente ao Nottingham Forest de Vítor Pereira - Foto: IMAGO
Manifestação dos adeptos do Tottenham antes do recente jogo frente ao Nottingham Forest de Vítor Pereira - Foto: IMAGO

Rico clube, pobre gestão: explicação para a crise do Tottenham

É considerado o clube financeiramente mais eficiente de Inglaterra e tem o estádio mais rentável da Europa. Histórico presidente saiu em setembro, substitutos têm errado nas escolhas de treinadores. Os que pediram a saída de Daniel Levy são agora os mesmos que pedem o seu regresso

A época desportiva do Tottenham pode tornar-se um caso de estudo. Um clube que tem a receita mais alta de bilheteira por adepto da Premier League e possui o estádio mais rentável da Europa, mas que corre o sério risco de descer de divisão e já despediu dois treinadores no espaço de sete meses: depois de Thomas Frank, neste domingo foi a vez de o machado cair em cima de Igor Tudor, ao fim de sete jogos.

A explicação pode estar na profunda mudança estrutural nos londrinos, ocorrida num momento que vai contra os livros: a 4 de setembro, depois do enceramento do mercado de transferências, Daniel Levy deixou de ser presidente executivo. O fim de um ciclo de 24 anos. A decisão foi tomada pela família Lewis, dona da maioria do capital da ENIC (que comprou o clube em 2001, também com a participação de Levy), justificando a decisão com a necessidade de o Tottenham se centrar numa gestão centrada no futebol e menos nos negócios.

De acordo com os antigos sócios, Levy pensou demasiado no cimento e nas libras em detrimento do projeto desportivo. Só venceu dois títulos no espaço de um quarto de século: uma Taça da Liga em 2008 e uma Liga Europa em 2025, porém foi sob a sua liderança que os Spurs ergueram um novo centro de treinos e um novo estádio, com capacidade para 68.850 lugares e considerada a infraestrutura desportiva mais rentável da Europa.

As especificidades do espaço provam-no: um campo relvado retrátil em 25 minutos que faz emergir um sintético que acolhe todos os eventos da NFL em Londres (contrato de 10 anos); a F1 Drive London, a primeira pista de karting elétrica da Fórmula 1, o The Dare Skywalk, em que os visitantes podem subir ao topo do estádio; ou mesmo a cervejaria própria de produção artesanal com uma técnica de enchimento capaz de tirar dez mil imperiais num minuto. Resultado: a média de gastos dos adeptos é o dobro da Premier League, as receitas de bilheteira passaram de 45 para 120 milhões de euros/ano, os ativos cifram-se em três mil milhões de euros e o passivo situa-se nos €860 milhões (a maioria da dívida é mobiliária). É considerado o clube mais eficiente em Inglaterra no rácio dívida/ativos. Um clube rico e saudável.

Falta de pulso

Com Levy de fora (e do ex-diretor desportivo, que rumou ao Parma), a gestão passou para as mãos de Vinai Venkatesham, ex-CEO do Arsenal, e de Johan Lange, ex-diretor desportivo do Aston Villa. Foi este último quem escolheu o compatriota Thomas Frank, que posteriormente o despediu e depois foi buscar Igor Tudor, entretanto demitido. É sobre o dinamarquês que recaem agora todas as críticas: decisões erráticas e sem critério nos perfis dos treinadores. Em média, um técnico durava um ano e 10 meses com Levy; com a nova gestão dura três meses e meio.

Ironicamente, os adeptos que realizaram protestos a pedir a saída de Daniel Levy são os mesmos que agora criaram nas redes sociais e no órgão de informação Football London o movimento Bring Back Levy (tragam o Levy de volta), pela «falta de pulso» dos atuais responsáveis. O substituto de Igor Tudor terá agora sete jogos na Premier League. Ocupa o 17.º lugar da tabela, com um ponto a mais que o primeiro clube abaixo da linha de água, o West Ham. Será o tudo por tudo para evitar a descida de divisão, o que seria provavelmente o maior paradoxo do futebol britânico e um dos maiores do futebol europeu.