'Raptado' pelo presidente do clube e levado... para um hotel de luxo
Agora no Brunei, ao serviço do DPMM, Miguel Oliveira passou duas vezes pelas divisões inferiores da Grécia, no Damasta e Atsalenios, experiências que marcaram o crescimento do avançado. Entre momentos positivos e outros mais desafiantes, viveu também episódios insólitos, como o dia em que, após marcar três golos num particular em Santorini, foi levado pelo presidente do clube para um hotel de luxo — do qual este era proprietário — e confrontado com uma proposta inesperada para ficar de imediato.
- Jogaste na Grécia, em duas ocasiões. Como é que foi a tua vida lá?
- A Grécia foi a primeira vez a sério que saí de Portugal para jogar. Já tinha tido uma experiência fora menos positiva e curta, por isso fui apreensivo. Podia correr muito bem ou muito mal. Acabou por me surpreender pela positiva. O estilo de vida era leve, treinava de manhã, como vivia na ilha de Creta, à tarde ia sempre para a praia aproveitar. Gostei muito de lá estar e foi um passo muito importante.
- Gostaste mais da primeira ou da segunda experiência lá?
- Gostei mais da primeira experiência. Senti-me valorizado, as condições eram boas, e foi um passo positivo na minha carreira. Depois apareceu a pandemia e parou tudo, tive de regressar a Portugal. A segunda vez foi diferente, não tão positiva. Mas essas experiências ajudam a perceber aquilo com que não nos identificamos e aquilo que queremos para a nossa carreira.
- Porque decidiste voltar para a Grécia?
- Entre a primeira e a segunda passagem na Grécia, ainda fiz meia época no Condeixa. Regressei a Portugal por causa da pandemia. Na altura, não queria ficar parado nem perder ritmo competitivo, e o Condeixa deu-me essa possibilidade de continuar a competir e manter-me ativo. Gostei de lá estar, foi bom para mim. Trabalhei com o Mister Rui Amorim, o grupo era incrível, apesar das circunstâncias que estávamos a viver, acabou por ser uma fase positiva no meu percurso. Depois do Condeixa, senti que esta era última oportunidade que daria a Portugal, ou surgiam convites para divisões superiores, ou teria de apostar fora. Quando voltou a surgir a hipótese de ir para a Grécia, a parte financeira teve peso na decisão. Era uma proposta superior ao que tinha em Portugal e sentia que iria ser mais valorizado como jogador. Percebi que, se queria continuar a evoluir e crescer, tinha de apostar novamente no estrangeiro. Foi uma decisão consciente.
- Algum episódio lá que te tenha marcado?
- Uma das que mais me marcou foi em Santorini. Fui lá fazer um jogo de preparação, marquei três golos e o presidente do clube ficou encantado. Nesse dia, a minha namorada estava a chegar de barco e tínhamos combinado ficar uma noite para conhecer a ilha. No final do jogo, quando ele soube disso, disse para o acompanharmos. Entrámos no carro sem fazermos ideia ao que íamos. Começou a conduzir por estradas no meio do nada, nós sem internet, sem perceber para onde estávamos a ir… e de repente parámos num hotel incrível, com uma vista brutal sobre o mar. Foi aí que percebi que, além de presidente do clube, ele também era dono de um dos melhores hotéis da ilha. Ofereceu-nos a estadia com tudo incluído e pouco depois perguntou-me: «Quanto queres para ficar já cá a jogar?»
Aí percebi que não era só simpatia, havia mesmo um interesse em contratar-me. Mas foi daqueles momentos em que percebes como o futebol te coloca em situações completamente inesperadas.
- Houve algum momento da tua carreira em que pensaste: «O que é que eu estou aqui a fazer?»
- Já houve momentos em que pensei isso. É normal, quem anda no futebol sabe que nem tudo corre como planeado. Ordenados em atraso, promessas não cumpridas, assinar por um clube e entrar em insolvência pouco tempo depois. Assinei pelo Gibraltar United, estava em pré-época em Marbella e a fazer jogos de preparação contra equipas inglesas do Championship. O projeto parecia sólido e ambicioso, sentia-me motivado para começar e as coisas estavam a correr bem. De um momento para o outro, começaram a surgir notícias de alguns problemas financeiros do ano anterior, tudo descambou, o clube deixou de reunir condições para competir e acabou naquele ano. Acabámos por chegar a um acordo para resolver a situação e finalizar o meu contrato. Custou porque tinha criado expectativas, mas aprendi que ficar preso a isso não leva a lado nenhum. Ou deixas que te deite abaixo e desistes ou aprendes a lidar com essas dificuldades e continuas a lutar.
- Olhando para trás, Grécia, Kuwait e agora Brunei são capítulos diferentes. O que cada um te ensinou?
- Na Grécia aprendi a sair da zona de conforto e cresci muito enquanto pessoa. No Kuwait, senti um crescimento enorme a todos os níveis, foi uma fase onde o trabalho duro foi reconhecido e me ajudou a consolidar como jogador.E agora, no Brunei, sinto que cheguei a uma fase mais madura da minha carreira. Aqui encontro estabilidade e um ambiente que me permite focar-me totalmente em evoluir e dar o meu melhor dentro de campo.
- Tens algum arrependimento?
- Não gosto de falar em arrependimentos. Até as decisões que correram menos bem ensinaram-me muito. Se pudesse voltar atrás, provavelmente teria feito escolhas diferentes em algumas fases, principalmente quando era mais novo, sem muito direcionamento ou acompanhamento. Mas na altura fiz sempre o melhor que podia com o que sabia e foi isso que me trouxe até aqui.
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