Unidade
1 — No contexto das suas críticas à política nacional durante o conturbado período pós-Revolução Liberal, Almeida Garrett consolidou a expressão «um povo que não se governa nem se deixa governar» atribuída em termos históricos a Júlio César, descrevendo os lusitanos aquando da conquista da Ibéria.
Esta frase encaixa-se-nos como uma luva. Como encaixa naquilo a que dediquei o meu último texto em que, sob o título «Haraquíri», nos procurei identificar as características das comunidades que conseguem ser os maiores inimigos de si próprias. Socorro-me aliás do elenco apresentado pelo excelente vitoriano, e meu amigo, José João Torrinha, que nos recordou que dos seis presidentes que conheceu, quatro demitiram-se a meio dos respetivos mandatos, um não se recandidatou após a descida de divisão e o outro saiu copiosamente derrotado nas urnas.
Desde a saída de Pimenta Machado, em 2004, o Vitória teve cinco presidentes e elegerá brevemente o sexto. Há aqui um padrão que nos deve fazer refletir muito seriamente. Porque se formos os maiores inimigos de nós próprios, será sobre nós que recairão as consequências dessa falta de estabilidade, ausência de projeto e de rumo.
Já agora, no mesmo intervalo de 22 anos, Benfica e FC Porto tiveram dois presidentes e o SC Braga apenas um. O Sporting teve seis presidentes, sendo que foi desde a consolidação da atual liderança, após 2018, que conseguiu obter as suas maiores conquistas. Isto explica muita coisa.
2 — Esta semana o universo vitoriano foi surpreendido com a demissão e intenção de não recandidatura de António Miguel Cardoso, Presidente do Vitória eleito com a maior expressão eleitoral de sempre, apenas um ano depois dessa eleição. E isto não é compreensível sob nenhum ponto de vista.
Fui defensor da gestão de António Miguel Cardoso, concordei com grande parte das suas opções, tanto desportivas como financeiras – como, aliás, 89% dos vitorianos – não atribuindo aos erros que sempre surgem qualquer relevo num balanço claramente positivo à sua liderança.
Ainda no meu último texto referi que as opções de que discordei “não são suficientes para esquecer tudo o que se conseguiu, alterou e conquistou” querendo com isso antecipar que, apesar da previsível apresentação de demissão, considerava que os vitorianos deveriam reconduzir um mandato abruptamente interrompido.
E sob esse prisma, o que surpreende não é a demissão, mas a intenção de não recandidatura. E com muita franqueza, por muito compreensíveis que possam ser as razões de natureza pessoal que tenham ajudado a esta decisão, não considero aceitável nem compreensível a interrupção a meio de um mandato para o qual os vitorianos atribuíram um voto de confiança ímpar na nossa História.
Ao nos propormos para o cumprimento de um mandato, ele deixa de ser apenas nosso, o sentido de responsabilidade relativo ao seu cumprimento sobrepõe-se-nos, salvo situações de verdadeira exceção, que manifestamente não surgiram neste momento. E as infelizes declarações da quarta jornada não são, claramente, o motivo para esta tomada de posição. O que é mau para todos. Mau para António Miguel Cardoso e para o legado do seu percurso, mas é sobretudo mau para o Vitória que com eleições em junho, elegerá um presidente que apenas conseguirá preparar a próxima época em julho, a escassas três semanas do seu início – o que não é aceitável.
3 — Após a análise a uma saída que considero totalmente incompreensível, queria-me referir à especulação em torno dos números relativos ao crescimento do passivo, porque têm sido referidos como surpreendentes e até justificativos desta decisão de AMC.
Recordando que na época passada a SAD apresentou um resultado líquido de €7,6 M (algo que já não víamos acontecer há muitos anos), é evidente que o eventual crescimento do passivo é claramente negativo mas, se formos sérios, não pode ser considerado surpreendente para quem esteja inteirado do nosso déficit estrutural.
Sabemos que desde o início do mandato de AMC as receitas próprias ascendiam a apenas 25% (€6 M) das despesas fixas, e agora, desde o regresso dos direitos televisivos, as receitas próprias atingem uns mais confortáveis 50% (€13 M) das despesas fixas previstas em orçamento, que no último orçamento ascenderam a €26 M.
O que significa que ou conseguimos realizar €13 M em vendas de ativos ou, inevitavelmente, esse montante contribuirá para engrossar o passivo. Mas convém esclarecer que estes €26 M não incluem o investimento em novos jogadores, isto é, se por ex. investirmos €4 M por época aquelas despesas já ascendem a €30 M e o valor a realizar já precisa de ser de €17 M o que, se adicionado dos juros devidos pela antecipação de receitas implica uma necessidade de realização de um valor a rondar os €20 M.
Isto, todas as épocas! Por isso, para analisarmos estes dados com seriedade é preciso que quem critique o desempenho financeiro se comprometa com a venda dos ativos suficientes para cobrir este défice estrutural, anual, do nosso clube. O crescimento do passivo é objetivamente um mau sinal, mas temos o dever de seriedade de dizer que só com a venda dos nossos ativos conseguimos ter desempenhos financeiros animadores.
Se fizermos a vontade aos adeptos não vendendo os nossos principais jogadores, os resultados financeiros nunca poderão ser positivos. Se tapamos a cabeça, destapam-se os pés. É preciso dizer a verdade às pessoas e pela minha parte recuso-me a contribuir para o arrastar de uma certa hipocrisia que continuará a prejudicar quem se siga à frente dos destinos do Vitória.
4 — O Vitória precisa de estabilidade; e de unidade. A gravidade do momento exige ponderação e reflexão sérias, um toque a reunir ao invés do desfilar de ambições individuais a que temos assistido.
Esta altura é de sabermos sobrepor a imagem do Vitória às legítimas ambições pessoais. Porque o momento assim o exige. E a dimensão e sobretudo respeitabilidade do nosso clube, assim o demandam.