Marie-Louise Eta, a ‘Dama de Ferro’ para fazer história num clube muito especial
«Na política, se queres que algo seja dito, pede a um homem; mas se queres que algo seja feito, pede a uma mulher.» Num discurso dirigido a uma plateia de mulheres, em 1965, Margareth Thatcher dizia ao que vinha, mostrando que para singrar num mundo maioritariamente masculino teria de possuir um pulso mais firme que todosos demais. A primeira ministra de Inglaterra entre 1979 e 1990 ficou eternamente conhecida como Dama de Ferro, cujo perfil foi determinante, por exemplo, ao feroz combate ao hooliganismo e à necessidade de uma viragem de 180 graus no futebol britânico, daí nascendo as bases para um novo campeonato, em 1992, que viria a ser conhecido como Premier League.
Foi preciso esperar 61 anos depois desse discurso na Associação Nacional de Mulheres Urbanas, em Inglaterra, para o futebol europeu de elite abrir finalmente a porta de um balneário ao género feminino, com a nomeação de Marie-Louise Eta para o cargo de treinadora principal do Union Berlim, da Bundesliga, na Alemanha, onde atua o defesa central português Diogo Leite. E como tantas vezes a história se repete, o perfil da escolhida não podia ser outro: aí está, tal como a generalidade da imprensa alemã a descreve, a Dama de Ferro.
A expressão decorre do que é como líder, mas também o que era como jogadora e até da forma como vê o futebol. Enquanto profissional, venceu uma Champions feminina em 2010, pelo Turbine Postdam, o que lhe confere a autoridade de quem ganhou lá dentro, atuando como média; como treinadora, nas várias fases em que foi passando, assume-se como uma herdeira de um futebol vertical, físico, assente em transições rápidas.
«Para mim, a estabilidade defensiva é a base de tudo. Prefiro um sistema que permita transições rápidas, mas que nunca perca o equilíbrio central. Gosto de um futebol de alta intensidade e pressão alta, mas é preciso ser pragmática: o modelo deve adaptar-se às características dos jogadores que temos disponíveis no momento. O meu papel é dar-lhes as ferramentas e a estrutura tática, mas no último terço do campo quero que os jogadores tenham a liberdade e a coragem para decidir por instinto», disse, citada pela revista Kicker.
«Não me vejo como símbolo»
O facto de ser mulher é obviamente uma barreira a mais. «Mas o meu objetivo é convencer através da qualidade», revelou em várias entrevistas. «O conhecimento e o trabalho são mais importantes que o género», insiste a técnica, agora com 34 anos e que deixou os relvados aos 26, casada com Benjamin Eta, também ele treinador e antigo futebolista.
«Ser mulher é algo que normalmente os outros trazem para a mesa, não eu», afirmou em várias ocasiões uma especialista para quem o sistema tático é também uma sólida casa de partida, ainda que sem dogmas: tanto usa o 3x4x3 como é adepta do 4x2x3x1, a tática que provavelmente vai utilizar já a partir de sábado, na estreia diante do Wolfsburgo.
Considerada tantas vezes pioneira, Marie-Louise Eta recusa o rótulo. «Não me vejo como um projeto ou um símbolo. Vejo-me como uma treinadora que foi contratada pela sua qualidade e pelo trabalho que desenvolveu até aqui», afirmou, citada pela ZDF. Ainda que admita: «É um facto que, como mulher neste meio, as pessoas olham duas vezes. Tens de ser muito precisa e consistente para que não haja espaço para dúvidas que não existiriam com um homem.»
Mas ao final do dia o que contam são os resultados, o lado prático do futebol. «O que conta no balneário é se consegues ajudar o jogador a ser melhor. Se a explicação tática faz sentido, o género de quem a dá torna-se irrelevante», sublinhou. O pragmatismo foi levado ao extremo numa frase, na conferência de apresentação no Union Berlim, após a demissão de Steffen Baumgart: «Entendo o interesse mediático, mas para mim o foco é o treino das 10 horas. O barulho exterior não pode entrar em campo.»
No clube do povo
Não será por acaso que o momento histórico ocorre num clube conhecido por ser diferente. Afinal, o Union Berlim é provavelmente o emblema que leva ao extremo o conceito de clube do povo, o tal que em 2008, correndo o risco de não poder receber jogos no seu estádio, teve mais de 2.500 adeptos a trabalhar arduamente durante 140.000 horas em tarefas de construção civil de modo a garantir que o palco cumpria os requisitos da Bundesliga; ou que, quatro anos antes, viu os seus adeptos doarem sangue, cuja receita reverteu diretamente para os cofres do clube - na Alemanha estes atos não são apenas de generosidade, são efetivamente pagos pelo Estado.
É, pois, no Union, uma das associações desportivas que mais encerram em si o conceito de romantismo no futebol, que pela primeira vez uma mulher assume o comando técnico de uma equipa masculina num dos cinco principais campeonatos da Europa. Com pulso de ferro, espera-se.
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