O campeonato do Benfica não é ganhar ao Sporting
O Sport Lisboa e Benfica é, por natureza, um clube de vitórias. Não se trata de retórica nem de memória seletiva. Trata-se de identidade. O Benfica nasceu para ganhar, não para se conformar
A década de 90 marcou o período mais crítico da nossa história contemporânea. Um clube financeiramente fragilizado, desportivamente errático, institucionalmente vulnerável. A crise não foi circunstancial, foi estrutural. E exigiu decisões difíceis, muitas delas incompreendidas no seu tempo, mas determinantes para a reconstrução. Como escreveu José Saramago, é preciso sair da ilha para ver a ilha. Foi isso que o Benfica fez. Com custos. Com erros. Mas com direção.
Escrevo longe de Portugal, numa noite de domingo, após uma vitória frente ao Sporting Clube de Portugal que, paradoxalmente, me deixa insatisfeito. Porque há vitórias que não resolvem o essencial. Ganhar um dérbi tem valor, mas não define uma época. Não corrige um percurso. Não substitui um projeto. Mesmo o segundo lugar, a concretizar-se, não responde àquilo que o Benfica deve ser. O nosso campeonato não é esse.
Esta reflexão não nasce do impulso do momento. Precede o jogo. Resulta de uma inquietação mais profunda. O Benfica de hoje revela sinais preocupantes de regressão. Não tanto pela posição classificativa, mas pela ausência de um rumo claro. Falta visão estratégica. Falta coerência na decisão. Falta densidade no pensamento.
A gestão em regime de contingência tem consequências inevitáveis. O insucesso desportivo não é um acaso, é um padrão. A política de contratações evidencia inconsistência. A instabilidade técnica tornou-se recorrente. Os custos acumulam-se, dentro e fora de campo. Paralelamente, a marca Benfica perde tração. Projetos anunciados e não concretizados, hesitações em dossiês estruturais, perda de protagonismo em temas centrais como os direitos televisivos. A Cidade Desportiva permanece uma promessa adiada. O Benfica District, uma incógnita prolongada. Estes sinais, tomados em conjunto, configuram mais do que episódios. Configuram uma tendência.
Há seis meses, os sócios pronunciaram-se de forma inequívoca. Rui Costa foi eleito com a maior votação de sempre. Um mandato robusto, sustentado numa confiança clara. Mas a confiança, em instituições exigentes, é sempre condicional ao desempenho. E o tempo de mandato que falta (mais de três anos!) não pode ser uma extensão do que já se verificou.
O que hoje se observa é um Benfica desprovido de intensidade competitiva. Uma equipa sem a expressão emocional que historicamente a caracterizou. Falta energia, falta convicção, falta aquela tensão positiva que distingue quem compete para ganhar de quem apenas cumpre calendário. E essa insuficiência não se explica apenas por fatores técnicos. Tem origem no ambiente organizacional, na cultura interna, no grau de exigência que a estrutura impõe a si própria.
Este cenário contrasta, de forma evidente, com o comportamento dos adeptos. A presença constante, o apoio incondicional, a mobilização permanente. O Benfica continua a ser sustentado por uma base social que não abdica, que não desiste, que não negoceia a sua paixão. É precisamente por isso que o clube não pode falhar nesse compromisso implícito.
O momento exige mais do que correções pontuais. Exige densidade. Exige competência. Exige uma reconfiguração rigorosa da estrutura, com recurso às melhores soluções disponíveis. Porque, no Benfica, os resultados não são um efeito colateral. São a própria razão de ser.
Sem essa inversão, o risco é claro: a banalização competitiva. Um Benfica previsível, permeável, desprovido da autoridade que historicamente impôs. Um Benfica onde o adversário entra na Luz com expectativa, não com respeito. Esse seria um desvio inaceitável àquilo que o clube representa.
Não é tempo de roturas inconsequentes nem de conflitos estéreis. É tempo de construção séria. De agregação qualificada. De reconhecimento de que a complexidade do momento exige abertura e inteligência coletiva. Foi essa leitura que Manuel Vilarinho teve ao integrar Luís Filipe Vieira no projeto desportivo. Não por conveniência, mas por necessidade estratégica.
Os estatutos do Benfica preveem um Conselho Estratégico. Um órgão consultivo, plural, apto a integrar diferentes perspetivas e competências. Nunca foi constituído. Trata-se de uma omissão difícil de compreender, sobretudo num contexto que reclama mais reflexão e menos isolamento decisório.
Por essa razão, solicitei ao Presidente da Mesa da Assembleia Geral que a criação deste Conselho seja levada a votação na próxima Assembleia. Porque organizações complexas não se fortalecem em circuito fechado. Fortalecem-se na diversidade de pensamento, na capacidade de escrutínio e na inteligência coletiva.
O universo benfiquista dispõe de capital humano qualificado. De ideias estruturadas. De experiências relevantes. Muitos dos candidatos às últimas eleições apresentaram contributos que merecem ser considerados. A divergência, quando bem enquadrada, não fragiliza. Enriquece.
A eventual ausência da UEFA Champions League agravará as exigências. Do ponto de vista financeiro, desportivo e reputacional. Não há margem para ilusões. O Benfica precisa de recuperar, em tempo útil, a sua capacidade competitiva plena.
A crítica, quando fundamentada, não deve ser evitada. Deve ser integrada. Porque aquilo que nos une ultrapassa largamente aquilo que nos distingue. O Benfica é, por definição, uma comunidade exigente.
Benfica não se explica. Sente-se. E quando esse sentir é pleno, indisciplinado e intransigente, não admite concessões nem tolera desvios. Não se revê na mediania, nem se satisfaz com o acessório. Porque, no Benfica, ganhar não é uma aspiração circunstancial. É critério. É referência. É ser Benfica.
O Benfica precisa de todos, e tenho a certeza que todos os benfiquistas estarão presentes.