Quando Mourinho chegou, o Benfica era terceiro, a 5 pontos (e um jogo a menos) do líder FC Porto (foto Miguel Nunes)

Mourinho e o 'direito' ao começo do zero

Mourinho voltou a falar e, como quase sempre, não se limitou ao jogo. Em Alvalade, construiu uma narrativa onde o Benfica surge resiliente e os rivais ficam sob suspeita, relançando o debate sobre mérito, contexto e liderança

A conferência de imprensa de José Mourinho após a vitória no Estádio de Alvalade foi mais um daqueles exercícios de comunicação que não deixam ninguém indiferente: assertivo, provocador e, como tantas vezes, cirurgicamente polémico. 

O treinador começou por sublinhar que o Benfica ainda não perdeu qualquer jogo na Liga e que, nos cinco confrontos já realizados frente aos três primeiros classificados – faltando apenas medir forças com o SC Braga na Luz – também saiu invicto.

De seguida, José Mourinho começou a adensar o teor do discurso. Fez questão de lembrar que o Benfica não venceu o primeiro jogo do campeonato, ainda que a cronologia mereça rigor: esse empate frente ao Rio Ave (1-1), disputado em atraso (1.ª jornada), surgiu já depois de três vitórias consecutivas e antes de novo empate, nos Açores, diante do Santa Clara. O técnico agarrou-se à ideia essencial: a equipa nunca liderou a prova – «o lugar onde queria estar» – e isso, na leitura do treinador, é fator de desgaste emocional… para os «jogadores». «É uma não motivação», definiu. Daí o elogio à «resiliência» de um grupo que, na prática, viveu sempre em perseguição – do lugar em que queria estar, o primeiro.

Mas Mourinho foi mais longe. Falou de vitórias alheias nos descontos, de penáltis discutíveis e até de lances caricatos, como o de Seko «Fofana, que tropeçou na bola», apontando o dedo ao contexto competitivo. E não poupou o Sporting, deixando a crítica embrulhada num pedido de desculpas protocolar «por estar em casa dele»: demasiados triunfos tardios, poucos por «mérito próprio».

O que Mourinho não disse, mas deixou implícito, é que também ele se inclui nesse exercício de resiliência. Chegou com a equipa no terceiro lugar, a cinco pontos do FC Porto, ainda que com um jogo em atraso, mas a verdade é que não foi capaz de a reposicionar na luta, em que, ressalva, nunca esteve. A mensagem parece clara: há trabalho, há contexto e há margem para um novo começo. Depois do triunfo em Alvalade, o capital simbólico cresceu – e dificilmente será irrelevante para Rui Costa, que terá já uma decisão alinhavada.

Mourinho deverá ter querido transmitir que tem a convicção de que lhe assiste o benefício da dúvida de continuar no Benfica na próxima época e de arrancar para esta em igualdade com os rivais? O treinador tem, no mínimo, o direito de ter essa convicção e de achar merecedor de uma oportunidade partindo do zero.

Aliás, o próprio Mourinho tratou de projetar o futuro, garantindo que contará «sem dúvida» com Andreas Schjelderup «e com todos os bons jogadores». Fica, no entanto, a interrogação: que lugar terão aqueles que foram visados – ainda que sem nomes -- após o empate com o Casa Pia, quando o treinador questionou o caráter competitivo do grupo? A mesma ferida foi reaberta, ao lamentar que esse deslize impeça o Benfica de depender apenas de si para chegar ao segundo lugar.

É aqui que a narrativa de Mourinho ganha contornos mais densos. Continuidade com evolução ou rutura com limpeza de balneário? A resposta ainda não existe, mas a pergunta já está feita – e, conhecendo o protagonista, dificilmente ficará sem consequência. A não ser que ocorra um volte-face, surpreendente, no próximo defeso, e a real e legítima segunda era de José Mourinho no Benfica fique adiada. Quiçá para sempre.