Para Hugo Oliveira, «o futebol português vale menos do que podia»
Para Hugo Oliveira, «o futebol português vale menos do que podia»

O dinheiro que não existe

Crónicas de bancada é o espaço de opinião de Hugo Oliveira, Sócio do Benfica e deputado à Assembleia da República

Portugal tem um talento particular para discutir a divisão de um bolo que quase ninguém tratou de fazer crescer. Nos direitos televisivos do futebol, esse talento tornou-se método. Reuniões, declarações, propostas, contrapropostas. Muito ruído, pouca consequência. E uma pergunta que continua por fazer.

Quanto vale, hoje, o futebol português?

O debate foi desviado para a distribuição. Quem recebe mais, quem recebe menos, se é justo, se equilibra, se protege. São questões legítimas, mas secundárias. Todas partem do mesmo erro de base: assumir que o problema está na forma como o dinheiro é dividido.

Não está.

O problema está no valor. No valor real que o campeonato consegue gerar num mercado onde ninguém paga por boas intenções.

E a resposta, sendo séria, não é confortável. O futebol português vale menos do que podia. E, em alguns pontos, menos do que devia. Não por falta de talento. Esse continua a sair em quantidade e qualidade suficientes para alimentar as maiores ligas do mundo. Não por falta de história. Essa ninguém nos tira. Vale menos porque, quando o produto é analisado de fora, há demasiadas coisas que não acompanham o que hoje se exige.

Olhe-se para o básico. Relvados irregulares, jornadas em que a qualidade do jogo começa condicionada antes do apito inicial. Quem paga direitos não compra imprevisibilidade neste ponto. Compra um padrão.

Olhe-se para o ritmo. Jogos interrompidos, pouco tempo útil, uma sensação de que o jogo anda mais a ser gerido do que jogado. Num contexto em que qualquer adepto tem acesso imediato às principais ligas europeias, isto não é um detalhe técnico. É um fator de escolha. E quando há escolha, há comparação. E quando há comparação, alguém perde.

Olhe-se para a arbitragem. Não pelo erro, que é universal, mas pela inconsistência. O mesmo lance, decisões diferentes. O VAR, que devia reduzir a incerteza, muitas vezes prolonga-a. Para quem está fora, a leitura é simples: menor previsibilidade, menor confiança. E um produto em que não se confia vale menos.

Olhe-se para a forma como o jogo é apresentado. Houve evolução, é justo reconhecê-lo. Mas não chega. A diferença face às ligas que disputam a mesma atenção continua visível. Não é apenas tecnologia. É construção de espetáculo. É a capacidade de transformar um jogo médio num evento interessante.

E depois há o que não foi feito.

A internacionalização nunca passou do potencial. Existe uma diáspora relevante, existe interesse, existe matéria-prima para trabalhar. No entanto, continuamos a agir como se bastasse esperar que o mercado fizesse sozinho o que nunca lhe foi verdadeiramente proposto.

A pirataria seguiu o mesmo padrão de complacência. Durante anos, foi sendo tolerada como inevitável. Não é inevitável. É combatida noutros mercados com resultados concretos. Cada transmissão ilegal é valor que sai do sistema.

Perante este quadro, a centralização não pode aparecer como solução mágica. Pode ser parte do caminho. Traz escala, pode melhorar o poder negocial, introduz alguma previsibilidade. Mas convém não confundir instrumento com resultado.

Centralizar não cria valor.

Se o produto não melhorar, a centralização limita-se a redistribuir um valor que continua curto. E há um risco claro: tornar ainda mais evidente a fragilidade que já existe.

Há ainda um ponto que raramente entra na conversa porque complica os consensos.

Nem todos criaram o mesmo valor. Nem todos investiram da mesma forma. Há clubes que construíram marca, que melhoraram infraestruturas, que geraram audiências de forma consistente. Esse trabalho não desaparece por decreto. Tem impacto real no valor global do produto.

Ignorá-lo não resolve o problema. Apenas cria outro.

A centralização facultativa, neste momento, poderia ser uma tentativa imperfeita de lidar com essa realidade. Não é uma solução acabada. Mas parte de um princípio que a discussão dominante evita: não faz sentido, neste momento, sem um padrão de exigência cumprido por todos os clubes, tratar de forma igual quem contribui de forma diferente para o valor global.

No fundo, a questão é simples e tem uma resposta difícil.

Como se constrói um modelo mais forte penalizando quem mais valor gera?

Enquanto essa resposta não existir, o debate continuará incompleto.

O futebol português precisa de fazer um exercício que tem evitado: perceber que não compete apenas com o clube do lado, mas com ligas que investiram anos a construir valor e que hoje colhem esse trabalho.

Precisa de relvados que não sejam tema. De jogos que fluam. De decisões que transmitam confiança. De transmissões que valorizem o espetáculo.

Precisa, sobretudo, de exigência.

Porque isto não se resolve apenas em reuniões. Resolve-se no terreno, jornada após jornada, decisão após decisão.

Podemos continuar a discutir percentagens. A conversa é necessária. Mas é a segunda.

A primeira continua por fazer.

E enquanto continuar por fazer, vamos manter este exercício peculiar: discutir, com enorme detalhe, como dividir um valor que quase ninguém conseguiu fazer crescer.

O problema não é a divisão.

É o dinheiro que não existe.