«Culturalmente, o Dubai é mais parecido com a Europa»
Pouco mais de meio ano depois de se ter mudado da Turquia para os Emirados Árabes Unidos, para reforçar o Al Wasl, Pedro Malheiro faz um balanço positivo da realidade que encontrou no Médio Oriente, em conversa com A BOLA.
— Como têm corrido estes primeiros tempos nos EAU, mais concretamente no Al Wasl?
— Tem sido muito positivo. É uma cultura diferente; no ano passado estava na Turquia e aqui é claramente uma cultura diferente, mas está a ser positivo. É um clube que está a lutar pelo título de campeão, embora já tenhamos sido eliminados de duas competições. Mas está a ser positivo, estou a fazer o meu trabalho da melhor forma, contribuindo com golos e assistências, e acho que isso é o mais importante.
— Como é que surgiu a oportunidade de rumar aos Emirados?
— Foi tudo muito rápido. Teve a ver com a chegada do Mister Luís Castro. Foi um bocadinho por ele, que quis que eu viesse para cá. Tornou as coisas mais fáceis nesse sentido, pelo desejo que tinha em mim enquanto jogador. Eu, não sendo um jogador muito conhecido, e pelo momento que era, vim para tentar ajudá-lo num clube que também queria lutar pelo título e por outros objetivos. Era um projeto interessante e acabei por rumar aqui. O clube demonstrou interesse, acertaram as coisas com o Trabzonspor, acabaram por pagar um bom dinheiro e foi assim que aconteceu.
— Que diferenças nota do futebol dos Emirados para a Turquia e também para Portugal?
— É um pouco diferente, embora esteja a crescer e tenham vindo para cá muitos atletas. Sinto mais a questão dos adeptos. Na Turquia eram sempre 40 ou 50 mil pessoas... Aqui é um bocadinho diferente, tens muito menos gente nos estádios. Mas vim para cá com o propósito de ajudar ao máximo, fazer o meu trabalho da melhor maneira para contribuir e ajudar a equipa. E, no final, tentar conquistar o campeonato, que é o que desejo muito.
— A nível cultural, nota muitas diferenças para a Turquia?
— Culturalmente, acaba por ser mais parecido com a Europa, porque há muito pouca gente local. Começa a haver muitos estrangeiros que vêm para cá noutros ramos de investimento e trabalho. Acaba por ser um pouco mais europeu do que propriamente a Turquia, que tem uma cultura mais muçulmana. Aqui também têm, mas acaba por haver mais gente de fora do que locais.
— Recorda-se de algum episódio na Turquia, ou nos teus primeiros dias nos Emirados, que o tenha impressionado?
— Por acaso, não. Quando cheguei à Turquia fui muito bem recebido, adorei o clube e tenho um sentimento grande, apesar de ter estado lá só um ano. É um clube pelo qual tenho muito carinho, ainda hoje acompanho e disse que um dia gostaria de voltar lá. Não me recordo de nenhum episódio específico. Obviamente são sítios e culturas diferentes, mas adaptei-me sempre muito bem à realidade desses países. Correu tudo bem e as minhas rotinas durante a época desportiva acabam por ser iguais, o que torna tudo mais fácil.
— Existe algum hábito, regra ou tradição que o tenha deixado surpreendido, nestes países?
— Aqui mais, porque eles têm aquele tempo antes do treino — e às vezes depois — da reza. Os muçulmanos rezam. São rituais deles, coisas que nos passam um bocadinho ao lado; eles estão na deles e eu na minha. Mas lá está, tens de te adaptar e respeitar culturas diferentes.
— Dentro do balneário, há alguma história que mostre o choque de culturas com jogadores de outras nacionalidades?
— Por exemplo, comparado com Portugal: nós temos o hábito de tirar a roupa, despirmo-nos, ficar de boxers e andar ali à frente de todos para ir para o chuveiro. Aqui e na Turquia, por serem muçulmanos, acabamos por ir sempre com a toalha ou de boxers e só retiramos já dentro do banho. Saímos sempre de toalha. Eles não têm esse hábito de estar nus, como é natural no balneário dos homens em Portugal. São coisas às quais tens de te adaptar e respeitar.
— Voltando ao Trabzonspor, disse que foi um clube que o marcou bastante. Em que aspetos sente que evoluiu enquanto jogador na Turquia?
— Foi uma experiência diferente. Eu estava no Boavista, um clube grande em Portugal, com muita história, apesar das dificuldades. A minha venda para o Trabzonspor foi um passo para um clube grande, que me permitiu ser mais ofensivo, numa equipa com mais bola. Outra atmosfera fora de campo, com os adeptos. Coletivamente não foi um ano muito positivo, porque o Trabzonspor luta para ser campeão, mas foi um clube que me ajudou muito e individualmente consegui fazer a diferença. O meu contributo ofensivo levou à venda para cá. Marcou-me imenso pelas pessoas com quem me cruzava no dia a dia, um balneário fantástico. Fui para lá com o mesmo pensamento que tenho aqui: contribuir ao máximo. Foi um ano muito positivo e marcante para mim.
— A Turquia é conhecida por ter os estádios sempre cheios e um ambiente muito bom. Que memórias guarda desses ambientes?
— Todos os jogos... Como jogador, tu gostas disso, de sentir o público em chamas, sempre a cantar e a gritar. Acho que isso é o que marca mais um jogador quando entras em campo. Era incrível. Nós tínhamos sempre muita gente, mesmo nos jogos fora. Isso marca-te e motiva-te. Ir para um jogo com 100 pessoas não te dá essa motivação.
— Houve alguma situação num estádio que nunca tinha experienciado em Portugal?
— A diferença é que em Portugal, tirando os três grandes, não tens muita gente nos estádios. Na Turquia, ias a uma equipa de meio ou baixo da tabela e o estádio estava quase sempre cheio. Os adeptos são mais loucos, aderem mais, são mais apaixonados pelo jogo. Para nós, jogadores, é um prazer enorme sentir esse apoio fora. Dá aquela força, aquele boost nos minutos finais. É muito mais motivador.