No Futebol Profissional, proteger o produto significa protegê-lo enquanto ele acontece - Foto: Imago
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Quem protege os 90 minutos?

'Liga para Todos' é o espaço de opinião em A BOLA de André Mosqueira do Amaral, Diretor Executivo da Liga Portugal

Há conteúdos que conservam valor depois de serem copiados ilegalmente. Um jogo em direto não. Quando termina, desaparece a parte essencial do seu valor económico, emocional e comercial. No Futebol Profissional, proteger o produto significa protegê-lo enquanto ele acontece.

É esta especificidade que deve orientar o combate à pirataria. Não basta remover amanhã o acesso que esteve disponível hoje. Entre a deteção, a decisão e o bloqueio, cada minuto conta. A resposta tem, por isso, de incorporar o tempo na sua própria arquitetura. A própria Comissão Europeia reconhece a natureza particular dos eventos em direto e recomenda o tratamento célere das notificações e o recurso a mecanismos dinâmicos.

É também por essa razão que a Liga Portugal está a olhar para a Europa. França, Itália e Espanha têm procurado respostas diferentes para o mesmo problema, aproximando legislação, regulação, tecnologia e operadores. Não se trata de importar modelos, mas de perceber o que funciona, aprender com os seus limites e avaliar, com essa nova luz, o caminho no nosso País.

Itália colocou a rapidez no centro do sistema. França avançou para uma alteração estrutural, procurando permitir uma atuação automatizada durante a transmissão. São sinais de uma mudança relevante: se o valor se concentra no direto, não poderá a forma de proteger e comercializar os direitos refletir essa realidade? Em Itália, o Piracy Shield foi concebido para executar bloqueios até 30 minutos após a sinalização; em França, o novo modelo permite acrescentar alvos durante o evento sem validação manual prévia.

Em Portugal também há trabalho realizado. A Lei n.º 82/2021, de 30 de novembro, constituiu, há cinco anos, uma resposta inovadora, cujo mérito tem sido reconhecido nos contactos internacionais que mantivemos. Algumas das soluções entretanto desenvolvidas noutros países beneficiaram, aliás, da experiência portuguesa. Mas esses países não ficaram parados: ajustaram os seus instrumentos à evolução da tecnologia. O nosso quadro legal precisa agora de dar também esse passo. E a dimensão do desafio exige um novo patamar de articulação entre titulares de direitos, autoridades, forças de segurança, operadores e parceiros tecnológicos, sendo certo que a Liga Portugal assumirá plenamente o seu papel nessa construção, identificando os problemas e contribuindo para soluções legislativas, operacionais e tecnológicas.

Até porque esta discussão já não se limita ao futebol. Por detrás de uma transmissão ilícita podem existir fraude, roubo de credenciais, recolha indevida de dados ou distribuição de software malicioso. E, quando a inteligência artificial reduz o conhecimento e os recursos necessários para certas operações, aquilo que parece uma simples forma de ver um jogo pode integrar uma superfície de risco digital muito mais ampla. Relatórios recentes documentam precisamente a redução das barreiras técnicas à fraude, ao roubo de dados e ao desenvolvimento de ferramentas maliciosas.

Defender os 90 minutos é, assim, proteger valor, confiança e segurança. Continuaremos a aprender com os melhores, a mobilizar os parceiros certos e a agir em todas as frentes necessárias. A Liga Portugal irá até ao fim nesta luta! Porque, quando chega o apito final, aqueles 90 minutos não voltam.

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