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Quando a discussão Messi-Ronaldo vai muito além do futebol
Se precisássemos de novas provas de como a questão que nos acompanha há 20 anos é mais discutida do que a paz no Médio Oriente, a emergência climática ou o combate à pobreza, um membro do Parlamento da Austrália acabou de o fazer. País de elevada literacia e o sétimo nos índices de desenvolvimento da OCDE, a sessão que decorreu esta semana na casa do povo merece mais que uma simples nota de rodapé. Ben Small, deputado do Partido Liberal, tomou a palavra para lembrar que o debate entre Messi e Cristiano Ronaldo «é muito mais do que futebol», porque é uma discussão sobre «a essência de caráter».
Recorrendo-se de um estudo publicado em Singapura e levado a cabo em 26 países, Small partilhou, de forma curta e clara, as suas conclusões. «Os que preferem Ronaldo tendem a ser mais conservadores, enquanto os que preferem Messi têm uma pensamento de esquerda», disse. E mostrou imediatamente de que lado está, ele e não só. «A maioria dos australianos tem uma preferência por Cristiano Ronaldo porque ele representa a disciplina, foco e a constante procura de resultados. Os australianos são assim: gostam de trabalhar e ver o seu esforço recompensado», explicou.
Deixando de lado a tradicional retórica parlamentar que é transversal a todos os tribunos das democracias liberais (enquanto as há...), não deixa de ser extraordinário como dois futebolistas mexem com um público que não tem fronteiras e, citando o referido deputado, «vai muito além do futebol». Mas, acrescento, é um reflexo do mundo atual: a incapacidade de as tribos aceitarem o que de bom existe no outro lado da bolha.
Talvez essa seja uma boa explicação para entender a gestão de Roberto Martínez relativamente ao seu capitão, melhor marcador e estrela global: nenhum selecionador levaria um jogador como ele para uma grande competição para o colocar no banco ou numa utilização intermitente. Para que isso fosse uma realidade, teria de ser feito todo um trabalho de comunicação prévio para dentro e para fora, de forma a ir habituando a Seleção, o próprio jogador (se ele o aceitasse, claro) e centenas de milhões de pessoas dos cinco continentes (literalmente) que não querem saber se ele tem 41 anos.
Para muitos portugueses, naturalmente com um olho mais crítico devido à proximidade, isto pode por vezes soar contra-natura e por esse motivo tanto se pediu a cabeça de CR7 após a péssima exibição frente à RD Congo. O que o avançado do Al Nassr fez na partida seguinte, com um bis frente ao Uzbequistão (já é o seu segundo melhor Mundial...) mostrou que o problema afinal não era só ele. Os golos que apontou foram o de alguém que continua a ser letal na finalização - a desmarcação e o vólei no primeiro golo; o remate com a parte de dentro, quase de calcanhar, à saída do guarda-redes, após ganhar nas costas dos centrais no segundo; e uma série de ações curtas que tentaram sempre acrescentar.
Imaginar um Portugal a jogar melhor sem o seu capitão é um exercício tão legítimo quanto o seu contrário... mas não agora. Goste-se ou não, este é o Mundial de Ronaldo. Desfrutar é o melhor remédio.
ELEVADOR DA BOLA
A subir
João Félix, avançado da Seleção Nacional
Responsável pela melhoria exibicional de Portugal. Com ele, todos à sua volta cresceram. Os pés continuam de veludo, mas agora também mostra os dentes na reação à perda. Com este talento e atitude, é ele e mais dez.
Estagnado
António Silva, central do Benfica
Não teve o crescimento esperado após a época de estreia e a ausência no Mundial foi o reflexo de uma carreira que estagnou. Precisa de um novo estímulo, que até pode muito bem ser no Benfica. Dependerá do contexto.
A descer
Akturkoglu, avançado da seleção da Turquia