Prestianni a jogo, claro!
O chorrilho de disparates que se têm lido e ouvido na sequência do famoso caso Vinícius-Prestianni torna inconsequente qualquer tentativa de olhar para os factos, as suposições e as opiniões com alguma lucidez. Decididamente, boa parte dos adeptos do Benfica defende o jogador argentino e ataca Vinícius porque um é jogador do Benfica e o outro não; os restantes dividem-se, mas os adversários diretos tendem a defender Vinícius e atacar Prestianni porque um não é jogador do Benfica e outro sim.
É lamentável que um caso muito sério como este seja interpretado à luz do poucochinho que é a mentalidade média do adepto português quando toldada pelo clubismo (ou seja quase sempre), mas é o que temos e dificilmente poderemos almejar a mais.
Pelo meio — espero que tenhamos noção disto independentemente de acharmos que Prestianni foi ou não racista — está um discurso que vai fazendo o seu perverso caminho rumo à normalização, quando até há poucos anos, pelo menos, havia alguma vergonha: um discurso racista, sim. E muito. Como o da xenofobia, da homofobia e de várias outras intolerâncias que têm expressão cada vez maior no voto dos portugueses. Não somos nem nunca fomos um povo de brandos costumes, chega de tentarem enganar-nos com essa narrativa bolorenta e salazarenta (desculpem a rima, mas faz tanto sentido...).
Dito isto, e sendo certo que para o caso e para o mundo nada importa se acredito na tese do racismo ou não de Gianluca Prestianni, podemos olhar um pouco para o futebolista. Vinícius precisa menos dessa atenção, até porque já provou ser um adulto que aguenta bem alguma provações, como aquelas que ainda anteontem lhe desejavam a morte em Pamplona.
Quanto ao jovem argentino, julgo que José Mourinho vai muitíssimo bem em apostar nele para a segunda mão do play off da UEFA Champions League, em Madrid. Isto antevendo, como me parece lógico, que a UEFA nunca conseguirá provar a acusação de que é alvo e assumindo que coisas básicas como a presunção de inocência e o ónus da prova ainda funcionam a favor dos réus, pelo que Prestianni estará disponível.
Encontrando-se à disposição (algo que infelizmente para ele não sucedeu no jogo da Liga deste fim de semana), faz todo o sentido que vá a jogo. Se o Benfica e o jogador acreditam na inocência, não há por que escondê-lo no Bernabéu, isto pensando (como se tem visto) que o treinador o considera importante. Pode ser uma noite dura para Prestianni, mas também pode significar o fim da novela. E todos ganhariam com isso.