Um Benfica gerido de fora para dentro
«Para quem não sabe por onde quer ir, qualquer caminho serve.» Esta frase, mais do que versar sobre o caminho, fala sobre o líder. Sobre os líderes, visto que no futebol ninguém decide nada sozinho. Depois de mais uma época iniciada sob brasas, com uma equipa técnica interna e externamente contestada, sinal claro e evidente de que não houve aprendizagem com os erros do passado, o Benfica terminou 2025-2026 envolto em indefinições:
— José Mourinho iria continuar no comando técnico da equipa?
— O plantel iria ser alvo de mais uma revolução (várias saídas e várias entradas)?
— Rui Costa iria finalmente definir um projecto para o futebol profissional encarnado?
Os dias foram passando e a única certeza patente era que o Benfica estava refém de José Mourinho. Do contrato que ainda os unia. Da proposta de renovação entretanto apresentada. E, pasme-se, do resultado das eleições do Real Madrid.
Ou seja, o gigante da Luz deixou de ser dono e senhor do seu destino. Passou a estar a mercê de um conjunto de factores que não controlaria nunca e sobre os quais pouca ou nenhuma influência poderia ter. Deixou-se enredar nas teias de uma trama com laivos de bizarria e contornos de puro amadorismo.
Num universo suis generis como o do futebol, o Benfica conseguiu a proeza de adicionar uma nova dimensão ao surrealismo presente na gestão desportiva do presidente Rui Costa — a da assumpção pública da gestão de fora para dentro.
O que nos remete para uma conclusão simples: quem escolheu o próximo treinador do Benfica foi Florentino Pérez. Quem definiu quem irá liderar o comando técnico encarnado foi o presidente do Real Madrid. Quem traçou os destinos benfiquistas para 2026-2027 foi o líder merengue.
Mais do que uma prova cabal de força por parte de Pérez (assumiu erros, convocou eleições antecipadas e venceu-as), este cenário demonstra o quão frágil é a liderança de Rui Costa enquanto figura central de uma instituição centenária, histórica e mundialmente conhecida como o Sport Lisboa e Benfica. Por norma é o que acontece a quem não sabe por onde quer ir. A quem não sabe com quem quer ir.
Rui Costa poderia, pelo menos, saber por onde não quer ir ou com quem não quer ir. Mas nem isso soube.
E se hoje as águias já não estão reféns de Mourinho, devem-no ao presidente madridista e não ao seu próprio presidente...