Adrien Silva, 2018: «Ambição do Ronaldo está num nível que nós nem sonhamos»
— O futebol deu-te muito também em termos de crescimento, precisamente por teres sido emigrante, por te teres deslocado para jogar. Perdeste ou ganhaste mais amigos?
—Para mim é complicado responder a isso. Pensei muito nisso ao longo do tempo, mas quando temos um objetivo não pensas. Tentamos não nos distrair com algumas coisas que possam atrasar-nos ou travar a nossa evolução. E isso pode ser uma delas, pois mexe com emoções. Pode desviar-nos um pouco a atenção. Quando és jogador o que importa naquele momento é o trajeto. Mas depois, com o tempo, depois de conseguires algumas coisas e falar com amigos, esse tema é falado. É verdade que perdes amigos, mas ganhas de outra maneira. Ao crescer muito rápido, falhamos alguns momentos do crescimento de um jovem adolescente normal. Mas são escolhas. Eu costumo dizer, e ouvi-o de um superatleta, e realmente faz muito sentido: 'não são sacrifícios, só são escolhas.' E, se não tivesse feito essas escolhas, talvez não estaríamos agora a falar do Mundial de 2018. Há coisas que tens que abdicar e saltar de uma coisa para outra, mas no fim são escolhas. É preciso saber o que se quer na vida para depois conseguir.
— Quem era o Adrien Silva, médio de Portugal no Mundial da Rússia em 2018?
— Não foi só no Mundial 2018. Sempre fui um jogador de pensar primeiro na equipa do que em mim próprio. Havia muitas pessoas à minha volta que tentavam dizer-me para ser um pouco mais egoísta, mas não fazia parte de mim. Fazia parte do meu dia ser diferente. Não era um superdriblador, não era superrápido e superforte, mas disponibilizava-me sempre para poder ser o mais positivo para os meus colegas e para a equipa. Foi a isso que dei sempre prioridade no meu trajeto. Tinha a certeza que mesmo não dando tanto nas vistas que pouca gente pensava assim no futebol. E se eu fizesse isso muito bem, as coisas poderiam sair mais à vista dessa forma. E não me enganei.
— A descrição sempre foi algo que valorizaste ao longo da tua carreira?
— Sim é verdade e também graças às pessoas à minha volta. Quando és muito jovem há muita conversa, muitas coisas… Temos tendência de nos podermos tentar desviar ou a querer experimentar. Faz parte da evolução e do crescimento, não só como jogador, mas também como pessoa. É inevitável. Agora são muito importantes as pessoas que estão à nossa volta para nos chamar a atenção e nos trazer à realidade. E isso foi realmente fundamental na minha evolução.
Não era rápido, não era driblador nem forte, mas disponibilizava-me sempre para ajudar a equipa
— Esse equilíbrio emocional foi também importante no Mundial da Rússia em 2018? Depois de terem conquistado a Europa em 2016 viveram outra realidade na Rússia.
— Esse equilíbrio é constante, jogo após jogo. Temos de nos concentrar porque hoje é uma vitória e no dia seguinte já temos que mudar outra vez o chip para o próximo jogo que vem. Não dá para ficar a lamentar ou a festejar demasiado. Isso faz parte do processo da nossa carreira. Representando Portugal no Mundial, as emoções são ainda mais fortes e um pouco mais complicadas de lidar. Tentou-se de alguma forma, depois do Euro-2016 passar a ideia de que éramos imbatíveis. Mas também não acho que o Mundial 2018 tenha sido um fracasso. Aconteceu o que pode acontecer em qualquer jogo. Infelizmente não fomos capazes de concretizar aquilo que queríamos.
— Se pudesses mudar alguma coisa neste Mundial, o que é que mudavas?
— A única coisa que mudava era o resultado. O resultado do jogo dos oitavos de final para podermos seguir em frente e continuarmos a caminhar no nosso sonho, mas são coisas que não controlamos totalmente, infelizmente. Eu tinha 29 anos, era o meu primeiro Mundial e achava que podia fazer mais um, como achava que podia ter feito um anteriormente, mas a concorrência era grande.
— Olhando para a estatística deste Mundial da Rússia 2018, há um dado curioso no jogo frente ao Irão. Entraste para a história com uma eficácia tremenda: 100 passes certeiros em 107 tentativas.
— É mais um dado para mostrar aos meus filhos com algum orgulho. E é um dado individual muito raro. Obviamente que nós não entramos em campo a pensar nesse tipo de dados, mas são números que nos fazem pensar. As coisas correram-me bem. As memórias são sempre boas e é importante recordá-las. O partilhar disto tudo, deste sonho, é realmente o que levo para a vida. Tenho orgulho no que fui como jogador, mas também na postura que tive sempre durante a minha carreira.
Tentou-se de alguma forma, depois do Euro-2016, passar a ideia de que éramos imbatíveis
— Cristiano Ronaldo na Rússia em 2018 tornou-se o jogador mais velho a marcar um 'hat trick' num Mundial (contra a Espanha) e o europeu com mais golos por seleções ao chegar aos 85 golos.
—Foi sempre assim com ele e continua. Não sei até quando irá parar, mas continua a ir à procura de mais um recorde. Isso define o destino do Cristiano, é a grandeza dele pela ambição constante que tem a um nível estratosférico que nós nem sonhamos. E por isso é que é o que é mundialmente.
— Como é que foi o Cristiano Ronaldo como capitão de Portugal nesse Mundial da Rússia?
— Foi igual em todas as competições, em todos os jogos, sempre com aquela ambição e a motivação a 200 por cento. Não só para ele, mas também para tentar contagiar os colegas. Sempre. Quer diariamente nos treinos ou antes dos jogos. Sempre com um discurso muito positivo e motivacional. Esse é o Cristiano com quem lidei há alguns anos.
— E agora no Mundial deste ano, em 2026 acredita que é desta que Portugal pode vencer? Que mensagem queres enviar aos que vão jogar por Portugal?
— Espero que possam dar realmente o máximo, como tenho vindo a ver que fazem pelas nossas cores. A prioridade é sempre Portugal, o grupo e só depois o êxito individual. Tenho a certeza que o coletivo é que importa. Boa sorte. Acreditem!