Adrien Silva, 2018: «Ao ouvir o hino lembrei-me da minha família emigrante»
No Mundial de 2018, na Rússia, a Seleção Nacional foi eliminada nos oitavos de final após uma derrota por 1-2 com o Uruguai. Fernando Santos era o seleccionador. Adrien Silva foi um dos convocados e levámo-lo até à Cidade do Futebol para recordar os momentos em que representou Portugal num Mundial.
— Estiveste num só Mundial, o da Rússia. Ainda te lembras de muita coisa?
— O que se vive num Mundial é algo que fica e espero que a minha memória não me falhe durante muitos anos [risos]. Tenho muitas memórias gravadas e às vezes custa-me a acreditar, para ser sincero. Representar Portugal numa competição que é a maior de todas para as seleções é o que sonhamos enquanto criança e vemos na televisão. Poder participar foi realmente algo surreal.
— Chegaste ao Mundial após uma época conturbada no Leicester, onde estiveste meses sem poder jogar devido a um atraso de 14 segundos na tua inscrição oficial, após saíres do Sporting. Precisamente por essa transferência falhada que te deixou sem jogar, temeste falhar o Mundial?
— Claro que sim. Por isso é que digo que este Mundial teve muito mais valor. O que me dava gozo era jogar pela Seleção. Naquele momento, o que sentia é que o objetivo que tinha poderia ir por água abaixo por coisas que não eram do meu controlo e isso era o mais frustrante.
«Representar Portugal é o que sonhamos e estar no Mundial foi algo surreal»
— Lembro-me de uma vez, lá atrás, na tua carreira, me teres dito que a tua história de emigrante fazia com que representar Portugal tivesse um peso tremendo, do qual te orgulhavas imenso.
— Sim, porque era um peso que não era só meu, era familiar. Isso fazia com que o sentimento ainda fosse mais forte cada vez que representava a Seleção e ouvia o hino. Lembrava-me sempre dos meus familiares e dos meus avós que tiveram que fazer, tal como muitas famílias, muitos sacrifícios e mudar-se para França. Isso gera muitas emoções quando passamos por estes momentos.
— É um orgulho patriota que te fazia sentir que os esforços para singrar valeram a pena?
— Sim, claro. Foi um trajeto muito longo até chegar aqui. Até representar a Seleção foram ultrapassadas muitas barreiras e ganhas muitas batalhas.
Convocatória? Estava no sofá, com a minha família, e quando ouvi o meu nome senti um pouco de alívio
— Onde é que estavas quando recebeste a convocatória para esse Mundial de 2018?
— Lembro-me bem. Estava de férias com a minha família. Tínhamos uns diasinhos para poder aproveitar, se por acaso fosse convocado. Estava em Montargil com a minha esposa e os meus filhos. Lembro-me que estava no sofá com a Margarida e ela ficou emocionada com o momento claro. Quando ouvi o meu nome senti um pouco de alívio.
— Em que altura é que Fernando Santos falou contigo e te tranquilizou para uma competição tão importante, onde tu querias muito estar presente?
— Não foi assim... falar. Eu sabia que tinha de jogar para poder ser uma opção para a lista de convocados. E ele tinha deixado isso sempre muito claro com toda a gente, como fazia sempre, não só com esse assunto mas também com outros. Ele era sempre muito claro e muito direto connosco e por isso é que as coisas correram sempre muito bem com ele. Mas, ele esteve sempre ali, e a sua equipa técnica também, com a atenção e a preocupação de manter o contacto comigo e saber como as coisas estavam a evoluir. E depois o resto cabia-me a mim tentar resolver assim que pudesse. Não é que a tivesse nas minhas mãos, mas...
— Essa confiança foi importante para ti?
— Claro que sim. Porque também foi com ele que eu me estreei. Tinha entrado na Seleção com o Paulo Bento, mas não fiz jogos. Foi com Fernando Santos que me estreei. A aventura também é dele e ele sentia muita confiança em mim. Sabia que eu podia, mesmo quando não jogava, ou nem sequer entrava, que podia contar comigo a todos os níveis, quer fora do campo, no balneário, ou quando fosse chamado. Estaria sempre preparado. E por isso é que ele sempre teve essa confiança em mim. Tenho certeza disso. Foi um bom selecionador de Portugal e trabalhámos de uma forma bastante saudável. Gostava muito da maneira que ele lidava comigo, porque me dava muitas responsabilidades também com alguns dos meus colegas, com quem lidava diariamente. Sentir essa confiança e essa responsabilidade era muito bom.
— Que grupo era o que Portugal tinha em 2018?
— Portugal de 2018 era mais ou menos o mesmo do Euro-2016, com três ou quatro alterações, salvo erro. Mudou-se alguns jogadores, para melhor também, numa perspetiva de momento. Recordo bem que o Bruno Fernandes tinha estado num momento fantástico no Sporting e acabou por integrar esse grupo do Mundial. O Bernardo Silva também não tinha feito o Europeu e apareceu nesse Mundial. Víamos as novas gerações a aparecer com grande talento, para o bem do nosso país. Tem sido assim e é um privilégio.
Fernando Santos foi um bom selecionador de Portugal
— Portugal chegou à Rússia com o título de campeão da Europa. O peso era muito grande e depois acabámos por perder nos oitavos de final. O que é que aconteceu para que não fôssemos mais longe?
— Não acredito que tenha sido o peso ou a responsabilidade de ter sido campeão da Europa em 2016. Nós tínhamos assumido que queríamos realmente vencer e tínhamos essa ambição, mas não por querer mas sim porque sabíamos que tínhamos capacidade para competir e tentar ganhar esse Mundial. Mas, infelizmente contra o Uruguai tínhamos um Luis Suárez e um Cavani em grande forma. Isso não facilitou as coisas e temos de saber que existem outras seleções de grande nível do outro lado e com jogadores de grande nível.
— Foste titular nesse jogo e jogaste em dois jogos da fase de grupos. Como é que foi essa fase de grupos?
—Foi um grupo muito competitivo, apesar de acharem que Marrocos era fácil e o Irão era pêra doce, como se costuma dizer. Mas, já naquela altura sabíamos, e hoje mais ainda, não há seleções fáceis. Começámos o grupo com o 3-3 frente à Espanha, para abrir o apetite, e que mostrou logo a nossa ambição. Mostrámos que estávamos lá para jogar. Depois vencemos Marrocos (1-0) e empatámos com o Irão (1-1). Com o nosso querer de sempre, tentámos ultrapassar esses momentos e conseguimos passar à fase seguinte.
Posso dizer que apareci mesmo num Mundial e joguei
— Fazes a estreia a titular no jogo com o Irão. Portugal empatou e o Ricardo Quaresma fez um golo de trivela com uma assistência tua. Ainda te recordas da jogada?
— Obviamente. Agradeço-lhe sempre por aparecer nos vídeos dos Mundiais em todo o lado, pelo grande golo que ele fez, como se tivesse a ver com aquilo [risos]. Mas não deixa de ser uma boa jogada e eu posso mostrá-la aos meus filhos e depois aos netos. É sempre muito giro [risos].
— Ao veres aquele golo pensas logo que podes dizer aos teus filhos: ‘O pai foi mesmo craque?’
— Craque não. Mas, pelo menos apareci num grande golo do Ricardo, posso dizer que apareci mesmo no Mundial e joguei um Mundial por Portugal.. São momentos que ficam realmente marcados. Agora, depois de parar, sinto este privilégio e o quão difícil foi, e ainda é, lá chegar. E o facto de agora perceber que joguei as melhores competições quer de clubes quer das seleções faz-me concluir que foi realmente um bom percurso, que tenho de me orgulhar. Quando és mais novo não tens tanta consciência do quão difícil foi chegar ao privilégio de estar nesses palcos. Sabemos da importância porque a responsabilidade quer do clube, quer da Seleção é sempre muito alta e sentimo-la na pele. Mas quando os momentos chegam tens de estar preparado. E se não estiveres preparado para esses momentos que não sabes quando vão aparecer outra vez o comboio passa e a tua oportunidade já passou. São esses momentos que agora, com mais tempo, começas a perceber.
Agradeço ao Quaresma por aparecer nos vídeos dos Mundiais, como se eu tivesse a ver com aquilo
— Alguma coisa te surpreendeu mais quando chegaste à Rússia?
— Claro que a nível de alimentos era mais complicado arranjar os mesmos que há no nosso país, que é tão bom e tão rico. Mas, de resto, não houve grandes mudanças e sentimos até a força do apoio dos adeptos. Havia muitos portugueses, obviamente não como no Europeu de 2016, mas sentimos muito apoio, principalmente nos dias de jogos. Aceder à equipa não era tão fácil como no Euro, em termos de acessos a treinos, mas sentimos apoio, mesmo com alguma distância.
— Já voltaste a olhar para os jogos desse Mundial?
— Já vi alguns momentos desses jogos e até já tentei encontrar alguns jogos por inteiro, mas é difícil. Também não me esforcei muito [risos]. Mas tenho curiosidade de um dia rever os meus jogos e reviver alguns desses momentos. É sempre bom. Quando os meus filhos me pedem, e gostam muito de fazer perguntas, conto-lhes histórias sobre vários momentos. Eles quando têm amigos em casa gostam de mostrar algumas coisas da minha carreira e eu tenho muito orgulho em mostrar.
O Uruguai tinha Suárez e Cavani em grande forma e temos de saber que há outras seleções em grande nível