As mulheres não sabem lidar com a pressão
Há algumas semanas, no Brasil, a frustração por ter perdido um jogo do Campeonato Paulista, levou um jogador, ligado ao Benfica, a desabafar algo como «um jogo desta dimensão não devia ter sido arbitrado por uma mulher». Gustavo Marques foi imediatamente censurado pela mãe e companheira - pasme-se, mulheres - e pediu desculpa, mas não se escapou a um castigo: foi multado pelo clube e suspenso por 12 jogos.
Mais recentemente, em Roland-Garros a mesma ideia. O ténis é uma modalidade onde regularmente mulheres lideram jogos de homens - a primeira final de Grand Slam julgada por uma mulher só ocorreu em 2007 - mas o tenista paraguaio Adolfo Vallejo acabou sancionado com a multa mais alta da história da prova, no valor de 65 mil euros, após proferir comentários machistas dirigidos à árbitra brasileira Ana Carvalho. Depois de perder com um francês, afirmou que o encontro deveria ter sido arbitrado por um homem, acusando-a de não ter conseguido gerir a pressão do público francês.
Infelizmente, não é com multas, por mais altas que sejam, que este tipo de pensamento vai mudar. Veja-se Florentino Pérez, presidente do Real Madrid, que se referiu a uma jornalista como «essa menina» e questionou os conhecimentos de futebol de outra profissional da comunicação social. Pela ministra da igualdade, foi chamado de «bafiento», mas é líder do clube mais valioso do mundo.
Ora gerir a pressão, sobretudo sendo árbitras, é algo a que as mulheres estão muito habituadas. A isso juntam o dilema diário do que fazer para o jantar, lembrar constantemente ao companheiro onde se guardam (há anos) as fronhas de almofada ou, mais a sério, ir à noite para o carro sempre com as chaves nas mão, para passar o mínimo de tempo possível do lado de fora da viatura.
A coragem de decidir ser árbitra, seja para avaliar mulheres como homens, é em si já uma prova de coragem, de alguém que acredita o suficiente em si para projetar confiança e autoridade. Alguém que sabe sempre o que vai fazer para o jantar.