Joan Laporta a festejar a conquista de mais um título pelo Barcelona - Foto: IMAGO

O Barcelona de Laporta: do adeus de Messi e Xavi ao renascimento com Flick

Joan Laporta encerrou esta semana a sua segunda passagem pela presidência do Barcelona, mas fá-lo com a ambição clara de regressar ao cargo. O dirigente catalão é candidato à reeleição nas eleições marcadas para 15 de março, procurando renovar a confiança dos sócios após um mandato longo, turbulento e profundamente marcante, vivido entre a urgência financeira, decisões estruturais polémicas e a tentativa constante de devolver o clube à elite europeia.

Na passada terça-feira, 24 horas após apresentar a sua demissão formal, exigida pelos estatutos para se poder recandidatar, Laporta deslocou-se à Cidade Desportiva Joan Gamper para se despedir de Hansi Flick e do plantel. Um gesto simbólico, carregado de significado político e desportivo. A esperança do presidente cessante é regressar dentro de um mês, já legitimado pelas urnas, depois de um segundo mandato que durou 1.790 dias - quatro anos, dez meses e 18 jornadas - marcados pela penúria financeira, pelas célebres alavancas e pelo nascimento de um novo projeto, com Flick no banco e Lamine Yamal como principal bandeira.

As eleições deverão coincidir com um jogo da LaLiga frente ao Sevilha, numa tentativa de facilitar a participação dos sócios — um pouco à semelhança como aconteceu no Benfica com Rui Costa. Laporta tinha vencido as últimas eleições a 10 de março de 2021 e tomou posse no dia 17. Regressou ao poder após uma década de tentativas falhadas, encontrando um clube em situação-limite, financeiramente devastado e ainda sob o impacto da pandemia. A herança deixada por Josep Maria Bartomeu, entretanto investigado pela sua gestão, foi pesada e condicionou profundamente todas as decisões iniciais.

O grande desafio foi claro desde o primeiro dia: recuperar financeiramente o clube, avançar com as obras do Camp Nou, reposicionar o Barcelona no xadrez político do futebol europeu, incluindo o dossiê da Superliga, e regenerar um projeto desportivo em queda livre. Pelo caminho, caiu o maior símbolo do barcelonismo moderno. Laporta tentou renovar com Lionel Messi até ao limite das suas forças, mas as contas não permitiram. A imagem do presidente a abraçar um manequim com a camisola 10 ficou como retrato definitivo de um adeus inevitável.

No plano diretivo, Mateu Alemany foi o primeiro homem forte do futebol, com Rafa Yuste, hoje presidente interino, a assumir um papel central na gestão. Ferran Reverter chegou como CEO, mas sairia ao fim de um ano, em desacordo com o patrocínio da Spotify, apesar de ter sido decisivo no financiamento de 500 milhões de euros com a Goldman Sachs. As turbulências foram constantes, sobretudo nos dois primeiros anos, incluindo a saída de Jordi Llauradó, responsável pelo Espai Barça, envolto em polémica pela escolha da construtora das obras do novo Camp Nou.

A remodelação do estádio, iniciada em junho de 2023, obrigou o Barcelona a jogar em Montjuïc durante duas temporadas e tornou-se também um dos pilares das chamadas alavancas: venda de ativos como o Barça Studios e exploração antecipada das tribunas do futuro Spotify Camp Nou. Para a LaLiga, essas receitas permitiram a inscrição de jogadores. Para a UEFA, não. O organismo europeu sancionou o clube em 60 milhões de euros por violação do Fair Play Financeiro, não reconhecendo esses rendimentos como ordinários.

Em janeiro de 2024, o Conselho Superior de Desporto teve mesmo de intervir para viabilizar a inscrição de Dani Olmo e Pau Víctor, depois de a LaLiga ter recusado a sua regularização. Episódios que ilustram bem o permanente clima de exceção vivido pelo clube.

Outro terramoto surgiu com a explosão do caso Negreira, investigação aos pagamentos de mais de sete milhões de euros a José María Enríquez Negreira, ex-vice-presidente da arbitragem espanhola. Embora Laporta tenha escapado à investigação direta por prescrição dos alegados crimes, o impacto institucional foi profundo e deteriorou seriamente a relação com o Real Madrid. Florentino Pérez liderou uma ofensiva pública que atingiu o auge em dezembro, enquanto Laporta acabaria por se aproximar de Javier Tebas, antigo adversário, apesar das divergências anteriores.

No plano desportivo, Laporta chegou com Ronald Koeman no banco, mas o neerlandês seria despedido em outubro de 2021. Seguiu-se Xavi Hernández, que conquistou uma LaLiga e uma Supertaça, mas não resistiu ao peso das circunstâncias. Sem Messi e com o fim de ciclo de Jordi Alba, Sergio Busquets e Gerard Piqué, o clube atravessou um deserto competitivo, com duas épocas fora da fase de grupos da Liga dos Campeões e a humilhação europeia frente ao Eintracht Frankfurt.

Apesar disso, chegaram nomes como Robert Lewandowski, Jules Koundé e Raphinha. Em cinco épocas e dez mercados de transferências, Laporta investiu 349,4 milhões de euros e arrecadou 364,56 milhões, fechando o ciclo com um saldo positivo de 15,16 milhões. Entre os pontos negativos, destaca-se a gestão de Vítor Roque. Entre os positivos, a afirmação de jovens como Fermín López, Álex Baldé e Marc Casadó.

Agora, com Flick no banco e Yamal como símbolo de um novo ciclo, Joan Laporta apresenta-se novamente a votos. Depois de quase cinco anos de tempestade, o presidente cessante acredita que o Barcelona está, finalmente, pronto para um novo começo e quer ser ele a liderá-lo. Os sócios do Barça irão decidir…

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».