Uma lança no Brasil
O marroquino Zakaria Labyad, médio de 32 anos contratado pelo Corinthians, é o último africano a confirmar uma tendência: no futebol, o Brasil descobriu a África; ou, por outras palavras, a África enfiou uma lança no Brasil.
Além do ex-Sporting, a Série A do Brasileirão conta ainda com o angolano Bastos, do Botafogo, o congolês Bolasie (também um ex-leão), da Chapecoense, o argelino Brahimi, do Santos, e o guineense João Pedro, do Remo.
É uma percentagem tímida, se levarmos em consideração que só em 2026 já chegaram 151 estrangeiros, mas um início, até porque nas camadas jovens a captação de africanos é expressiva.
«Até 2023, o mercado africano não fazia parte do nosso processo regular de captação mas fomos a um torneio de formação e ficamos bastante satisfeitos com o que vimos», diz Ricardo Sobrinho, gestor de mercado do Internacional, que tem os ganeses Arhin e Marfo já a treinar no plantel profissional, a A BOLA.
Mas há dificuldades: «No caso dos sul-americanos, a equipa de scouting consegue acompanhar o jogador por um período mais longo, com maior volume de vídeos, relatórios e observações, já no mercado africano, a avaliação concentra-se num torneio curto, o que exige decisões rápidas.»
Na Série B, o senegalês Iba Ly, 22 anos, joga no Juventude por empréstimo do São Paulo. «Tem muita força, disciplina tática e qualidade com a bola, atributos muito marcantes em atletas de origem africana e em constante valorização no cenário internacional», nota Lucas Andrino, dirigente do Juventude.
Para as captações, os clubes são ajudados por plataformas de análises de desempenho, como a E-Scout, que reúne cerca de 20 mil atletas, a CUJU, aplicação que utiliza inteligência artificial para avaliar 150 mil jogadores ao redor do planeta e conta com rankings ativos em países como Angola, com mais de 500 jogadores registados, ou a Squadra Sports, que foca na captação de atletas da Guiné-Bissau, como Arthur Monteiro, que fez parte do plantel do Paysandu, em 2025.
«O Arthur é um exemplo claro de como um trabalho bem feito na formação pode gerar impacto desportivo e projeção internacional», diz Dado Cavalcanti, gestor técnico da Squadra Sports.
Para Rômulo Vieira da Silva, diretor de Estratégia da Agência End To End que atua na interseção entre desporto, cultura e marcas, «a língua é uma ponte notável de integração, que amplia em cerca de um terço o nosso campo natural de diálogo e posiciona o Brasil em contato direto com públicos distribuídos por quase todos os continentes».
Entretanto, os primeiros africanos a atuar no Brasil, só depois chegaram a Portugal: o ponta de lança nigeriano Ricky, pelo América, do Rio, em 1984, e o guarda-redes camaronês William, por Cruzeiro e Bahia, de 1994 a 1998.