Perceções e dados da Onda Verde
Ultrapassados os especialmente chuvosos dias de inverno deste ano, entramos no último terço da época desportiva, chegando à fase em que tudo se decide. É agora, muitas vezes no pormenor dos jogos decisivos, que se conquista um lugar ao sol e se inscreve a glória nas páginas da história.
Nesta fase da época contam, acima de tudo, os resultados. E já assistimos a épocas construídas de sonhos transformarem-se em pesadelos, sem que friamente houvesse oportunidade para valorizar o processo, o futebol jogado e a qualidade dos intervenientes diretos, de jogadores e de equipas técnicas.
Nesta fase não existe margem de erro, a exigência competitiva dos jogos aumenta, as emoções apertam e as vitórias, por absurdo, até podem valer mais do que os meros três pontos, particularmente nos jogos em que os eternos candidatos ao título se defrontam entre si.
Na esteira dos êxitos conquistados nos últimos cinco anos — três campeonatos vencidos nesse período — o Sporting entra nesta reta final do último terço da época exibindo argumentos e um desempenho que o habilita a sonhar com a conquista do ambicionado tricampeonato, sucesso só registado por duas vezes e que já não atinge há 73 anos, para situarmos na recorrência e no tempo sobre a importância de alcançar novamente esse feito.
Embora não esteja ainda no lugar mais desejado na tabela classificativa, o primeiro, a equipa do Sporting é reconhecida por muitos, atrevendo-me a dizer pela maioria dos observadores e comentadores da nossa praça futebolística, como aquela que apresenta melhor qualidade e atratividade no seu processo de jogo, com um nível exibicional consistente na maioria larga das suas partidas. Sim, como em qualquer equipa numa maratona, como é uma época desportiva, atualmente com mais de cinquenta jogos por época, houve jogos menos conseguidos, o que é perfeitamente normal. Por exemplo, bastariam os empates consentidos nos minutos finais dos jogos com o SC Braga, em casa, e Gil Vicente, fora, para que os quatros pontos que nos distanciam do primeiro lugar ficassem esbatidos. São os tais pormenores que, no final das contas, podem ser decisivos, sem querer discorrer sobre as circunstâncias concretas dos lances que determinaram esses resultados.
Vamos então analisar os dados objetivos para confrontar com a perceção existente sobre a qualidade desta equipa. O Sporting tem logrado exibições convincentes, mostrando um notável crescimento no processo coletivo de jogo, mesmo considerando a alteração do sistema tático, muito discutida nos fóruns leoninos, sob o olhar cético e exigente dos seus adeptos, e sem a dependência impactante de um jogador, que por si só era capaz de destruir as defesas dos adversários e resolver jogos.
A equipa leonina posiciona-se para esta última fase das competições com números que refletem a qualidade do seu jogo jogado e, por conseguinte, com legítimas aspirações que esses números se traduzam, mais cedo ou mais tarde, na ocupação do primeiro lugar e na conquista do título.
O Sporting é a equipa que apresenta o melhor ataque da Liga Portugal Betclic, com 62 golos concretizados em todas as 24 partidas já disputadas, uma média de 2,6 golos por jogo e um diferencial de 11 golos para o segundo melhor ataque da competição. O ataque demolidor do Sporting é confirmado por outros dados. É a equipa com o valor de expected goals por jogo mais elevado, com mais remates à baliza, com mais oportunidades de golo criadas, com mais remates enquadrados e com mais situações de canto, o que leva a que nos 39 jogos oficiais desta época, entre Liga Portugal, UEFA Champions League, Taça de Portugal e Taça da Liga, o Sporting só tenha ficado em branco no primeiro jogo, o encontro da Supertaça Cândido Oliveira, disputado no Algarve.
Defensivamente, os indicadores são igualmente assaz positivos. A média de golos sofridos situa-se entre as mais baixas do campeonato, com a segunda média mais baixa de 0,5 golos sofridos por jogo, registando 13 jogos sem sofrer qualquer golo nas 24 jornadas. Apesar de não ser a melhor defesa do campeonato, há uma tendência de melhoria considerável dos seus processos de organização e de transição defensiva, bastando comparar os 12 golos sofridos este ano com os 21 golos por esta altura do campeonato anterior.
A diferença de golos acumulada traduz ainda o domínio efetivo nos jogos, com a segunda melhor média de posse de bola, só superada pelo próximo adversário no campeonato, o SC Braga, sendo que o Sporting ainda é a equipa com mais goleadas: em 11 das 24 jornadas obteve vitórias com uma diferença de três ou mais golos, não se bastando com vitórias meramente tangenciais como as de outros rivais. Talvez seja mesmo este o indicador, em concreto, que leva à perceção da maioria, que o Sporting é a equipa com melhor qualidade, embora não esteja ainda classificada no lugar correspondente, o primeiro, devendo ser atribuído o mérito a quem ocupa esse lugar pela solidez da sua defesa, encontrando, por enquanto, respaldo no aforismo da cabine dos treinadores que «os ataques vencem jogos, as defesas ganham campeonatos».
Os números ora vertidos não são tudo. Muito menos precipitam a garantia do sucesso e da conquista do tão ambicionado tricampeonato, mas detalham e ajudam a explicar o trilho percorrido jornada após jornada até ao momento. São na minha visão dados interessantes para avaliar os processos, as escolhas e as estratégias, suportando decisões que devem ser consideradas aconteça o que acontecer.
Entrando na fase das decisões finais, os jogos ganham uma outra dimensão, as emoções estão à flor da pele, os pontos ficam mais caros, como tem dito o nosso homem do leme, o treinador Rui Borges.
O Sporting reúne as perceções e os dados que sustentam a aspiração para atacar os títulos que permanecerão na história. O legado que os homens da estrutura profissional, residentes na Academia Cristiano Ronaldo, querem deixar aos muitos sócios e adeptos do clube.
A nós, sócios e adeptos, cabe-nos promover a onda verde de energia coletiva, com estádios cheios, uma fé inabalável e um apoio convicto do primeiro ao último minuto. As grandes equipas não vivem apenas do que produzem dentro das quatro linhas. Vivem do ambiente que as rodeia. Vivem da ousadia que as envolve. Vivem da convicção partilhada de que o momento é para atacar com toda a confiança os jogos que diferenciam os campeões e conquistadores de títulos.
É essa onda verde que precisa de ganhar forma, mais do que nunca, empurrando a equipa nas dificuldades. Os campeonatos decidem-se nesses momentos.
Não conseguindo, obviamente, antecipar o desfecho da presente época, deixo, no entanto, uma certeza na crónica que hoje estreio neste espaço, no jornal que apreciei a ler desde sempre:
A Bola é redonda. O Verde é futuro.