O jogo jogado e o jogo falado
Encerrada a época desportiva, e antes de nos unirmos no propósito comum de apoio à Seleção Nacional, com as paixões clubísticas a adormecerem nesta silly season de defeso entre épocas, importa abordar outro campeonato, o do jogo falado. As estratégias de comunicação fora das quatro linhas e o campo cada vez mais inclinado em comunicados dos clubes, de newsletters, de conferências de imprensa, de programas nas televisões respetivas dos três grandes, de reações em tempo real nas redes sociais dos mesmos.
Assistimos este ano a um particular campeonato do jogo falado. O futebol português vive há demasiados anos aprisionado nesta dimensão paralela. Nada há de novo na queixa, na indignação ou na tentativa de influenciar o ambiente competitivo, por haver no passado histórias e factos que deixaram bem presente um manto de suspeição sobre a autenticidade do resultado do jogo jogado.
A novidade, esta época, talvez tenha estado na intensidade, na cadência e na sofisticação com que os adversários diretos do Sporting, em particular Benfica e FC Porto, procuraram transformar o ruído em instrumento competitivo, numa tentativa de condicionamento do jogo jogado através do jogo falado.
Foi notória a estratégia de comunicação destinada a criar uma ideia de favorecimento do Sporting, criando uma convicção justificativa para os adeptos do Benfica e FC Porto, que o seus insucessos e o feliz desempenho desportivo leonino do bicampeonato nas épocas 2023/24 e 2024/25 tinha sido construído mediante o favorecimento de arbitragens, para assim condicionar as decisões futuras do jogo jogado, jornada após jornada.
Ao eventual mínimo erro de arbitragem, em benefício do Sporting, havia uma reação desproporcionada, de modo a condicionar arbitragens futuras. Este posicionamento de condicionamento serviu uma narrativa, cujo expoente foi alegar como grosseiro um erro na avaliação da marcação de um canto nos Açores, no jogo do campeonato contra o Santa Clara.
Era até esse momento relativamente consensual que o recurso ao VAR só devia ocorrer em quatro momentos chave do jogo, nomeadamente em situações de golo, lances de grande penalidade, cartões vermelhos e identidades trocadas de jogadores, por serem aquelas que se consideravam ter influência direta no resultado de um jogo. A partir dessa noite de 8 de novembro, quando se questionou um erro de perceção do árbitro assistente ao assinalar mal um canto do qual resultou o golo da vitória, passámos a entrar numa dimensão em que se comparam cantos com golos, penáltis ou expulsões mal assinaladas.
O ambiente instalado de alegações sobre o pretenso manto verde e a construção discursiva da existência de erros premeditados em favor do Sporting começou bastante cedo. Ainda a temporada estava nas primeiras jornadas, já o Benfica empenhava todo o seu esforço em comunicados para encobrir os seus insucessos e a substituição intempestiva do seu treinador, ao fim de meras quatro jornadas do campeonato.
Num comunicado logo em setembro, o Benfica elencara os jogos do Sporting contra Estoril, Famalicão e Nacional, expondo uma sequência de decisões que não podia ser explicada por coincidências ou meros erros humanos, mas por um «padrão de decisões que favorece sistematicamente o Sporting e penaliza o Benfica».
Ou seja, quiseram fazer crer que o Sporting estava a ser sistematicamente beneficiado, imagine-se, com erros de arbitragem em três das sete jornadas até então disputadas. A pressão comunicativa foi sendo exercida jornada a jornada, como se fosse verosímil que em todas, ou uma em cada duas, existia um favorecimento contínuo nos jogos do Sporting.
A certa altura, essa narrativa ganhou até contabilidade própria, a chamada classificação virtual, apresentada pela BTV com base num juízo de um ex-profissional da arbitragem, que me dispenso de nomear, por não merecer sequer créditos entre a própria classe de árbitros.
O FC Porto, por seu lado, percorreu caminho semelhante, embora com outro estilo e, em alguns momentos, com uma retórica ainda mais institucionalmente alvoroçante. Num comunicado logo em novembro, os dragões reagiram a um processo disciplinar, por alegada pressão exercida sobre Fábio Veríssimo com as imagens postas no balneários destinado aos árbitros, e apontaram em concreto seis erros em jogos de Benfica e Sporting, falando de uma dualidade de critérios, falta de uniformização e condicionamento permanente das arbitragens.
Mais tarde, o novel presidente André Villas-Boas levou essa linha argumentativa para a sua 'Visão do Presidente' na revista Dragões, misturando reivindicações legítimas — profissionalização da arbitragem, maior coerência nas nomeações, melhor utilização do VAR, uniformidade de câmaras — com uma linguagem de suspeição que vai muito além da reforma do sistema de arbitragem.
Importa trazer à memória que André Villas-Boas chegou ao cargo com a promessa da lufada de ar fresco para o futebol português, ensaiando uma era de modernidade, sofisticação, elevação institucional e rutura com determinados vícios de quem o antecedeu.
Sucede que, quem lê as suas crónicas e escuta as suas intervenções, facilmente conclui que de dirigente moderno pouco afinal tem e que frequentemente usa os expedientes do passado, numa cultura de cerco, tentando unir os seus, num discurso regionalista anacrónico, do contra tudo e contra todos.
Custa inclusive compreender como é que alguém que se apresentou como alternativa geracional e de corte com a cultura instituída recorra tão depressa ao léxico da suspeição permanente. Não basta mudar o sotaque, o fato e a elegância com que se apresenta, se, no essencial, se preserva a lógica de que tudo o que acontece contra o FC Porto é produto de um sistema hostil, pretensamente, centralizado em Lisboa. E é tanto mais censurável quanto o FC Porto foi campeão por inquestionável mérito desportivo, não precisando de embrulhar a sua vitória num combate permanente contra fantasmas.
O futebol português carece de melhor arbitragem, de VAR mais transparente, de critérios mais equitativos, de áudios divulgados com transparência e de melhor comunicação das decisões dos protagonistas do apito. Mas precisa de clubes e, mormente, de presidentes que queiram mesmo melhorar a qualidade do jogo e não apenas melhorar a sua posição, como se a competição desportiva fosse um conflito tribal em que, na arte de comunicar, não há limites para validar a sua posição.
Porque a verdade é que muitos dos que pedem transparência querem apenas uma transparência seletiva; muitos dos que exigem critérios querem sobretudo critérios que sufraguem a sua parcialidade; muitos dos que dizem defender a credibilidade do futebol são os primeiros a destruí-la quando isso lhes confere vantagem emocional junto dos seus adeptos.
No fim, esta época deixa novamente uma lição incómoda. O jogo jogado decide títulos, acessos às competições europeias e despromoções. O jogo falado prepara terrenos, condiciona ambientes, tenta interferir na classificação e justifica insucessos.
Entre o jogo jogado e o jogo falado, talvez esteja hoje uma das doenças maiores do nosso futebol, que, antecipo, as futuras gerações não estão dispostas a consumir nas nossas televisões: joga-se pouco para o que se fala e fala-se demasiado para o que se joga.