Rui Borges e o jogo da empatia
A última época desportiva encerrou com o pleno êxito desportivo do Sporting. A conquista do campeonato de Portugal, na última jornada, e da Taça de Portugal, na semana seguinte, confirmaram a hegemonia da equipa liderada por Rui Borges no contexto nacional.
Ainda assim, quando apressadamente se passou ao defeso, começou a circular um sentimento de reserva e até de um certo ceticismo pelo trabalho desenvolvido pelo atual treinador do Sporting, colocando em causa as suas qualidades enquanto timoneiro da equipa que, volte a frisar-se, conquistou os dois troféus nacionais com maior prestígio, feito que não sucedia desde a igualmente triunfante temporada 2001/2002, em cujo plantel pontificavam João Vieira Pinto, o pai, e Mário Jardel, o filho.
Volvidos 23 anos, o Sporting repete a dobradinha, demonstrando ser a equipa mais competente e com maior qualidade no panorama do futebol português, aparte as incidências da final da taça, que alguns utilizaram para ofuscar o mérito desportivo do Sporting. Sim, poder-se-á admitir que ficou uma expulsão por assinalar, mas será muito redutor atribuir a esse facto uma causa determinante, estando por provar a influência direta no resultado desse jogo.
O Sporting nos 120 minutos acabou por ser mais competente, por ter sido superior em boa parte do segundo tempo e muito superior no prolongamento. Em certa medida, essa versão distorcida do jogo da final da taça terá ajudado para que não fosse atribuído o mérito devido às conquistas do Sporting e do seu líder de campo.
Há ainda outros dois fatores que, na minha opinião, muito contribuíram para o clima de desconfiança gerado em torno de Rui Borges: a sucessão de Ruben Amorim e a falta de empatia na comunicação do atual treinador do Sporting.
Suceder a Ruben Amorim seria sempre uma tarefa hercúlea e até mesmo ingrata, como se viu pela forma açodada com que o seu primeiro sucessor, João Pereira, foi desgastado e condenado ao fracasso. Reconheçamos, Ruben Amorim foi o treinador mais transformador do Sporting nas últimas décadas, havendo, provavelmente, pouca gente viva que identifique outro treinador com tanto impacto no clube. Sem retirar qualquer mérito ao trabalho da atual Direção, que foi quem teve a sagacidade e a coragem de fazer essa aposta num momento, aliás, conturbado, em que os resultados desportivos teimavam em aparecer, é quase unânime reconhecer que há um antes e depois no Sporting com a chegada de Ruben Amorim. E essa marca indelével deixaria sempre uma nuvem carregada de sombras e uma responsabilidade acrescida para o sucessor na função.
Por muito bom que tenha sido esse tempo e por muita empatia que a comunicação de Amorim gerava nos associados e na imprensa, os adeptos do Sporting devem olhar em frente e reconhecer que o clube tem atualmente um treinador de inegável qualidade no comando da sua equipa, com títulos conquistados e provas dadas, pelo que não faz sentido este manto de dúvida e de reservas sobre as suas reais capacidades. E fico até agradado em perceber pelas notícias veiculadas na semana passada que a Direção do Sporting pretende reconhecer as suas capacidades, reiterando a confiança com a renovação de contrato com Rui Borges.
Reconhecida a competência e a importância decisiva do treinador do Sporting no êxito desportivo, cabe também conceder que a empatia gerada pela sua comunicação pode e deve ser melhorada, sem, contudo, transigir com aqueles que o apelidaram pejorativamente de um treinador de tasca. E não deve existir qualquer drama, nem deve ser assumido como um problema, a necessidade de Rui Borges evoluir na sua comunicação e passar melhor a sua mensagem, induzindo maior empatia e confiança nos adeptos do Sporting.
Por exemplo, as expressões que recorrentemente utiliza da «falta de energia» ou de «o jogador estar ligado», devem ser mais percetíveis e desenvolvidas para que todos compreendam o que pretende dizer. É uma questão de quebra de rendimento físico? É a forma de jogar que exige muito dos jogadores, com uma pressão constante e uma intensidade na rotação da bola, que impossibilita os jogadores de estarem ligados os 90 minutos? São dúvidas que assolam os sportinguistas, por a mensagem muitas das vezes não passar da melhor forma.
No que concerne ao jogo jogado, este ano a equipa liderada por Rui Borges patenteia um futebol mais associativo e coletivo, menos dependente de uma figura marcante como Gyokeres que, especialmente, conquistou as gerações dos mais novos, e indo até muito mais além do universo de jovens sportinguistas, com a empatia criada pela sua forma combativa e dinâmica de atuar e, particularmente, pela célebre comemoração com os seus dedos entrelaçados a fazer de máscara.
A organização ofensiva do Sporting este ano tem-se afirmado como a mais vistosa do campeonato e a mais bem trabalhada, e isso é mérito exclusivo do processo de treino da equipa técnica liderada por Rui Borges. Atualmente, no alto rendimento das equipas profissionais, desengane-se quem considera que os processos de uma equipa são meramente fruto do talento dos jogadores ou de outras forças do acaso. Se o Sporting tem hoje o melhor ataque da Liga é o resultado das ideias do nosso treinador e do trabalho executado diariamente no centro de treinos da Academia Cristiano Ronaldo.
Se atendemos à estatística, considerando somente a competição mais relevante para os sportinguistas, a Liga, Rui Borges, em 33 jogos como treinador do Sporting, averbou apenas uma derrota, no jogo deste ano contra o FC Porto, muito marcado por aquele apagão de 5 minutos, que permitiu ao adversário superiorizar-se e fazer a diferença no resultado. É também verdade que, na época transata, registaram-se alguns empates não expectáveis, particularmente em casa com o Arouca e com o Aves SAD fora, em jornadas consecutivas.
Mas esses resultados acabaram por ser muito condicionados pela indisponibilidade de jogadores-chave que se encontravam lesionados, tendo sido necessário recorrer a jovens jogadores da formação leonina. E os resultados menos positivos este ano foram todos com os adversários mais diretos, em jogos designados de aposta tripla, onde os detalhes prevalecem e determinam na maioria das vezes a fronteira do sucesso e para o insucesso. Observando os números e considerando a prestação da equipa dentro do retângulo de jogo, não haveria motivos para as reservas e até mesmo a sensação latente de desconfiança em torno do treinador.
As razões para a falta de empatia justificam-se, então, pela comunicação, que pode e deve ser melhorada. As qualidades do nosso treinador existem e estão evidenciadas, mas como qualquer ser humano pode-se sempre evoluir nos seus atributos. Socorrendo-me de Vince Lombardi, uma grande figura do desporto, enquanto treinador da modalidade do futebol americano, reconhecido como um líder inspirador no desporto e não só: «Os líderes não nascem: constroem-se. Tal como qualquer outra competência, a liderança resulta de trabalho consistente e exigente. E esse é o preço a pagar para atingir esse objetivo.»
No futebol atual com tantos holofotes, que não apenas os da iluminação do campo de jogo, ganhar é determinante, só que pode não chegar. O treinador fala no sagrado balneário, mas também para os adeptos e para o espaço público onde se constroem as perceções. Rui Borges já demonstrou, dentro de campo, que sabe ganhar e liderar a equipa. Falta-lhe apenas que a comunicação acompanhe a qualidade do seu trabalho, criando a empatia que transforma o respeito em reconhecimento. O reconhecimento que Rui Borges merece.