Jorge Jesus na convocatória da seleção para os jogos da Liga das Nações - FOTO: Miguel Nunes
Jorge Jesus na convocatória da seleção para os jogos da Liga das Nações - FOTO: Miguel Nunes

O «zero» de Jesus e dos outros

Faltam respostas de várias partes para se perceber como se operava na seleção. Coerência? Só as palavras de JJ sobre a decisão técnica

A pergunta foi para Jorge Jesus, mas não era apenas dirigida a ele. Era para toda a estrutura da FPF e, provavelmente, da atual à anterior. O selecionador fez reuniões com pessoas externas à federação, nomeadamente, o diretor desportivo do Al Nassr, em duas ocasiões, e um conselheiro de Cristiano Ronaldo,Tiago Craveiro, antes do abandono do internacional português do estágio na Dinamarca.

O jornalista de A BOLA perguntou se este tipo de ingerências terminou, porque esta situação não pode ser tratada com leviandade. Desde logo porque levanta a questão: aconteceu antes? Aconteceu com outros jogadores, clubes ou conselheiros? Essa reunião foi mesmo pedida por Jorge Jesus como referiu o comunicado de Ronaldo? Tendo em conta toda a situação e as suas implicações, a FPF sabia desse requerimento?

No comunicado de outubro de Ronaldo, dizia-se: «Foi produzido um pequeno documento que eu mesmo validei e que, com o meu conhecimento, foi entregue ao selecionador, tal como ele havia solicitado.» E eis que aqui reside a dúvida sobre uma possível ingerência. A FPF soube e foi conivente? Ou não concordou e o selecionador aceitou-o sozinho? Pior, nem sequer soube?

Este caso de Ronaldo e as reuniões mantidas diretamente com o treinador levantam não só uma suspeita sobre um tratamento privilegiado, mas sobre todo um modo de funcionamento nos bastidores, cuja ausência de respostas mantém a dúvida de como se relacionam duas estruturas: a da seleção e do jogador, seja ele quem for.

Entende-se perfeitamente que alguma diplomacia «preventiva», conversa de bastidores, devia haver para se ultrapassar a questão da altura. Mas ao não responder, ou melhor, ninguém responder - Pedro Proença apenas «repetiu» o que a FPF já tinha dito em comunicado sobre o adeus de Ronaldo, sem haver perguntas ao líder federativo - ficamos sem saber os porquês da situação ou da sua recorrência.

No meio da dúvida, de zero respostas de muitos, houve um zero sonoro. O de Jorge Jesus quando respondeu que nada mudava em relação ao que sucedeu no estágio anterior e que reafirma de forma inequívoca a sua autoridade técnica sobre quem é titular, quem vai para o banco e quem é suplente utilizado.

Foi, em todo este caso, a parte mais coerente, pois falta ainda saber o que mudou para Cristiano, entre o comunicado de outubro em que dizia - «Se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção» - e a carta de despedida.

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