Cristiano Ronaldo - Foto: MIGUEL NUNES
Cristiano Ronaldo - Foto: MIGUEL NUNES

Como se sucede a alguém tão extraordinário como Cristiano Ronaldo?

Choques de Realidade é o espaço de opinião de Rui Pedro Soares, consultor

A camisola da Seleção Nacional é o maior símbolo de afirmação de Portugal no mundo.

E, entre todas as camisolas, há uma que adquiriu um significado absolutamente extraordinário: a camisola número 7.

Cristiano Ronaldo usou-a durante quase duas décadas, sucedendo a Luís Figo, que a tinha envergado durante mais de dez anos.

Nenhuma campanha de promoção turística ou iniciativa de diplomacia económica consegue que Portugal capte a atenção de milhares de milhões de pessoas.

A decisão sobre quem será o próximo a envergar esta camisola é, por isso, muito mais importante do que uma simples escolha técnica do selecionador nacional.

Na impossibilidade de retirar definitivamente o número 7, em virtude das regras de numeração das competições internacionais, importa perceber que estamos perante uma decisão com consequências para a imagem de Portugal no mundo.

Mas a verdadeira questão não é saber quem deve vestir a camisola 7. É perceber como se faz a sucessão de alguém que foi verdadeiramente extraordinário.

Como se sucede a alguém insubstituível? Como se respeita um legado sem ficar prisioneiro dele? Como se prepara o futuro sem procurar reproduzir o passado?

São perguntas que ultrapassam o futebol e que se colocam a todas as organizações que tiveram a felicidade de contar com alguém excecional.

O maior erro seria procurar o jogador mais parecido com Cristiano Ronaldo ou que jogasse na mesma posição.

Não haverá outro Ronaldo. Não haverá outro jogador com a sua combinação de talento, ambição, personalidade, capacidade de trabalho, longevidade e projeção mediática.

Procurar reproduzi-lo seria condenar o seu sucessor a uma permanente comparação impossível de vencer.

A melhor forma de suceder a alguém extraordinário não é tentar ser igual. É ter a coragem de ser diferente.

Vitinha e João Neves são dois futebolistas extraordinários, diferentes entre si e, sobretudo, diferentes de Cristiano Ronaldo.

Não no talento, ambição ou vontade de ganhar, mas porque representam outras formas de exercer a excelência, de afirmar a personalidade e de viver o sucesso.

Vitinha é extraordinário e distingue-se pela inteligência, pela discrição e pela capacidade de colocar o talento ao serviço dos outros.

É o jogador que liga toda a equipa, que melhora aqueles que o rodeiam e que demonstra, em cada jogo, que a verdadeira liderança não precisa de ser ruidosa.

Num mundo cada vez mais dominado pelo culto da personalidade, pela necessidade de protagonismo e pela procura incessante de reconhecimento individual, não será precisamente deste tipo de líderes que mais precisamos?

João Neves representa uma possibilidade igualmente fascinante.

Com apenas 22 anos, venceu já duas Ligas dos Campeões consecutivas pelo Paris Saint-Germain, é tricampeão nacional, tendo conquistado um campeonato português e dois franceses, e ganhou a Liga das Nações por Portugal.

É difícil imaginar um percurso mais extraordinário para alguém tão jovem.

João Neves é extraordinário e continua a ser o protótipo da pessoa simpática, trabalhadora, educada e sem tiques de vedeta.

Aquele que qualquer família gostaria de ter como filho ou como genro.

Vitinha e João Neves não são versões menores de Cristiano Ronaldo — são totalmente diferentes.

Ronaldo construiu uma imagem assente na afirmação individual, numa ambição quase ilimitada e numa personalidade que fez dele uma das figuras mais reconhecidas do planeta.

E fê-lo com uma disciplina e uma capacidade de trabalho que devem continuar a servir de exemplo às próximas gerações.

Vitinha e João Neves representam outras formas de excelência: a inteligência coletiva, a discrição, a simplicidade e a capacidade de fazer os outros melhores.

São diferentes modelos de afirmação e Portugal deve ter orgulho em todos eles.

Mas esta reflexão não pretende escolher entre Vitinha e João Neves, nem sequer limitar a sucessão a estes dois jogadores.

O que está em causa não é escolher um nome.

É perceber que a sucessão de alguém extraordinário não deve ser um exercício de imitação, mas uma oportunidade de renovação.

O que não faria sentido seria entregar automaticamente o número 7 a um jovem extremo talentoso, apenas porque ocupa uma posição semelhante à de Ronaldo.

As regras obrigam à utilização do número 7, pelo que a escolha do seu sucessor não pode ser feita sem reflexão.

A camisola 7 é património simbólico de Portugal. Já não pertence a Cristiano Ronaldo, não pertence ao próximo jogador que a vestir e, em certo sentido, nem sequer pertence à Federação.

Pertence à memória coletiva dos portugueses e à imagem que o nosso país construiu perante o mundo.

A melhor homenagem que podemos prestar a Cristiano Ronaldo não é procurar desesperadamente o jogador mais parecido possível, é reconhecer que aquilo que fez foi único e irrepetível.

Os grandes legados não podem transformar-se em prisões para quem vem a seguir. Devem servir de inspiração para que outros possam construir o seu próprio caminho.

Portugal teve a felicidade extraordinária de produzir Luís Figo e Cristiano Ronaldo. E tem hoje a felicidade de continuar a produzir futebolistas de dimensão mundial, com características, personalidades e formas de afirmação diferentes.

É essa capacidade de renovação que devemos celebrar.

O novo número 7 de Portugal não vai ser o novo Cristiano Ronaldo. Vai ser o próximo Portugal.

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