Paulo Fonseca e a cadeira de sonho
Todos vivemos, ao longo de anos, os nossos contos de fadas. Os objetivos que traçamos, nas nossas carreiras profissionais, são mais ou menos atingíveis consoante as oportunidades, os momentos, os desafios e a visão de quem nos proporciona a sua concretização.
Paulo Fonseca esteve dez anos no estrangeiro. Bem sei o que isso é. Viagens constantes, saudades do espaço e da gente que nos diz muito. Adaptação constante a estilos e ritmos de vida que nos desafiam a cada dia, a cada hora. No futebol de alto rendimento, Fonseca teve essa experiência na plenitude, vivendo na Ucrânia, em França e em Itália, treinando emblemas de responsabilidade e procurando melhorar as suas competências a cada novo desafio.
Não é um treinador de parangonas, e o tempo em que desenvolveu a sua atividade fora de portas foi tornando mais opaca a sua presença nos media nacionais. É natural, é uma das leis que temos de adotar quando cruzamos fronteiras. Mas era um sonho antigo de Frederico Varandas para treinar o Sporting.
Convenhamos que, no seu consulado como líder de um dos grandes portugueses, o médico teve olho para dois nomes, relativamente aos quais se traça algum unanimismo, quando se olha atrás no tempo e se analisa a carreira competitiva dos leões, nos últimos anos.
Ruben Amorim e Rui Borges conseguiram ser felizes em Alcochete e Alvalade, ganhando títulos e, sobretudo, cativando, por via disso, a maioria esmagadora dos adeptos verdes e brancos. Mas a ditadura dos resultados (no caso de Borges) e a magia da Premier League (para Amorim), encarregaram-se de ir abrindo portas a novos protagonistas.
Paulo Fonseca — confessou-o na sua apresentação — é «sportinguista desde pequenino». Muitos costumam dizê-lo da boca para fora, quando assumem funções em clubes de referência nos seus países, ou mesmo fora deles. Ruben Amorim, por exemplo, teve nesse soundbite um dos principais e mais divulgados momentos da sua apresentação em Milão.
Mas Fonseca foi sincero, reportou-se ao passado de juventude e falou de grandes nomes que, incontornavelmente, marcaram a história leonina: Mészáros, Balakov, Manuel Fernandes, Douglas… Quem tem mais alguns anos de profissão ou de ligação ao futebol bem deles se recorda, no antigo Estádio José Alvalade, espalhando magia e criando raízes para recordações indeléveis.
Foi inteligente na primeira abordagem, o novo treinador do Sporting. Puxou o tempo atrás, piscou o olho às diversas gerações, engrandeceu o clube e o seu legado, aliou-se a momentos de glória e a homens de referência, e ganhou algum lastro de confiança, ainda sem se ter sentado no banco de suplentes. Em rigor, ainda antes de ter franqueado os portões da Academia Cristiano Ronaldo.
E assim tem, pelo menos, o benefício da dúvida à frente de uma equipa que oscilou demasiado, do ponto de vista do rendimento competitivo, neste arranque de temporada. Duas derrotas caseiras comprometeram a relação de confiança que se havia tacitamente estabelecido entre Varandas e Rui Borges, e precipitaram em alguns dias uma solução que estava estudada para implementação durante a pausa para os trabalhos das seleções nacionais. Uma mera questão de timing que, porém, não é tão despicienda assim: o líder sportinguista quis dar um sinal poderoso de controlo das situações, ainda que tenha falhado na proposta a Borges para dirigir o jogo 100 em Stamford Bridge, para a Liga dos Campeões. O técnico transmontano esteve muito bem ao bater com a porta na cara do presidente.
Resta a Paulo Fonseca respirar fundo e, depois de Paços de Ferreira, FC Porto, SC Braga, Shakhtar, Lille, Roma, Milan e Lyon, encontrar o caminho certo em Lisboa.
Que, porém, não se iluda: sem resultados, vai-se o carisma e as cadeiras de sonho viram rampas de pesadelo.
1 Um tremendo negócio e, sobretudo, a alavancagem definitiva para uma saída que poucos imaginariam possível: a operação financeira conseguida com a privatização parcial da TAP é um movimento em vários sentidos, inesperado mas definidor do grande alcance estratégico da transportadora portuguesa de bandeira. Porque cativou o quarto maior grupo de aviação do planeta, o que não é coisa pouco e revela também, da parte da Lufthansa, uma imensa visão estrutural; porque musculou a sua dimensão intercontinental, designadamente como plataforma essencial para as ligações com África e América do Sul; porque garantiu uma parceria essencial para potenciar o hub de Lisboa mas, também, para forçar, finalmente, a construção do novo aeroporto da capital.
Uma operação financeira que o próprio Estado não imaginaria possível, conduzida com zelo e com a noção exata do grande valor de uma marca nacional que, agora reforçada pelo gigante alemão, jamais deixará de o ser.
2 Gosto de soluções de bom senso. Lisboa tem vivido em sobressalto as últimas semanas, por força de um tema que nos toca a todos: a habitação. O direito inalienável a viver com alguma qualidade e independência, algo que jamais deveria ser discutido, mas que a especulação imobiliária galopante trouxe, e de forma aflitiva, para a ordem do dia e para as pautas dos media.
O centro de Lisboa é dos lisboetas e de quem visita a capital portuguesa. É natural que os movimentos de contestação escolham a visibilidade e a centralidade para fazerem valer os seus pontos de vista. Também é óbvia a legitimidade de quem entende que o Rossio deve ficar livre para a instalação do Mercado de Natal, elemento de valorização turística e atração pública muito significativo nas próximas semanas.
Por isso, o bom senso — algo muito difícil de potenciar quando, de um lado e de outro, há um seletivo autismo negocial — é fundamental para que ninguém abdique dos seus direitos: o legítimo sentido de (in)justiça de quem protesta pela essência social de ter casa para viver, e a natural ambição de valorização de um período crítico para a sobrevivência comercial do centro de uma cada vez mais atrativa capital europeia.
Só é indispensável, claro, o tal complicado bom senso…