Jorge Jesus falou do futuro sem Cristiano Ronaldo
Jorge Jesus falou do futuro sem Cristiano Ronaldo

Adeus a CR7, o «faria tudo igual» e o passado que não interessa: tudo o que disse Jorge Jesus

Selecionador nacional divulgou os 28 nomes para os jogos com Dinamarca e País de Gales, com sangue fresco, e tentou fintar perguntas difíceis sobre Ronaldo e todo o processo que precipitou final de história com 23 anos

— O tema incontornável é a despedida de Cristiano Ronaldo da Seleção Nacional. Queria perceber a sua perspetiva e que reação espera do grupo que se vai reunir agora. Olhando também para duas estreias absolutas na sua convocatória, Gustavo Varela e Alberto Costa, o que pretende ao trazer estes dois jogadores agora?

— Como foi focado aqui, em relação à última convocatória são sete novos jogadores. Pretendo o quê? Pretendo que o facto de estes jogadores estarem a ter um rendimento compatível com a convocatória para a primeira equipa nas equipas onde estão, neste caso os cinco jogadores que estavam na seleção de sub-21... Pretendemos aqui renovação, o futuro para a Seleção é dentro desta perspetiva.

— Como é que se encontra animicamente depois de já não poder contar com Cristiano Ronaldo? Acreditava genuinamente, depois do comunicado em que o acusava de ter faltado à palavra, que Ronaldo ainda pudesse estar consigo nestes dois últimos jogos da Liga das Nações?

— Neste momento ainda temos de falar sobre ele, mas tudo aquilo que passou no passado não me interessa. O que me interessa é falar do tema Ronaldo. Respondendo à sua pergunta, claro que pensava que ele voltava. É claro que u pensava convocá-lo, claro que pensava conversar com ele, mas tenho de o respeitar. Ele decidiu que era a hora de abandonar a Seleção. Mais tarde ou mais cedo isso teria de acontecer. Ele achou que este era o melhor momento para sair, tenho de respeitar, nunca podendo ignorar aquilo que ele foi para Portugal, aquilo que ele ainda é para Portugal, o símbolo que ele é para os jogadores mais jovens que estão a começar a carreira. São duas coisas completamente separadas uma da outra.

— Qual foi o timing em que soube que Cristiano Ronaldo já não ia estar disponível para a Seleção Nacional? Foi avisado com antecedência ou só soube quando saiu o anúncio?

— O timing soube quando todos nós soubemos. A decisão dele foi-me comunicada exatamente ontem [esta quinta-feira], como todos vocês souberam, depois do vídeo e do comunicado que ele fez. Até aí não tinha conhecimento de nada. Tanto é assim que, em face do que ele estava a jogar e a fazer golos, era um dos jogadores que estava na minha convocatória.

— Durante o período de castigo tentou convencer Ronaldo a voltar? Como lida com a responsabilidade de ficar na história como o selecionador que acabou por forçar o abandono de Ronaldo da Seleção?

— Não falei, não tentei falar com o Cris. Eu ia sempre ficar na história de o Cris sair da Seleção nos quatro anos de contrato que tenho com a Federação, até 2030. Portanto, se não fosse nesta convocatória, na próxima convocatória, se ele achasse por bem, seria. Era ele que decidia. Em qualquer momento desta Liga das Nações isso ia acontecer, portanto, ia estar sempre ligado à saída do Cristiano Ronaldo até 2030, só se ele em 2030 ainda pensasse jogar.

— Disse várias vezes que pediu ao Cristiano para estar a seu lado nesta altura na Seleção Nacional, mas soube na véspera que ele ia sair. Depois de todo o comunicado e do que aconteceu, há alguma mágoa em si com toda esta situação ou sente essa responsabilidade?

— Se acabei de dizer que pensava convocá-lo, é porque pensava que ele continuasse neste projeto da Liga das Nações. Mágoa em mim não há nenhuma. Porquê? Porque todas as minhas decisões foram a pensar na equipa, eu como treinador a defender sempre o que era o melhor para a equipa. Portanto, estou tranquilo em relação a toda essa minha decisão.

— No comunicado de Cristiano Ronaldo é dito que houve uma reunião e que ficou combinado o selecionador dizer determinadas coisas na conferência de Imprensa e que não cumpriu. Isso é verdade ou não? Quer explicar aos portugueses o que aconteceu?

— Já disse a um colega teu atrás: esse tema para mim já foi falado, não vou falar mais desse tema. Se quiseres falar do tema Ronaldo não ser convocado, OK. Esse momento já foi falado.

— O presidente Pedro Proença assumiu a responsabilidade de liderar a Federação Portuguesa de Futebol e proteger os interesses da Seleção. Considera que o presidente esteve à altura da dimensão desta crise ou falhou na liderança institucional?

— Fez-me duas perguntas, à outra já respondi, que seria ficar sempre associado ao tempo em que eu estivesse como selecionador. Em relação à situação do presidente, sou selecionador, treinador, não vou comentar aquilo que o presidente pode fazer ou devia fazer, isso está fora de questão.

— Em face da gestão deste processo com Cristiano Ronaldo, pode prometer aos portugueses que a partir de agora não haverá ingerências externas em casos como este, com pessoas alheias à Federação a participar em reuniões?

— Voltar outra vez ao mesmo tema... Já disse que esse tema já foi abordado, não falo mais dele. Se me quiseres fazer uma pergunta: 'Porque é que o Cristiano não está aqui. Pensavas que o ias convocar?' Pensava. Ele não está aqui porque foi ele que decidiu, e bem, tenho de o respeitar. O que já falei já não é tema. Neste momento o tema são estes 28 jogadores e a decisão do Cristiano, que temos todos de respeitar. Ele é um símbolo, já falei ontem [esta quinta-feira] sobre isso e não vou repetir o que já disse.

— Pouco mais de 24 horas depois do sucedido, sente-se mais pressionado a ter sucesso imediato com esta Seleção, ou seja, a ganhar o título que aí vem?

— Não é por este facto. Os treinadores estão sempre pressionados pelos resultados, como é óbvio. O que é verdade é que nestes quatro jogos Portugal garantiu o apuramento para os quartos de final, sendo uma das únicas duas equipas que neste momento o conseguiram fazer, Portugal e Espanha. A pressão, quando estás numa Seleção com esta qualidade de jogadores e sentes que podes ganhar títulos, será sempre igual.

— Com a saída de Cristiano Ronaldo abre-se a vaga de capitão da Seleção Nacional. Há vários jogadores experientes que podem assumir a braçadeira, como Bernardo Silva, Rúben Dias ou Bruno Fernandes. O que espera do novo capitão e já se sabe quem vai ser?

— Na Seleção o selecionador não escolhe os capitães da equipa, eles são escolhidos pelas internacionalizações. Neste momento são cinco aqueles que têm mais número de internacionalizações. Curiosamente, todos esses cinco já foram meus jogadores em clubes onde treinei. A lógica vai manter-se igual: o jogador com mais internacionalizações a seguir ao Cris é o Bernardo Silva. Bernardo Silva, Rúben Dias, João Cancelo, Rúben Neves e Bruno Fernandes, não por esta ordem, mas são estes cinco.

— Pegando na questão de Bernardo Silva e no episódio do passado no Benfica, quando ele criticou publicamente o facto de não ter jogado na sua posição, passado mais de dez anos o Jorge Jesus chega a selecionador e o Bernardo passa a ser o seu capitão. O que é que ele pode oferecer à Seleção com esse estatuto?

— Pode ser a experiência dele, a qualidade dele como jogador. Está a passar uma boa fase no Real Madrid, não é fácil ser titular do Real Madrid. Portanto, não tenho dúvida do valor de um jogador que é titular numa das melhores equipas do mundo. Sabendo que Portugal, para além do Bernardo Silva, tem outros jogadores com enorme qualidade que também estão no topo das melhores equipas da Europa e do mundo.

— Sente que a sua autoridade perante o grupo foi reforçada na sequência deste episódio? O que espera dos pontas de lança Fábio Silva e Gustavo Varela nesta primeira chamada sem Ronaldo?

— Penso que não. No tempo em que estivemos juntos pela primeira vez ficou demonstrada não só a capacidade técnica e tática da equipa, mas também a interligação entre eles. Tive alguma vantagem por entrar como selecionador novo mas com muitos jogadores que já tinham trabalhado comigo. A minha vantagem é os jogadores acreditarem no processo, na ideia e em continuar a ganhar.

Em relação aos dois avançados, ao Varela e ao Fábio: o Fábio tem vindo a crescer na equipa dele, no Borussia Dortmund, e desde o último jogo em que jogou muito bem, fez um golo e fez uma assistência. É um jogador com características que têm muito a ver com a minha forma de pensar em relação aos avançados. O Varela é um miúdo que era o melhor marcador do campeonato italiano ou estava perto de o ser. Tens de ter qualidade e foi dentro dessa ideia que acreditámos no futebol do Varela, para além de ser um miúdo de 21 anos.

— Em relação a Alberto Costa, o que o levou a convocá-lo?

— Exatamente pela mesma questão dos outros. Vi vários jogos do FC Porto. Acho que é um lateral-direito que ao longo dos anos e ao longo desta época, jogo a jogo, tem vindo a melhorar. É um jogador fisicamente muito forte, tecnicamente com muita capacidade e tem características posicionais semelhantes ao meu pensamento para os jogadores dessa posição. Tenho a certeza de que vai ser um jogador de futuro, um jovem com o qual Portugal vai ter mais um grande jogador na Seleção.

— Há um mês Cristiano Ronaldo afirmou num comunicado que queria voltar à Seleção, mas um mês depois abandona os trabalhos. Não acha estranho que isto tenha acontecido? O que se passou neste intervalo para ele não querer voltar por incompatibilidade com Jorge Jesus?

— Tem de perguntar a ele. A certeza absoluta que tenho é que o Cris trabalhou comigo um ano, fomos felizes no clube onde estivemos e fomos campeões. Eu respeito a decisão dele. Seria sempre comigo nestes anos todos que iríamos trabalhar ou não, ele é que ia decidir. Portanto, não sei responder ao porquê da decisão dele. Sei que ele sabia que o momento dele estava próximo e foi ele que escolheu. Só ele pode responder melhor do que eu.

— Mudaria alguma coisa na forma como geriu o processo com Cristiano Ronaldo? Esteve ontem no Estádio da Luz: gostaria que a Seleção jogasse lá em breve e acha que pode ter algum papel a desbloquear a situação com o Benfica?

— Respondendo à última: claro que gostava que a Seleção voltasse ao Estádio da Luz. Não só porque o Estádio da Luz é emblemático e para mim diz muito — foram sete anos em que fui treinador do Benfica, nos quais fui muito feliz e nunca ganhei tantos títulos como no Benfica —, gostava muito que a Seleção Portuguesa voltasse a jogar no Estádio da Luz.

Em relação à primeira pergunta, vou dizer-lhe que não mudava nada, zero. Zero porquê? Porque tomei uma decisão de treinador, a pensar na minha equipa, na Seleção Portuguesa. Estou consciente de que não fiz nada para que isto pudesse ter acontecido.

— Já falou com Cristiano Ronaldo, antes ou depois do anúncio da notícia? Depois da saída de Ronaldo, a Seleção tem outra responsabilidade para chegar longe nas competições?

— Não falei com o Ronaldo, porque estava a pensar convocá-lo e, a partir do momento em que o convocasse, ia ter tempo para falar com ele. Quanto à segunda pergunta: a responsabilidade é a mesma, porque a responsabilidade de Portugal é ganhar. O facto de o Cris agora não estar na Seleção não nos vai trazer nem mais nem menos responsabilidade. A responsabilidade vai ser a mesma.

— Referiu que a saída de Cristiano Ronaldo aconteceria sempre durante o seu consulado, mas sente objetivamente que ele sai por sua causa?

— Se calhar apressei as coisas, mas por minha causa não. Estava na cabeça dele que, mais convocatória, menos convocatória — porque falávamos algumas vezes —, isso ia acontecer. Seria sempre no meu consulado a saída dele e, portanto, não me sinto culpado de nada em relação à saída dele. Respeito a decisão dele. A história dele não pode ser ignorada e eu nunca o vou fazer, porque ele será sempre um símbolo e criei uma amizade forte com ele ao longo deste ano e meio. Desportivamente tomou outra decisão e respeito muito a decisão dele.

— João Félix tem jogado entre linhas atrás do ponta de lança e causou dificuldades à Dinamarca e ao País de Gales. Rodrigo Moura pode ocupar essa mesma posição e o que pode oferecer de diferente?

— Não são dois jogadores com características técnicas iguais, mas posicionais são, e podem desempenhar muito bem aquela posição. O Rodrigo Moura na Roma tem sido muito participativo ofensivamente, a fazer golos e assistências. Enquadra-se dentro daquilo que penso para estes dois jogos.

Ainda ninguém me perguntou a lógica de ter convocado 28 jogadores quando na primeira convoquei 25 para quatro jogos e agora só tenho dois jogos. Se alguém quiser perguntar depois, eu respondo.

— Qual é a lógica dos 28 jogadores convocados? O que o leva a chamar novamente António Silva e Geovany Quenda, que não tem tido muitos minutos no Chelsea?

— Começando pelos dois jogadores: o Geovany Quenda não tem feito tantos jogos a titular no Chelsea, mas fez um dos últimos jogos contra o Tottenham, onde vi o jogo e achei que esteve excelente. Nos outros jogos entra poucos minutos, mas é um miúdo, é o futuro da Seleção. Quero começar a adaptar os jovens jogadores às minhas ideias, dia a dia, para estarem mais bem preparados.

Em relação a ter convocado mais jogadores, é porque a Seleção tem sete jogadores à bica. Se levarem um novo amarelo não podem jogar contra o País de Gales ou, se levarem nesse jogo, não podem estar nos quartos de final. Como não sei quantos podem levar amarelo no primeiro jogo — e esses já não jogariam contra o País de Gales, não tendo lógica viajarem comigo —, regressarão aos seus clubes. Foi pensado por essa situação.

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