O que esperar de Afonso Eulálio na batalha mais dura pela camisola rosa
A 14.ª etapa do Giro, este sábado, constituiu o mais exigente desafio à liderança de Afonso Eulálio desde a sétima jornada com final no Blockhaus e o contrarrelógio ao décimo dia de competição. Será disputada num percurso de alta montanha, na região do Vale de Aosta, com cinco subidas categorizadas, das quais três são de primeira, a última a coincidir com a meta, uma de segunda e outra de terceira, totalizando desnível acumulado de 4200 metros em 133 km. Partida e chegada previstas para as 12h15 e 15h50, respetivamente (acompanhamento em direto desde o início em A BOLA.pt).
Resistirá o jovem corredor português da Bahrain Victorious com a camisola rosa no final desta demolidora etapa? As previsões é que seja o último dia em que a envergará, perspectivando-se ataque decisivo de Jonas Vingegaard, que mantém o favoritismo maior à vitória final que lhe era apontado antes da Grande Partida da Bulgária após quase duas semanas de competição.
O dinamarquês venceu a única etapa de alta montanha com final em alto, no Blockhaus, tendo distanciado Afonso Eulálio quase três minutos (2.55), recuperando nesse dia quase metade da desvantagem que tinha para o figueirense, de quem agora está apenas 33 segundos atrás.
Espera-se que a equipa de Vingeggard, a Visma, assuma o controlo da corrida mais tarde na etapa, esperando que uma fuga se estabeleça e entregando a perseguição à Bahrain de Eulálio. A formação neerlandesa deverá, depois, imprimir um ritmo intenso nas subidas com o objetivo de desgastar os líderes rivais e os respetivos gregários de montanha, preparando o ataque de Vingegaard na derradeira ascensão (16,6 km a 7% de inclinação média).
Candidatos ao pódio, como Felix Gall (Decathlon), que se mostrou o principal oponente de Vingegaard nas duas chegadas mais seletivas da prova, Thymen Arensman (Netcompany Ineos), e Jai Hindley e Giulio Pellizzari (Red Bull) deverão ficar na expectativa da primeira movimentação do nórdico e beneficiarem de eventual debilidade de Afonso Eulálio.
O português já mostrou duas caras na montanha. No Blockhaus, uma subida mais longa, resistiu até pouco antes do ataque de Vingegaard, quebrando de forma abrupta em consequência do esforço despendido para se manter no grupo principal sob andamento da Visma. Nesse dia, contou com o decisivo apoio do companheiro de equipa Damiano Caruso, que vindo de trás deu a roda até à meta, permitindo ao ciclista luso minimizar a perda.
Na segunda jornada montanhosa com final em cume, na 9.ª etapa (Corno della Scale), Eulálio defendeu-se melhor, recorrendo-se de uma estratégia diferente: abdicou de marcar posição à cabeça do grupo, deixou-se descair às primeiras acelerações de Felix Gaal e de Vingegaard, mas recuperou bem, perdendo apenas 41 segundos para o dinamarquês, que venceu então a segunda etapa na prova. Todavia, as características das subidas foram díspares: o Blockhaus, com inclinações altas e constantes; e o Corno della Scale, só mais íngreme nos quilómetros finais. Afonso pareceu mais apto na última.
Numa estratégia sensata, e partindo do pressuposto de que o português mantém o nível de desempenho que tem vindo a demonstrar, e transcendendo-se como fez em todas as provas de fogo à liderança, incluíndo o longo contrarrelógio, em que superou as expectativas mais otimistas, deve esperar-se que resista à tentação de ir ao choque do primeiro ataque de Vingegaard ou mesmo antes a tentar resistir ao ritmo que as equipas rivais (não apenas a Visma) deverão impor para o cansar.
O sonho de Afonso Eulálio (sempre realista) da maglia rosa deverá terminar este sábado, sucedendo-lhe, sem espanto, Jonas Vingegaard na posse do prestigiado símbolo de liderança do Giro, mas a carreira gloriosa do corredor, de 24 anos, certamente não terminará e não é descabido prever que permanece em posição de pódio (ou top-5) e que por este possa ter legítimas ambições a permanecer até ao final da grande volta italiana, em Roma, no próximo dia 30. No entanto, até lá, ainda muito terá de lutar e sofrer.