Aquilo que o futebol português deveria ser
Bernardo Silva não vai — felizmente — pendurar já as chuteiras, mas o adeus ao Manchester City quase deixa essa sensação de vazio, tão profunda é a marca deixada pelo internacional português no clube pelo qual conquistou tudo: 19 títulos em nove anos.
Quero acreditar que Bernardo, que faz 32 anos em agosto, ainda tem muito para dar ao futebol, mas é provável que já não tenha tempo, pelo menos como futebolista, para escrever um capítulo como este que encerra no próximo domingo.
Para Pep Guardiola o português é uma LENDA — assim mesmo, em maiúsculas —, mas o elogio mais completo dos últimos tempos até veio de outro treinador espanhol do esquerdino.
«Quando falamos no que o futebol português devia ser, é o Bernardo Silva», disse há uns meses o selecionador nacional, Roberto Martínez, destacando a fiabilidade de um jogador que, para além da qualidade técnica, evoluiu constantemente no entendimento do jogo.
Felizmente para o futebol português existem mais Bernardos, desde logo nessa capacidade de aliar habilidade e inteligência, mas o ainda jogador do City tem sido mesmo um exemplo.
Alguém que provou que o talento não tem altura: nem a dos centímetros, nem a da idade. Bernardo chegou mais alto do que aqueles que desconfiaram do seu potencial, ainda nos escalões de formação do Benfica, e que o colocaram várias vezes na porta de saída do centro de treinos do Seixal. Bernardo foi mais além do que aqueles que colocaram de lado entre os crescidos. Revelou-se mais valioso do que julgavam aqueles que esfregaram as mãos à primeira oportunidade de negócio.
Bernardo nunca se deixou diminuir: no Mónaco fez-se príncipe, em Manchester sugere-se uma estátua em sua homenagem. Uma lesão afastou-o do título europeu de 2016, mas nem isso impediu que se tornasse um grande nome da Seleção, com duas Ligas das Nações no rico palmarés.
No meio de tudo isto, Bernardo Silva nunca andou em bicos dos pés. Continua fiel à ética de sempre, por isso respeitado entre colegas e adversários, a encarar tudo com a mesma simplicidade, apesar da profissão privilegiada que tem.
«O pai e a mãe devem sentir-se orgulhosos», chegou a dizer Guardiola.
Felizmente o futebol português tem outros exemplos assim, mas este é o momento de valorizar Bernardo.
Sorte a de quem o levar.