Roberto Martínez, selecionador de Portugal - Foto: MIGUEL NUNES
Roberto Martínez, selecionador de Portugal - Foto: MIGUEL NUNES

Selecionar é decidir. É escolher entre múltiplas opções, e considerar imensas possibilidades. Para a fase final de um campeonato do Mundo, um selecionador nacional deverá sempre seguir as suas intuições, alicerçadas na capacidade de leitura, o mais ampla e abrangente possível, das realidades, das influências e dos momentos de cada jogador.

Ao longo de um ciclo — no caso de Portugal, entenda-se o período entre a vitória na Liga das Nações e o momento da convocação para o Mundial das Américas —, muito se altera, muitas das ideias sofrem evoluções positivas ou negativas.

Há uma perceção essencial, e em relação à qual nenhum de nós terá o completo entendimento: a do balneário, das reações, das pausas, dos movimentos, das motivações, das decisões.

Porque, embora subsista uma importante similitude entre clube e seleção (a de que a forma desportiva será sempre um fator imperativo), há um outro fator idêntico que o treinador tem de respeitar: o comportamento individual, a interação, a capacidade de integrar um coletivo, que apenas o tempo de balneário, os momentos em conjunto podem certificar e justificar.

Dito isto, entendo a defesa feita de António Silva, quando a imprudência da juventude do jogador do Benfica o fez filtrar informações classificadas para o exterior. Fez mal, esteve mal, terá sido repreendido por isso.

E exatamente por isso, não entendo que Roberto Martínez tenha agora vindo a terreiro falar desse momento em relação a Silva. Porque esse simples facto detona a suspeita de que terá sido o elemento essencial para a não convocação do defesa do Benfica para o Mundial.

Vou ser ainda mais claro: entendo que António Silva não tem lugar neste grupo de convocados. Mas esta situação cria uma suspeita evitável, um embaraço lamentável, uma fissura na comunicação.

Curiosamente, o caso criado com a ausência do jogador encarnado encobre outros elementos interessantes na convocatória da Seleção portuguesa para o primeiro Mundial organizado por três países, também o primeiro com 48 seleções e, por conseguinte, o primeiro com mais um jogo para quem atinja, pelo menos, as meias-finais.

Quatro guarda-redes. É impressionante o desconhecimento que grassa na esmagadora maioria dos comentadores de redes sociais. O quarto guardião sabe ao que vai: é uma espécie de árbitro de suporte, será um recurso em caso de lesão de um dos três primeiros guarda-redes, e pode — é uma ideia muito defendida pela generalidade dos selecionadores — ser um elemento essencial no treino dos restantes homens da baliza. Portanto, não há nenhuma surpresa na convocação de Ricardo Velho, defendida pelos regulamentos e aconselhada pelo bom senso.

No restante elenco, a polémica do costume, instalada e legitimada pelas temporadas realizadas. Um pouco à semelhança do que acontece com o Brasil, onde é difícil argumentar a não convocação de João Pedro, jogador de ligação entre o meio-campo e o ataque como o escrete parece não ter, e vindo de uma ótima temporada ao serviço do Chelsea.

Aliás, a justificação pública de Carlo Ancelotti é fraca e muito pouco consistente, comparando com a quase obrigação da chamada de Neymar.

Em Portugal, Cristiano Ronaldo é, evidentemente, nome obrigatório. Mas, aqui chegados, ponto de ordem: Cristiano tem uma carreira única. Para muitos, será o melhor jogador da História. Para mim e para muitos outros, será um dos melhores, que é essencial ter memória e rebobiná-la a várias décadas.

O novo campeão saudita será sempre uma referência no balneário, uma motivação excecional para o grupo de trabalho. Mas não é — não pode ser — um titular indiscutível. Será sempre um trunfo dourado para os trinta ou quarente minutos finais, onde, de posse dos seus valores físicos e psíquicos, condicionará adversários. Mas Portugal tem talento, capacidade individual e desafio coletivo suficientes para ter um onze integral e consistente, e para não depender, em campo, de um jogador cujas condições objetivas para a competição não são as mesmas dos seus companheiros.

Estive na final do Euro-2016, em Saint-Denis. Sou dos que pensam que Portugal foi campeão europeu porque Cristiano saiu de campo, ainda na primeira parte. Foi desse fazer das fraquezas forças que, na realidade, saiu a consistência tática e a capacidade de sofrimento suplementar que garantiram o título europeu a Portugal.

Agora, é essencial que Martínez não abra o flanco. Que tenha personalidade. Que perceba o que é mais importante.

Há uma muito talentosa geração de jogadores portugueses à procura da glória. O selecionador de Portugal fala na importância de uma equipa «em crescimento» ao longo da fase final.

Mas é, neste momento, essencial que ele próprio continue a dar, no maior desafio da sua carreira profissional, um sinal de respeito por todos. Pelos jogadores, pela estrutura, pela imensa mole humana que, nas Américas ou à curta distância da atual sociedade de consumo, suportará a Seleção de Portugal.

A nova diáspora (pelo Mundial além-Atlântico e pelos milhões de portugueses que o atravessaram à procura de um futuro melhor…), tem a obrigação de lutar pelo título. Uma incrível geração de jogadores tem essa ambição. Quer fazê-lo e pode fazê-lo, até por Cristiano Ronaldo. Mas nunca bloqueando objetivos por uma idolatria cega, que pode deitar tudo a perder.

CARTÃO BRANCO

Pode ter saído pela porta pequena de Old Trafford. Mas tem fibra e convicções próprias, como se notou no seu curto consulado no comando do Manchester United. Ruben Amorim voltou a mostrar objetivos maiores, quando terá recusado a sondagem do Benfica para ocupar o lugar que vai ser deixado vago por José Mourinho. O treinador que levou o Sporting ao título quer continuar no estrangeiro. Faz muito bem. Hoje, o projeto que os encarnados oferecem estará longe das realidades e das ambições de quem já atingiu outros patamares.

CARTÃO AMARELO

Há muitos meses, aqui aconselhei Rui Costa a não se recandidatar à presidência do Benfica. Tudo parecia inclinar-se para a necessidade de um outro projeto, de uma outra visão e, sobretudo, de um outro talento enquanto gestor. O futuro imediato parece dar-me razão. Ou Rui não previu que Mourinho poderia ser assediado, ou não leu as entrelinhas, ou não compreendeu as ondas que se criavam. O líder encarnado está legitimado pelo sufrágio eleitoral. Isso é determinante e profundamente democrático, num clube que é, ele próprio, um mundo. Mas sai muito mal da fotografia na sucessão de Mourinho, independentemente da solução a que conseguir chegar.

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