Neymar está entre os 26 convocados de Ancelotti para o Mundial — Foto: IMAGO
Neymar está entre os 26 convocados de Ancelotti para o Mundial — Foto: IMAGO

Neymar: irritante e irresistível

Brasileiro podia ser maior, podia ter sido imortal, podia ter reescrito os livros do futebol. Mas escolheu outra vida, outro ritmo, o compromisso com a falta de compromisso. Bar Nilo é o espaço de opinião de Luís Aguilar, comentador desportivo

Neymar não é um número, não é uma estatística. É a soma do que podia ter sido e do que decidiu ser. Este ano, 15 jogos e pouco mais de mil minutos no Santos. Uma espécie de ex-jogador em atividade, diriam os dados frios. Mas os dados não contam a história que corre nas ruas do Brasil, nas conversas dos bares, nas praças, nas margens do campo, onde se aprende a arte de tocar a bola como se fosse música.

Ancelotti nunca o tinha chamado. Nunca. E, ainda assim, o nome de Neymar apareceu na lista de convocados. Sem razão desportiva, mas quase como uma reza. E o anúncio do seu nome acendeu uma chama num país que há muito desespera pelo talento de outros tempos. Pela conquista do sexto Mundial. Pela dança de um passado que, olhando para as últimas prestações do Brasil em Mundiais, parece ter sido noutra vida.

Há um prazer estranho que cada adepto tem em amar irritar-se com jogadores como Neymar. Porque podia ser maior, podia ter sido imortal, podia ter reescrito os livros do futebol. Mas escolheu outra vida, outro ritmo, o compromisso com a falta de compromisso. Mesmo assim, quando a bola lhe chega, tudo muda. Um toque, uma arrancada, um sorriso no pé, e aquilo que é previsível, frio, calculado, desaparece. Leva-nos para a rua. Para o futebol que se liberta do laboratório.

O Brasil celebrou a convocatória como se fosse um título. Mais emoção do que razão. Mais mito do que resultado. Porque Neymar não é só talento. É promessa de magia, é lembrança de um futebol que já não existe. Vinícius e Raphinha correm, lutam, tentam, têm algum samba nas botas, mas quando Neymar aparece, há um silêncio de respeito, um reconhecimento instintivo de que aquele momento é só dele.

Este Mundial será o último de Ronaldo e Messi. Dois monstros. Dois dos maiores da história. Os homens que dominaram o futebol durante mais de uma década. A certa altura, dizia-se que Neymar podia ser o herdeiro do trono. Nunca foi, nunca quis, nunca percebeu que brincadeira tem hora e sacrifício é a toda a hora. Sempre foi caprichoso, indomável, mimado. E, ao mesmo tempo, irresistível. 

Neymar ri do tempo, das lesões, das expectativas. Para ele, a vida é uma brincadeira. Ainda assim, entre os convocados de Ancelotti, será o único nome que faz o Brasil suspirar, que faz as multidões esquecerem estatísticas e olharem para a bola como quem olha para uma tela em branco.

Num país que viu Pelé, Romário, Ronaldo ou Ronaldinho Gaúcho, entre tantos outros, Neymar é quase uma nota de rodapé na linda e gloriosa história dos craques brasileiros. Não é o maior, não é o mais consistente, não é o que mais trabalha. Mas é aquele que ainda nos lembra que o futebol não é apenas jogo, é sonho.

E, por isso, quando Ancelotti o chama, o país inteiro agradece. Agradece ao menino Ney que já não é menino. Agradece ao artista que nos enfurece. Porque, apesar de todas as festas, lesões e carnavais, ainda é nele que o Brasil encontra aquele futebol descalço, de pó nos tornozelos, e sonho nos pés. O futebol da magia antiga. O futebol que faz o impossível parecer apenas um detalhe mal explicado.

A iniciar sessão com Google...