Tiago Pereira: «No Sporting é sempre para ganhar!»
— O Sporting conquistou todos os troféus, como anunciou orgulhoso, no último jogo do campeonato. É um orgulho?
— Estou muito feliz. É sinal do trabalho bem feito, três troféus em três oportunidades. Tinha prometido no início da época, depois do jogo de apresentação aos sócios, muito trabalho e lutar por todos os títulos. Na Europa foi complicado, mas ficámos muito perto de passar a fase de grupos. A nível nacional tivemos uma derrota durante a época toda. Logo no primeiro jogo do campeonato, que revela consistência e qualidade no trabalho.
— Quando prometeu imaginava que isto poderia acontecer?
— Acreditava que sim. Mas é difícil conquistá-las todas! E nós conseguimos. Aconteceu porque fomos muito consistentes no trabalho ao longo da época e provámos que somos a melhor equipa.
— Foi também a confirmação de que o título anterior não foi acaso?
— Sim, mas mesmo no ano anterior, quando o Benfica foi campeão, já se notava que havia ali uma mudança de paradigma da hegemonia que o Benfica ia tendo nesta modalidade. Sentia-se que o Sporting começava a crescer e que podia acabar com essa hegemonia. No ano passado fomos campeões, com muita resiliência e muita superação. Quando estamos a perder dois zero na final em jogos… Psicologicamente, foi muito difícil para todos os jogadores conseguirmos ser campeões e este ano acho que somos bicampeões com toda a justiça.
— Três zero em jogos...
— E praticamente todos os sets sem muita história, quase sempre a liderar. Não se pode dizer que o Sporting tem hegemonia, em dois anos de campeonato, mas acabámos ali com a que existia no outro clube.
That duo 🤌 Baila, Valencia 🕺 #VoleibolSCP pic.twitter.com/2zr94cmp2i
— Sporting CP - Modalidades (@SCPModalidades) May 6, 2026
— E o segredo é manter peças fundamentais do grupo? O trabalho? O treinador?
— Costumo elogiar muito o meu treinador. Ele já sabe que digo sempre isto, mas a realidade é que a forma de trabalho, a forma de estar do João Coelho veio mudar um bocadinho a mentalidade do clube. A forma de contratar jogadores também, e isso também mudou os jogadores. Tirando a primeira época, em que era preciso mudar a equipa, depois construiu uma base e essa base mantém-se ao longo destes três anos, o que facilita a ligação entre os jogadores, com o staff, o clube. O Coelho é um dos grandes obreiros do sucesso desta mudança de paradigma. Além dos jogadores!
— Sempre com 'low profile'. Também é assim com os jogadores?
— Acho que tem de ser assim. O treinador principal tem de salvaguardar um bocadinho a distância. E ele deixa essa proximidade e a parte mais amigável para o restante staff, para os treinadores adjuntos, o preparador físico, a nutricionista… Eles têm uma relação muito mais aberta com os jogadores e estão mais próximos no dia a dia. E o treinador principal mantém sempre alguma distância.
— João Coelho disse que a participação europeia foi talvez a coisa mais mal digerida da época. É um objetivo para o próximo ano?
— Sentimos isso, sim. O facto de o Sporting estar afastado há muitos anos da maior competição de clubes a nível europeu causou-nos alguma surpresa nos primeiros jogos e não conseguimos estar ao nosso melhor nível e tirar o melhor do grupo, os melhores resultados. E depois, quando fomos fazer contas, já depois de ter acabado o último jogo — e acabámos com duas vitórias aqui no João Rocha — percebemos que perdemos por 11 ou 12 pontos… . Ou seja, se tivéssemos feito mais um ponto em cada set tínhamos passado. Pela forma como o grupo trabalhou, pela forma como viveu o dia a dia, ficou de facto assim um amargo de boca. Podíamos ter feito mais alguma coisa. Quem fica em 3.º na fase de grupos passa para a segunda competição europeia, a CEV, e a equipa que ficou em 3.º chegou à final dessa competição! Portanto, ficou sempre aquele amarguinho de boca que podíamos ter feito mais qualquer coisa.
— E este ano?
— Ainda não sabemos se vamos diretos ou se temos de ir à qualificação, mas se tivermos de ir à qualificação, vamos fazer o melhor para estar na fase de grupos e depois é preciso ver que equipas vão aparecer. Este ano tivemos muito azar no grupo. Jogámos com o vice-campeão da Alemanha, com o campeão polaco e com o 4.º classificado e esse campeão polaco joga a final four da Liga dos Campeões. Era um grupo muito complicado e até tivemos uma prestação muito positiva. Para a próxima época depende do sorteio.
— Depois de confirmar o domínio interno, é altura de dizer agora queremos mais? É um grupo ambicioso?
— Sim, sim. Queremos continuar a ganhar tudo internamente! E continuar a crescer a nível europeu, sabendo que há sempre uma ou outra alteração no grupo e esperar que essas alterações também sejam positivas e que tragam um maior rendimento.
O MOMENTO 🌟 #VoleibolSCP pic.twitter.com/BWyUhbjgYq
— Sporting CP (@SportingCP) May 6, 2026
— Este é um grupo com jogadores de muitas nacionalidades e culturas, como se mantém esta relação?
— Tem muitas línguas, mas a maioria já fala, não fluente, mas fala português. Já percebe e já consegue falar algumas coisas em português. O Jonas [Aguenier] já fala português, o Mads [Kyed Jensen] já fala português. E é bastante difícil, mas eles como falam italiano têm maior facilidade. O Jan [Galabov] passa horas no Duolingo, já consegue perceber praticamente tudo e, portanto, é um grupo de todos os cantos do mundo. Temos uma pessoa da China, uma da Rússia, mas ali dentro do campo, nos treinos e nos jogos, falamos todas a mesma língua. É um grupo que quer ganhar e estar ao melhor nível, ajudar o próximo. Estamos aqui todos para o mesmo.
— Tendo em conta essas individualidades, e alguns de nível internacional, conseguem manter-se unidos, sem guerra de egos?
𝑾𝑬 𝑨𝑹𝑬 𝑻𝑯𝑬 𝑪𝑯𝑨𝑴𝑷𝑰𝑶𝑵𝑺 🏆🏆 #VoleibolSCP pic.twitter.com/dxTYvoQB97
— Sporting CP (@SportingCP) May 6, 2026
— Sim [sorri]. Somos uma equipa bastante competitiva nos treinos e nos jogos e todos querem jogar, todos querem participar. Mas no fundo cada um sabe o papel que tem dentro da equipa e lutamos todos no mesmo sentido.
— O Tiago está aqui há cinco anos, sente cada vez mais adeptos no Pavilhão João Rocha?
— O adepto faz muita diferença! É fundamental nos jogos, seja para nos dar força nos momentos negativos, como para festejar connosco nos momentos positivos. Nos meus primeiros anos foi diferente. Também por não haver resultados, o Sporting não conquistava títulos, os adeptos e os sócios foram-se afastando um bocadinho da equipa e nos últimos anos esta equipa de voleibol, a secção tem demonstrado resultados e aos poucos e poucos estamos a conquistar os adeptos. E este último jogo da final foi o jogo em que, de longe, tivemos melhor ambiente aqui no João Rocha. Os adeptos que vieram, e se calhar vieram alguns pela primeira vez, gostaram daquilo que viram e acredito que tenham ficado com o bichinho e que num futuro próximo continuem a vir a ver-nos.
— Isso é mais responsabilidade para o próximo ano?
— Um bocadinho, mas não muito. Quando representamos o Sporting a responsabilidade é máxima. Temos de entrar em todos os jogos para ganhar, seja contra o campeão europeu, seja contra uma equipa mais humilde. É sempre a ganhar.
— Este campeonato mostrou que é difícil o Sporting ter adversários à altura?
O nosso Míster João Coelho 💚 #VoleibolSCP pic.twitter.com/zXA4K3PHJI
— Sporting CP - Modalidades (@SCPModalidades) May 6, 2026
— Se recuarmos um bocadinho ao jogo da Taça de Portugal, por exemplo, foi um jogo que podia [com o Benfica] ter caído para qualquer um dos lados. Creio que não há uma diferença tão grande de nível de uma equipa para a outra. O que houve foi uma maior consistência e acredito que depois, psicologicamente, o Benfica tenha ido um bocadinho abaixo.
— Depois de ter perdido em casa?
— Depois de ter perdido em casa, claramente. Mas acho que mesmo depois do primeiro jogo em que o Sporting foi claramente superior. Acredito que isso os tenha afetado de alguma forma e sem conseguirem ganhar também, claro. Mas acho que a diferença de nível não é assim tão grande. Até creio que o campeonato português tem vindo a aumentar a qualidade. Existem cinco, seis equipas com bastante bom nível. Mas nós somos o Sporting Clube Portugal e portanto… [risos].
— Sporting CP - Modalidades (@SCPModalidades) May 17, 2026
— Este ano Portugal esteve no Mundial. É a Seleção que ajuda os clubes a subirem o nível ou são os clubes que estão a ajudar a Seleção?
— São os clubes que ajudam a formar os jogadores e a potenciar os jogadores, que depois contribuem para uma melhor prestação da Seleção Nacional.
A uma só voz 🗣️ 𝑺𝑷𝑶𝑹 👏 𝑻𝑰𝑵𝑮 💚 #VoleibolSCP pic.twitter.com/1yWzXNmSwd
— Sporting CP - Modalidades (@SCPModalidades) May 6, 2026
— O facto de Sporting e Benfica, com condições financeiras diferentes, trazerem jogadores de referência internacional, também ajuda os atletas portugueses a crescerem?
— Sim, porque trazem outras visões do voleibol, outra forma de ver a modalidade. Somos privilegiados por ter um campeão olímpico, medalha de ouro e medalha de bronze em dois Jogos Olímpicos a jogar connosco. E é uma pessoa que vive o voleibol, há, não sei, talvez 30 anos! Se calhar quando jogou os primeiros Jogos Olímpicos eu era criança! Estes clubes com maiores possibilidades, ao trazerem esses jogadores, fazem crescer a modalidade também no País. E que ainda por cima parece que a idade não passa por eles!
— Como Edson Valência também, por exemplo? Deixa alguns atletas mais novos envergonhados?
— A mim não, que eu também sou muito trabalhador e gosto muito da parte física, portanto eu compito bem com ele [risos] e gosto da forma de treinar dele, da forma de treinar com ele no ginásio. O Sergei [Grankin] joga numa posição diferente, que já não envolve tanto a parte física, a explosão, o salto, mas é um jogador de uma técnica incrível e ele consegue também jogar ainda mais uns bons anos.
🏆🏆🏆 𝐓𝐑𝐈𝐏𝐋𝐄𝐓𝐄 para o #VoleibolSCP em 2025/26 🟢⚪️ pic.twitter.com/HevE4lPu0q
— Sporting CP (@SportingCP) May 6, 2026
— Qual foi o jogo mais difícil desta época?
— Podia responder facilmente, que foi o jogo em Matosinhos, o primeiro da época, o único que perdemos. Mas acredito que houve outro jogo, com o Resovia Rzeszow, na Polónia, que também não tivemos grandes hipóteses e foi um jogo muito difícil de digerir.
— E aquele em que teve a certeza que iam ser campeões?
— O último. Lembro me de, no primeiro set, dizer para os meus colegas que já não nos escapava, a jogarmos como estávamos. Tinha de ser muita falha nossa para não sermos campeões. Acho que foi no início deste último jogo que acreditei e pensei: ‘Epá, já não nos foge. Vamos ser campeões, vamos festejar aqui com os nossos adeptos.’
#VoleibolSCP | ⏹️ SOMOS BICAMPEÕES 🟢⚪ ORGULHO, LEÕES! 🏆💚
— Sporting CP - Modalidades (@SCPModalidades) May 6, 2026
🏐 Parciais: 25-18, 25-17 e 25-19.
🟢 3-0 🔴 // #SCPSLB pic.twitter.com/yl4RhuAJuD
— Quando olhamos para o panorama do voleibol nacional, as decisões são entre Sporting e Benfica. O que é que falta para ter equipas diferentes a discutir as decisões?
— Num passado não muito distante houve outras equipas, o V. Guimarães, a Fonte Bastardo, o SC Espinho... Existe um bocadinho de falta de investimento nos clubes, porque o voleibol é uma modalidade que tem muita formação, principalmente em minis infantis, ali abaixo dos 14, 15 anos. Mas depois não existe muito transfer para a parte sénior. Não sei se é por falta de incentivo para os jogadores continuarem a jogar.
— Porque é difícil ser profissional em Portugal?
— Muito difícil, muito difícil. Quando eu fiz essa transição, fui para a II divisão, onde não recebia dinheiro. Tirei um curso superior e depois também comecei a jogar na I divisão, quase de borla e tive de ir para o estrangeiro. Fui para a Áustria, estive lá três anos para ser valorizado e quando regressei já conseguia viver do voleibol. Porque acredito, acredito mesmo que para um miúdo com 18, 19 anos, às vezes não é fácil vislumbrar ser jogador porque o voleibol a nível nacional ainda não é uma modalidade que envolva muito, muito dinheiro.
— Queria ser profissional e por isso foi embora?
— Sempre quis ser jogador de voleibol. Na altura nunca imaginei chegar onde estou agora, mas sempre quis, lutei muito e fiz muito para conseguir estar aqui hoje.
— Como foi essa experiência?
— Quando saí da II divisão, fui jogar para o Caldas já depois de ter acabado a faculdade, e fui viver para lá, abdiquei de tudo. Arrisquei muito, mas no segundo ano consegui dar o salto para a Áustria. Mas tive de lutar muito e tenho a sorte grande de ter uma família que me apoiou.
— E a experiência na Áustria?
— Foi espetacular. Trouxe-me muitas coisas. Uma coisa é estar a viver longe dos pais, longe dos amigos, mas em Portugal, a 40 minutos daqui. Outra coisa é estar a viver a milhares de quilómetros. No 1.º ano fui com a minha mulher, mas no 2.º e no 3.º ano, estive lá sozinho. Aprendi a viver sozinho, a viver outra realidade. Aí vivia claramente só do voleibol. Era profissional. Enquanto estive nas Caldas também fazia outros trabalhos, dava aulas a miúdos. No 2.º ano fui logo capitão de equipa. Isso trouxe-me sentido de responsabilidade, de liderança de um grupo. E trouxe-me um campeonato. Fomos campeões no 3.º ano, contra todas as expectativas. O clube nunca tinha ido a uma final sequer e conseguimos um feito inacreditável.
— E o que faz um bom capitão? É fácil ser capitão do Sporting?
— Não, não é nada fácil. Ser capitão nem sempre é fácil. Quando os grupos são bons, as coisas tornam-se fáceis. Mas eu já estive em grupos que não foram assim tão bons, em que houve muitas picardias, atletas desmotivados ou porque não jogavam, ou porque não se sentiam bem na vida que tinham. O capitão tem um papel fundamental de conseguir que se mantenham focados num objetivo comum, que sintam que fazem parte de uma família, que estamos todos a lutar para o mesmo. O capitão também é a pessoa que quando os atletas novos chegam, deve mostrar e fazer valer os valores do clube para eles se identificarem. Não é fácil. Nem todos os atletas têm esse perfil, aliás, muitos poucos atletas têm esse perfil, mas é algo que faço com naturalidade e gosto.
— E é fácil ser capitão desta equipa do Sporting?
— Neste grupo é fácil. Mas já tive outros grupos que não. Somos a maior potência desportiva nacional e, portanto, a responsabilidade é imensa. E eu, sendo capitão, assumo essa responsabilidade.
— E o que é que o capitão vai dizer no início da próxima época?
— Nos dias a seguir, pensei: ‘O que é que eu vou dizer agora, na próxima época?' No ano passado prometi trabalho, dedicação e lutar por todos os títulos. E ganhámos todos os títulos nacionais. Ainda vou ter de pensar mais [risos]. Sempre que vou falar em público, gosto de levar as coisas encadeadas. Mas direi mais ou menos da mesma forma. ‘Enquanto eu for capitão deste grupo, prometo muito trabalho, muita dedicação, prometo que todos vão dar o seu melhor no dia a dia para que o Sporting possa atingir os seus objetivos. Que a nível nacional vamos lutar por todos os títulos e que vamos querer ser muito ambiciosos na Europa e ver onde é que isto nos vai levar.