O normal anormal
Abenefício do meu coração, ansiava pelo fim desta temporada. Prenhe de emoções, acabou muito bem, mas fiquei exausto. De seguida, começou o antes chamado período de defeso, agora referido como o mercado (de 3 meses!).
Chovem anúncios de contratações, compras, vendas, promessas, avanços, recuos, manobras, mais-valias, comissões, ordenadões e outras sinecuras. Nas televisões, são horas e horas sobre transumâncias maioritariamente abortadas. A minha mulher - que só sabe desta enxurrada do mercado por osmose conjugal - pergunta-me, por vezes, se “este não é o mesmo jogador que já há um mês estava para vir (ou sair)?” Explico-lhe que agora é o tempo dessa expressão tão divertida, quanto rumorosa, das romarias dos clubes que estão sempre a perguntar por jogadores ou a fazer que perguntam.
Compra-se e vende-se de toda a sorte: a retalho ou por grosso, líquido ou bruto, a contado ou a prazo, em “saldos” ou em mercados emergentes, com cláusulas abusivas ou não, em regime ad valorem ou de “rent-a-guy”, a custo zero ou com zeros à direita, com direito de serventia ou não, com devolução de monos ou participação de lucros, por objectivos ou sem os mesmos, com fraccionamento do atleta ou com mais-valias potenciais “franchisadas”. Por vezes, tudo tão transparente como o breu da noite em Lua Nova. Este ano - como já aqui escrevi - com a soberania saudita a inflacionar obscenamente o mercado.
Em tempos de dificuldades, de guerra e de incertezas, é dificilmente compreensível a atmosfera de “abundância” que se respira no mundo do futebol e a naturalidade e a facilidade com que se fala de magotes de milhões para cá, magotes de milhões para lá. O povinho parece gostar e discute freneticamente se os rapazes merecem 1, 3 ou 5 milhões de euros e se a transferência deve ser por 15, 20 ou 100 milhões. Onde vai parar toda esta insensatez que, ano após ano, parece não ter limite, com o beneplácito ou a omissão da UEFA e da FIFA? Dir-me-ão que é assim só para os clubes a nadar em dinheiro (e dívidas), desde a Arábia, à China, aos EUA e aos privilegiados desta Europa. Não é verdade. Tudo isto se propaga por ondas circulares proporcionais, tal como a pedra lançada ao lago. Directa ou indirectamente, tantos milhões acabam por influenciar o mundo global do futebol. Já ninguém se espanta com um salário bruto de 3 milhões de um craque, que equivale a ganhar em 4 horas o correspondente ao nosso salário médio! Tudo normal nesta anormalidade.
A benefício da minha saúde mental (por agora, descansa o coração), anseio pelo fim do mercado. Volta campeonato!
O Benfica deixou de ser um entreposto
FOLHA SECA
Pesadelo mediático. Ele é Rafa, que pode sair para as Arábias, agora ou daqui a um ano. Ele é Gonçalo Ramos, pretendido por meio-mundo, que poderá emigrar por uns somíticos 80 milhões. Ele é António Silva, que sai já ou depois. Ele é João Mário, assediado por um saco de dinheiro de um emissário sem camelo. Ele é Neres, observado e perguntado com assinalável interesse. Ele é agora Aursnes, que, antes desconhecido, é agora olhado e desejado por atento scouting externo. Ele é Florentino, cobiçado pela pasta italiana.
Ele é o menino João Neves, que, dizem os entendidos e mais bem informados, já estará a ser perguntado. Ele é Vlachodimos, que, com um concorrente sério, pode dar o salto. Ele é Lucas Veríssimo, dizem que a caminho do Brasil. Ele é Morato, cobiçado pelo Fulham. Eles são os nórdicos que vieram em Janeiro, e que se especula que podem sair ou rodar. Ele era, mas já não é, Otamendi. Ele não será Kerkez para substituir o Grimaldo que trocou o luminoso Benfica pelo modesto Bayer Leverkusen. Tudo em alvoroço, por via de não sei quantos “mercados televisivos” em volta de tudo e de nada.
A minha ousada esperança é que no dia 1 de Setembro, com tanta debandada anunciada e tantos milhões de entrada, ainda haja 8 atletas para se juntarem a dois infelizes campeões do mundo - Otamendi e Di Maria (este um verdadeiro Angel) e Kökçü (que já foi ao Marquês). Isto claro se, nestes dois meses de varejo, não perguntarem por Bah, Ristic, Musa, Chiquinho…Nem me consolam os “237 nomes” que já foram associados ao Benfica por fake news ou solícitos intermediários. Ah! Tudo isto se o treinador Schmidt não aceitar um qualquer convite para seleccionador da Mannschaft. A minha consolação é a de saber que o SLB deixou de ser um entreposto e certamente Rui Costa me vai ajudar a libertar deste pesadelo mediático!
JOGOS FLORAIS
"Move-te por valores! No desporto como na vida…"
campanha em ‘A BOLA’ Plano Nacional para a Ética no Desporto
Valores e princípios. Na passada semana, li em A BOLA histórias significativas e exemplares de valores e de princípios que se passaram no desporto, sob o lema “Move-te por Valores”, promovido pelo Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED). Belas histórias desportivas, marcantes atitudes humanas e edificantes condutas éticas, que deveriam ser lidas e reflectidas por todos os jovens, para que esta iniciativa (que espero continue) seja um passo contra o indiferentismo ético e o falso e hipócrita moralismo que grassam no desporto.
FAVAS CONTADAS
Prémio de assinatura. Pegou de estaca, a moda de prémio de assinatura pedido para renovar um contrato. Confesso que me faz confusão. Prémio para continuar? Prémio para somar aos salários brutos? Prémio para fugir aos impostos? Prémio a somar ao do agente, às vezes pai, tio ou irmão? Prémio crescente para a contagem decrescente de uma carreira? Favas (des)contadas?
FOTOSSÍNTESE
Cheira bem, cheira a Lisboa. O Benfica extinguiu o cargo de director-geral das modalidades desempenhado por Carlos Lisboa e acertou a rescisão do seu contrato laboral. Carlos Lisboa é muito justamente considerado o melhor basquetebolista nacional de sempre. Tudo já foi dito sobre os títulos alcançados como jogador e treinador. Aqui apenas quero sublinhar o virtuosismo, a competência, a beleza do basquetebol de Lisboa. Vê-lo jogar dava-me a ideia de que tudo parecia ‘simples’ e eficaz e, por isso, ao alcance de poucos. O seu nome está indelevelmente ligado à história do Benfica, como seu símbolo e, direi, quase como uma lenda. Na minha memória continuam a ecoar as palavras cantadas com entusiasmo na Luz, ‘cheira bem, cheira a Lisboa’. Muito obrigado pelas alegrias que me proporcionou.