«Mourinho foi o treinador que mais me marcou, está sempre comigo»
Javier Zanetti, figura histórica do Inter, recorda momentos marcantes da sua carreira e vida pessoal, desde os primeiros tempos em Itália até à convivência com alguns dos maiores nomes do futebol mundial.
Em entrevista ao jornal Corriere dello Sport, foi questionado sobre os treinadores que mais o marcaram, e Zanetti não hesitou. «Mourinho, sem dúvida. Ele está sempre comigo. Fizemos algo inesquecível e talvez irrepetível. E depois o Gigi Simoni, que infelizmente já não está entre nós. Simoni era como um pai, tornava tudo simples. José, por outro lado, é um líder, muito convincente e persuasivo. Lembro-me da primeira chamada dele.»
«Era junho, eu estava a regressar à Argentina e fiz escala em Fiumicino. De repente, recebo uma chamada de um número português. 'Sou o José Mourinho. Acabei de assinar pelo Inter, serás o meu capitão. Peço desculpa se não falo bem italiano'. Ele falava perfeitamente. Era direto, leal, um treinador extraordinário.»
Mourinho era direto, leal, um treinador extraordinário
«Moratti é família. A nossa relação vai muito além da de presidente e jogador ou dirigente. E quando digo Moratti, refiro-me a toda a família, a começar por Massimo.»
Se Simoni era o mais simples, qual foi o mais complicado? «Zaccheroni obrigava-nos a fazer muita tática. Às vezes, durante uma hora seguida. O problema para nós, jogadores, era conseguir manter a concentração durante tanto tempo.»
Com Simoni, jogou ao lado do 'Fenómeno' Ronaldo, numa fantástica época de 1998. «Foi o seu melhor período. Nos treinos, mostrava-nos sempre algo diferente, queria surpreender. Livres diretos ao ângulo, lances de um contra um como só ele sabia fazer. Era potente e técnico.»
A figura de Ronaldo também era marcante fora de campo. «Nesses anos, ainda havia a pausa de Natal. Jogámos a 20 de dezembro em San Siro contra a Roma, e o último voo era às 22h30. O Roni disse: 'Quem tiver de viajar comigo, assim que o jogo acabar, toma um duche em dois minutos e vamos embora'. O Cholo [Simeone] e o Zamorano também tinham de regressar. Nós perguntámos: 'Roni, como é que fazemos? A essa hora ainda estamos em campo'. Ele respondeu: 'Façam como eu disse'. «Ganhámos 4-1. Chegámos ao aeroporto à meia-noite e o avião tinha esperado por nós porque o Roni o tinha retido com um telefonema. Imaginem a reação dos passageiros quando nos viram entrar...»
Carreira pós jogador
Atualmente com 52 anos e vice-presidente do Inter, Zanetti sobreviveu a mudanças táticas, revoluções na direção, vendas importantes e crises. Teve quatro presidentes - passou pelas eras de Moratti, Thohir, Zhang e, agora, Marotta -e viu passar cerca de trinta treinadores.
«Sinceramente, o estatuto interessa-me muito pouco. Eu sou um recurso para o Inter. Não me acomodei à condição de ex-jogador. Estudei, apliquei-me e atualizei-me. Ainda hoje frequento cursos sobre marketing, finanças, economia e iniciativas sociais. Aconselho os jovens futebolistas a começarem a preparar o futuro mais cedo, enquanto ainda estão no ativo e não lhes falta tempo», contou.
A relação à distância com Paula
Casado há mais de 30 anos a mesma mulher, Paula de la Fuente, Zanetti recordou como tudo começou quado em 1995 se mudou do Banfield, na Argentina, para jogar no Inter, em Itália. «Nos primeiros tempos, não tínhamos outras opções. Conheci-a em 92 e começámos a namorar logo a seguir. Ela tinha 14 anos e ainda andava na escola, eu tinha 19. Quando apanhei o avião para vir para o Inter em 95, não foi nada fácil. Tive de me apresentar aos pais dela, era necessário. No início, não tinha muito dinheiro. Para telefonar, usava um cartão telefónico que só durava três minutos. Tinha de poupar. A Pau comprou um telefone com fax e eu escrevi-lhe centenas de cartas. Ela só vinha ter comigo a Itália durante as férias de verão na Argentina. Pedi permissão para a trazer comigo e assinei um documento?, lembrou.
«Soube aproveitar uma oportunidade. Passar do Banfield para o Inter, o topo, foi incrível. Empenhei-me e cuidei de mim. Quando cheguei a Milão, os jornalistas nem me deram atenção, era transparente. Para eles, eu era apenas o acompanhante de Rambert.»
Uma noite inesquecível com Maradona em Milão
O antigo lateral teve o privilégio de partilhar o relvado com lendas como Ronaldo Fenómeno e Lionel Messi, e foi ainda treinado por Diego Maradona na seleção argentina.
«Estávamos em 2009, o Mourinho era o treinador do Inter. O Diego chega a Milão e diz-me que quer vir jantar ao Gaucho, o meu restaurante. 'Vemo-nos às nove, nove e meia'. Fizemos grandes preparativos, duas mesas compridas, com as mulheres e namoradas. Eram dez menos um quarto, dez horas... e nada. Recebo uma chamada. O Diego estava furioso com o motorista, que não encontrava o caminho. Estava a um quilómetro do restaurante. Disse-lhe para não se mexer, que nós o íamos buscar. Quando chegámos, era inverno, estava um frio de rachar, como agora. Encontrámo-lo de pé, junto a um semáforo, de bermudas e um casaco comprido até aos pés. O motorista estava a poucos metros, sem coragem de se aproximar. Fomos para a cama às quatro da manhã.»
Confrontado com uma entrevista sua de 2013, na qual lhe perguntaram se já tinha um gabinete preparado para si como dirigente do clube, Zanetti ri-se ao recordar a sua resposta.
«O que é que eu respondi?», perguntou, curioso. A resposta foi direta: «É uma estupidez», disse na altura. «Tal como a história do pacto do ‘asado’, segundo a qual nós, os argentinos, é que mandávamos no balneário e no clube. Eu posso dar uma opinião ao Moratti, mas quem pensa que eu influencio as suas decisões está a sobrevalorizar-me e a subestimar o presidente.»
Ao admitir que muitos jornalistas acreditavam na sua influência, Zanetti conclui com humor: «Estavas em boa companhia.»