Como 1907: quando a liderança transforma a ambição em resultados
O Como 1907 protagonizou esta semana um dos resultados mais surpreendentes da Liga dos Campeões, ao vencer o Lens por 9-1, em França. Marcar nove golos fora de casa, numa competição desta exigência, é um feito extraordinário, que iguala o recorde de golos marcados por uma equipa num único jogo, mas o que mais me desperta a atenção não é propriamente a goleada - é o percurso de um clube que, há apenas sete anos, disputava a quarta divisão italiana e que hoje compete ao mais alto nível do futebol europeu. E, sobretudo, a forma como esse crescimento foi pensado e concretizado porque, por detrás dos resultados, existe um projeto com visão, investimento, organização e uma liderança que tem sabido criar as condições necessárias para transformar a ambição em resultados consistentes.
Em 2019, quando a família Hartono assumiu o controlo do clube, o Como estava longe dos grandes palcos do futebol europeu. O investimento trouxe capacidade financeira, mas o dinheiro, por si só, não explica o percurso. Quantos clubes dispuseram de recursos consideráveis sem conseguirem construir uma identidade ou alcançar resultados proporcionais? A diferença está na forma como os recursos são utilizados e, principalmente, na existência de uma visão que orienta as decisões. No Como 1907, essa visão ultrapassa o resultado do próximo jogo... o clube desenvolveu uma estrutura de recrutamento assente na análise de dados, na avaliação humana e numa articulação entre diferentes áreas de competência. Os indicadores ajudam a identificar jogadores, mas não substituem o conhecimento dos profissionais nem a decisão final da estrutura desportiva.
Num futebol cada vez mais condicionado pela urgência de vencer, o Como 1907 procura olhar para cada contratação como parte de um processo de desenvolvimento. Não basta perguntar se um jogador tem qualidade para chegar, é necessário perceber como pode evoluir, que contexto precisa de encontrar e de que forma se enquadra na identidade coletiva.
Nico Paz é um exemplo desta filosofia - formado no Real Madrid, encontrou no Como 1907 minutos, confiança, responsabilidade e um ambiente favorável à afirmação do seu talento. O clube não se limitou a contratar um jogador promissor - criou condições para que esse potencial se transformasse em rendimento e valorização. É precisamente aqui que a liderança assume um papel determinante: identificar talento é importante, mas criar as condições para que esse talento cresça é o que distingue os projetos verdadeiramente consistentes.
Há também uma presença portuguesa nesta estrutura que merece ser destacada... refiro-me ao Rúben Soares, profissional de excelência que conheço pessoalmente há largos anos e que integra a equipa técnica do clube italiano como analista de desempenho, depois de um percurso ligado ao Benfica. A sua presença num projeto desta dimensão é mais um exemplo da competência dos profissionais portugueses que trabalham no futebol internacional, muitas vezes longe dos holofotes, mas com um contributo importante na preparação, na análise e no desenvolvimento das equipas. Num futebol de elevada exigência, o sucesso constrói-se também através destes profissionais, cuja qualidade e conhecimento ajudam a transformar informação em melhores decisões.
Cesc Fàbregas representa, naturalmente, uma peça fundamental desta construção e, neste caso, a minha admiração pela sua capacidade de liderança não nasceu agora, com os resultados do Como 1907. Tive a oportunidade de conversar com ele no Mónaco, há sensivelmente 10 anos atrás, no âmbito da preparação de um dos meus livros, e recordo-me da impressão que essa conversa me deixou. Vi nele características e traços de personalidade que sempre associei aos grandes líderes: inteligência, clareza de pensamento, empatia, visão, convicção nas suas ideias e uma consciência muito precisa daquilo que pretende alcançar. Era evidente que estava perante alguém que não se limitava a conhecer profundamente o futebol, mas que tinha também uma forma muito própria de pensar o jogo, de interpretar as pessoas e de olhar para o futuro. Hoje, ao acompanhar o seu trabalho como treinador, reconheço muitos desses sinais. Fàbregas chegou ao Como 1907 como jogador, conheceu a realidade do clube por dentro e iniciou ali o seu percurso como treinador. A sua liderança combina conhecimento, exigência competitiva, confiança nos jovens e uma identidade coletiva reconhecível. Não me surpreende o seu sucesso, embora a velocidade e a dimensão do crescimento do Como 1907 sejam verdadeiramente notáveis.
Um dos sinais mais interessantes da maturidade de Fàbregas surgiu precisamente depois da noite histórica em Lens. Quando seria fácil alimentar a euforia, preferiu contrariá-la. Recusou tratar os seus jogadores como fenómenos e insistiu na necessidade de reconhecer o momento, sem perder de vista aquilo que ainda falta conquistar - uma mensagem simples, mas profundamente relevante. A liderança revela-se tanto na forma como se reage às derrotas como na capacidade de gerir as grandes vitórias. Ganhar por 9-1 pode alimentar a confiança, mas também criar a ilusão de que o sucesso está garantido. Um líder tem de saber celebrar sem permitir que a satisfação se transforme em acomodação. Tem de proteger a ambição, preservar a humildade e manter a equipa comprometida com o trabalho diário. Foi precisamente essa capacidade de pensar para além do momento, de manter o foco no essencial e de não se deixar deslumbrar que identifiquei em Fàbregas quando conversei com ele.
Os números desta temporada mostram que não estamos perante um episódio isolado. Depois de quatro jornadas na Liga dos Campeões, o Como 1907 soma nove pontos e 19 golos marcados, apenas menos um do que o Paris Saint-Germain. Pelo caminho, venceu o RB Leipzig, Manchester United e o Lens. Na Serie A, ocupa a quarta posição, consolidando a sua presença entre os protagonistas do futebol italiano.
Há outra dimensão que torna este projeto particularmente interessante… o Como percebeu que um clube pode representar muito mais do que uma equipa de futebol. A localização privilegiada, junto a um dos destinos turísticos mais conhecidos de Itália, foi integrada numa estratégia de valorização da marca, do território e da experiência dos adeptos. O merchandising, as iniciativas ligadas ao turismo e a projeção internacional procuram criar novas oportunidades de crescimento e diversificar as fontes de receita - esta visão demonstra que liderar uma organização desportiva exige compreender o futebol dentro e fora das quatro linhas. A sustentabilidade competitiva depende também da capacidade de desenvolver uma estrutura financeira, comercial e organizacional que acompanhe a ambição desportiva. Naturalmente, o percurso do Como não constitui uma fórmula que todos possam reproduzir. A dimensão do investimento é uma vantagem significativa e o futuro continuará a colocar desafios. O crescimento acelerado aumenta as expectativas, a exposição e a exigência. Manter a coerência quando os resultados deixarem de ser tão expressivos será, provavelmente, um dos maiores testes à solidez do projeto.
Ainda assim, há ensinamentos que ultrapassam a realidade italiana. O Como 1907 mostra-nos que uma organização cresce quando existe clareza sobre o caminho, quando as pessoas certas assumem responsabilidades bem definidas e quando as decisões do presente são tomadas com consciência das consequências futuras. Mostra-nos também que a confiança nos jovens não pode ser apenas um discurso, que os dados devem apoiar, e não substituir, a decisão humana e que a liderança precisa de equilibrar ambição com estabilidade emocional.
Sete anos depois de competir na Serie D, o Como 1907 está na Liga dos Campeões, escreve páginas históricas e desafia algumas das maiores equipas europeias. Os nove golos em Lens ficarão para sempre nas estatísticas da competição, mas o verdadeiro significado desta história está no caminho percorrido até os tornar possíveis. Uma grande vitória pode nascer de uma noite extraordinária, mas um grande projeto constrói-se todos os dias... é precisamente aqui que reconheço a marca de Cesc Fàbregas: um líder com ideias claras, convicto do caminho que pretende seguir e capaz de transformar a sua visão em resultados.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar», «Manuel Cajuda – o (des)Treinador» e «Capitão João Matos – Liderar, Vencer e Inspirar»