O momento de forma e confiança de João Félix tem de ser aproveitado na América do Norte, mas há muito mais por resolver — Foto: IMAGO
O momento de forma e confiança de João Félix tem de ser aproveitado na América do Norte, mas há muito mais por resolver — Foto: IMAGO

O exercício 'Portugal'

Unir as pontas soltas de um sonho exige mais do que talento. Exige um último ato de coragem. Este Mundial é oportunidade única, daquelas que raramente cruzam o destino de uma geração

Este é o meu exercício — e qualquer um de vós terá o seu — sobre aquela que deveria ser a equipa-base de Portugal no Mundial. Dificilmente encontrarão algum condicionamento por gratidão, justiça, estatuto ou clubismo. É uma equipa construída a partir dos convocados de Roberto Martínez, porque já não há outra forma, que tenta responder a problemas recorrentes e não resolvidos da Seleção durante a era do espanhol. E, atenção, lembro que há sempre vários caminhos para o sucesso e, por vezes, várias soluções para um mesmo problema.

O ponto de partida não está na baliza, uma vez que não há neste momento concorrente próximo do nível de Diogo Costa, ainda que ache que o guarda-redes do FC Porto deva trabalhar a linguagem corporal, que por vezes deixa transparecer insegurança. Quantos golos salvaram Schmeichel, Kahn, Buffon graças ao ar ameaçador com que saltavam à bola? Cerra os dentes, miúdo!

UM 'MONSTRO' NO MEIO DA SALA

Começo precisamente pelo 9, porque é aqui que, há muito, reside um dos maiores bloqueios ao crescimento coletivo. Se Martínez não o fez até aqui, muito menos o fará agora, seja em nome da estabilidade do grupo, do núcleo duro ou, simplesmente, por falta de coragem, no entanto, não retirar Cristiano Ronaldo da equação condiciona toda a equipa, da defesa ao ataque.

Com o capitão como avançado-centro e pela necessidade de fomentar algo em que este não é especialista, como o apoio frontal, o jogo interior coletivo — em que contamos com elementos do bicampeão PSG e do Manchester City — enfraquece. O que, paralelamente, obriga a que haja gente que o alimente desde os flancos: extremos. Em tese, Pedro Neto à direita e Rafael Leão à esquerda, com apoio dos laterais Cancelo (ou Dalot) e Nuno Mendes (ou Cancelo) a atacar o meio-espaço entre lateral e central. Seja direto ou após desdobramentos, o objetivo depois é cruzar para Ronaldo, que, para já, é anulado muitas vezes. Ou tem mostrado um decréscimo flagrante de qualidade da finalização.

Apesar disso, CR7 continua muito focado no golo. Na maior parte das vezes coloca-se no desfecho das jogadas. A maioria dos movimentos são feitos a pensar em si próprio e não em libertar espaço para os colegas.

Depois, sem bola, Ronaldo não é pressionante. Ainda o será menos no calor da América do Norte. E as escassas tentativas que lança têm estado desenquadradas do resto da equipa.

Gonçalo Ramos não está no melhor momento de forma, seja mental ou tecnicamente. Mas ainda assim oferece uma maior ligação com os restantes setores e um Portugal a defender com 11. Guedes apresenta uma capacidade de explosão, mobilidade e finalização que não devem ser desvalorizadas e também ele gosta de morder a construção dos adversários. E o próprio João Félix poderá ser um falso 9, pela capacidade que tem de jogar de costas para a baliza e pela inteligência no ataque ao espaço. Ainda que peque no momento defensivo. Na verdade, todas elas parecem melhores soluções.

O TRIÂNGULO IDEAL

Vitinha e João Neves não oferecem qualquer tipo de discussão. São inseparáveis e só um louco os tentará separar. A questão reside no terceiro elemento. Bruno Fernandes é o maior candidato, mas Bernardo Silva faz mais sentido. Um Bernardo com liberdade para aparecer também mais à frente, juntando-se aí sim a Bruno Fernandes, mas que, ao contrário do médio do Manchester United, fala a mesma língua que o duo parisiense. Um Bernardo que acelera no momento certo e não está sempre a querer acelerar.

Há receio de que Martínez veja aqui a necessidade de um médio-defensivo, como Rúben Neves ou Samú, sacrificando João Neves. Ou Bernardo. É necessário coragem para resistir.

ENTRELINHAS E MEIOS-ESPAÇOS

Para a maior parte dos leitores, soará a balelas táticas, mas é muito mais do que isso. Claro que há as bolas paradas, os erros, os remates de longe e as jogadas individuais, porém é aqui que se criam os desequilíbrios.

Se Portugal conseguir pressionar os meios-espaços entre lateral e central e entre centrais, o adversário tem de reagir para evitar o 1x1. O mais provável é que os laterais fechem por dentro, abrindo os corredores. Aí entram Cancelo e Nuno Mendes, com toda a sua qualidade. E com a presença na área assegurada por três ou quatro jogadores e, se o resto dos jogadores respeitar a subida coletiva, com gente à entrada da área.

Se o adversário não juntar o bloco, estará por dentro o espaço a aproveitar.

Claro, esta imagem é estática. Há dinâmicas. Mobilidade.

Se Bruno Fernandes é inegociável como falso-extremo e já discutimos o 9, faltará encontrar o homem da falsa-esquerda. E não há melhor candidato do que João Félix. Pelo momento, mas também pelo perfil, podendo funcionar como segundo homem na área e ainda também definir em passes e movimentos de rotura como ninguém.

Bernardo estará muitas vezes por aqui, podendo criar uma dinâmica própria com Bruno Fernandes.

A FALTA DE FISICALIDADE

Dificilmente também haverá dúvidas sobre os laterais titulares. Cancelo e Nuno Mendes reúnem o favoritismo de quase todos. Se estiverem bem fisicamente, estão muito à frente de todos os outros, e entre os melhores do planeta.

Rúben Dias, com época complicada a nível físico, será o xerife e faltará encontrar o ajudante. Inácio é o melhor a construir, todavia, mostrou-se novamente débil nos duelos físicos. Veiga pareceu mais sólido defensivo e mais limitado no passe. Tomás Araújo tem o mesmo problema que o sportinguista e a mesma versatilidade a construir. Quebra ainda linhas com o transporte e apresenta uma estratégia de contenção mais funcional, podendo fazer derivar Dias para a esquerda. Martínez talvez vá por Veiga, mas, estando bem, Tomás oferece mais. Sobretudo se ganhar confiança.

O exercício aí fica. A oportunidade é única, talvez irrepetível. Iremos lá com coragem. A dar a Portugal para poder dar Portugal!

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