Pode já não ir para o Atlas, mas marcou golo de 'letra'
Esta semana fiquei mesmo admirador de Tiago Gouveia. As declarações do agora ex-jogador do Benfica à partida para o México impressionaram-me. Pela lucidez, pela inteligência emocional, pela maturidade. Em resumo, Tiago Gouveia considera-se o principal culpado por não ter vingado no Benfica. Num tom sereno, racional, sem dramas, que convoca mais à aprendizagem de vida do que ao ajuste de contas. Pareceu-me genuíno no agradecimento ao Benfica, às pessoas com quem partilhou tempo, espaço e sonhos. Genuíno nos elogios a Marco Silva. Genuíno na gratidão pelas palavras finais de alento de Rui Costa.
Ao declarar-se como o grande culpado por não ter jogado mais no Benfica, Tiago Gouveia recusa o papel de vítima e assume o controlo da sua própria narrativa. E isto é um ato de emancipação.Nas palavras de Vikor Frankl - famoso neurologista austríaco do século XX, criador da logoterapia, abordagem psicoterapêutica baseada na busca de um sentido para a vida - «a maior liberdade do ser humano é a capacidade de escolher a sua própria atitude diante de qualquer conjunto de circunstâncias.» Em especial se forem adversas. É aqui que se define o sentido para a vida, sendo um excelente pano de fundo a recusa de assumirmos para nós a pele de vítimas. Grilhetas que apenas prendem e nada aprendem.
Reconhecer que não se atingiu o nível esperado sem cair na autocompaixão é o exercício que permite a Tiago Gouveia fechar o capítulo Benfica sem ressentimentos ou fantasmas, entrando de mente limpa num próximo clube. Como se tivesse lido as Meditações de Marco Aurélio. «Não penses que foste prejudicado e não serás prejudicado; não te sintas prejudicado e a dor desaparecerá.» É assumir o controlo sabendo que a perceção pode ser mais real do que a própria realidade. É saber que posso não ter o poder, a força ou a competência para controlar a realidade. Mas tenho o poder, a força e a competência para definir a forma como a realidade me afeta.
«Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor.» A frase foi celebrizada pelo genial dramaturgo Samuel Beckett. Este insucesso de Tiago Gouveia está limitado no tempo, no espaço e até num contexto. Nada avalia o que o jogador fez para chegar ao Benfica, menos ainda o que tem para fazer e para escrever numa folha que o próprio tornou imaculadamente branca, sem rasuras ou borrões, ao assumir os erros e refletir sobre os mesmos. Falhar não é o oposto de vencer. Para o homem maduro e emocionalmente inteligente, falhar é mais sinónimo de aprendizagem do que de derrota.
A vitimização é uma bagagem pesada. Quem sai de um clube a culpar os outros leva essa amargura para a etapa seguinte. Tiago Gouveia fez uma limpeza, decidiu partir mais leve e apenas com bagagem de mão. Se algum dia leu Confúcio, aprendeu que «o homem que removeu a montanha começou por afastar as pequenas pedras.». Uma a uma.
Agradeço a Tiago Gouveia a oportunidade que me deu para refletir sobre as minhas próprias escolhas, a forma como eu próprio tenho ou não exercido a liberdade de escolher a atitude certa perante as circunstâncias. É aqui que as decisões fazem toda a diferença. Se não no sucesso ou insucesso, pelo menos na felicidade de uma consciência tranquila.