A (última) oportunidade de Roberto Martínez
É raro um treinador, de clube ou seleção, saber ao que vai. No entanto, Roberto Martínez sabe-o bem. Sabe que, por muitas voltas que o futebol dê, e dá, a sua continuidade há muito que não é bem-vista por quem lhe paga o salário, que só o mantém no cargo em nome da paz podre que se estabeleceu com a conquista da Liga das Nações. O espanhol apenas adiou, ao pactuar com os sorrisos amarelos que acompanharam os parabéns, ser uma das vítimas da caça às bruxas do agora presidente da FPF, que sempre quis romper com tudo o que vinha do passado.
Primeiro era Mourinho, que agora já não pode, e será Jorge Jesus quem em breve estará a bater-lhe à porta para desocupar o gabinete. Proença troca um lobista, que Martínez foi, e com distinção ressalve-se, por outro que talvez inconscientemente também o será, neste caso para garantir a felicidade do seu capitão eterno. Se calhar, Cristiano já está a ver bem mais do que nós, para lá do Mundial. É o que lhe diz a idade biológica do seu corpo, que há muito não passa dos 23. Mesmo que não seja o mesmo em campo que era quando realmente os tinha, no corpo e na alma.
É raro um treinador saber o que se vai passar daí a algum tempo e, por isso, a oportunidade é de ouro. Martínez pode aproveitar o seu último momento — só não o será se sair campeão do mundo da América do Norte e mesmo assim... — para construir o seu plantel sem as amarras dos estatutos, que sempre tanto o preocuparam. Porque não ser um pouco louco e esquecer isso tudo, livre de qualquer tipo de pressão? Porque não levar realmente os melhores? Porque não construir o grupo ideal para uma última dança? E arriscar se for preciso. Tomar decisões difíceis se as fáceis comprometerem o grupo. Ou escolher as mais fáceis se estiver a complicar demais.
Porque não aproveitar de facto um Kroupi, que a França deixou de fora, e tomar uma decisão estratégica que pode influenciar uma geração. Se adotar a nacionalidade da mãe e avó, os 12 golos que marcou na Premier League são capazes de lhe valer a qualidade de melhor avançado à disposição de Martínez. Mesmo que não seja um 9. O que até poderá trazer vantagens aos problemas da Seleção no ataque posicional. Mas são apenas pensamentos soltos. Uma discussão para outros momentos.
Amanhã, Martínez vai sentar-se em frente ao país. Pede-se um selecionador coerente, mas também corajoso. Porque quando não se tem nada a perder há sempre mais margem para se ganhar.