Portugal tem um dos melhores plantéis do Campeonato do Mundo. É a altura de Roberto Martínez e dos jogadores fazerem com que tudo funcione — Foto: IMAGO
Portugal tem um dos melhores plantéis do Campeonato do Mundo. É a altura de Roberto Martínez e dos jogadores fazerem com que tudo funcione — Foto: IMAGO

Seleção: já sonhamos há tempo a mais

Portugal encara o Campeonato do Mundo com objetivos por cumprir. O talento que juntou nestes anos assim o obriga. Muitos não terão outra oportuwnidade de tocar o céu

O Mundial. Vem aí o M-U-N-D-I-A-L. Fomos crianças e tudo era uma descoberta. Os cromos que colecionávamos, por vezes às escondidas, com o dinheiro do lanche, antecipavam o maior momento das nossas pequenas vidas. Pelo menos até que outros interesses se impusessem, vivíamos a sério apenas de quatro em quatro anos. De dois em dois, por vezes, porém os Europeus nunca foram a mesma coisa.

Era nessas figurinhas estáticas que descobríamos craques que nunca víramos. Só um ou outro, noite dentro, no Domingo Desportivo. Era com a caderneta ao lado, sentados como pequenos budas à frente do ecrã, que víamos os primeiros jogos. Era ainda de boca aberta que absorvíamos a bicicleta freestyle, saída de rampa imaginária, de um tal de Negrete ou, antes, a capitulação do favorito dos favoritos num sítio chamado Sarriá. O primeiro Maracanazo de que me lembro, ainda por cima bem longe do Rio. O futebol puxava-nos pelos colarinhos e gritava que não era lógico e a surpresa, mesmo para quem jogava, vinha acompanhada de um murro no estômago.

Hoje, sabemos tudo ou quase. É caro, muito caro, mas temos acesso aos campeonatos bons e até a alguns menos bons, disfarçados de algo de jeito. E a maior invenção também a descobrimos rapidamente: podemos viajar na quântica televisiva se não conseguimos ver antes. E repetir. Nada nos escapa, se quisermos. Já sabemos tudo sobre o terceiro guarda-redes e o avançado que não tem hipóteses, só lá está para fazer número. E, para arrancar o nosso espanto, agora o génio tem de nos fintar também a nós, antes de atirar ao ângulo da baliza que defendemos.

Sabemos que vai ser físico, ainda que o calor nos possa dar tréguas. Haverá momentos aborrecidos e jogos que ninguém quererá ver. Iremos soltar aquele ‘já não há bilhetes’ que reflete todo o sarcasmo que temos dentro. Agora, imaginem os ianques. Imaginem onde o futebol mal pega, por mais que o plantem, para desgraça dos capitalistas da FIFA. E antes devorávamos tudo. Mesmo um Uzbequistão-Congo, sem qualquer obrigação. Perdemos a nossa inocência. Retiraram-nos as nossas saudáveis regressões à infância. E, agora, nem os cromos funcionam como antes.

Portugal parte mais uma vez cheio de sonhos para um torneio que já não tem só a elite. Há também a classe média e estreantes de pouca classe. O Mundial já não é o palco dos deuses. É também o dos mortais e o dos de alta taxa de mortalidade. E, mesmo com tanto talento, arranjamos sempre maneira de continuarmos a ser políticos. Vamos bem para lá do politicamente correto. Somos incapazes de tomar decisões difíceis que beneficiem o coletivo e tornem mais firme o caminho. Mesmo que o futebol dominador na Europa seja precisamente esse.

O treinador há muito que percebeu que de nada lhe valia vestir-se de Guardiola porque o fato não lhe servia. O processo normalizou-se por fim, deixou de querer ser disruptivo. Mas nem por isso melhorou. E ele lá continua porque os jogadores saíram em sua defesa e ganharam por si a Liga das Nações, talvez com receio do retrocesso para uma equipa de contra-ataque.

Sabemos já quase tudo. Que Ronaldo jogará todos os minutos de todos os jogos da fase de grupos, se cumprir na disciplina e fisicamente não capitular. Que, desta vez, a concorrência na equipa até está mais fraca. E que se não mudou quando esta se sentia bem, não será agora que será discutido. Sabemos que serão dez a defender e a atacar até à grande área dos rivais, e que Cristiano vai sentir urticária até tocar a bola junto à lateral, só porque sim. Sem qualquer racional associativo. Sem complemento de alguém na equipa. É apenas o momento de fazer o seu truque. E dar de calcanhar ou de passar sem olhar.

Temos a certeza de que os movimentos que fizer serão a pensar em si, para se libertar a si em vez de algum companheiro. Não será agora, aos 41, que aprenderá novas línguas. E, como tal, andamos longe da máxima força. Mesmo assim, quase todos o colocavam nos convocados e hoje a maioria não tiraria do onze. Oportunidade perdida!

Imaginamos todos a equipa ideal. Aceitemos que só a estratégia e a rotação irão alterar a hierarquia dos laterais e os nomes dos centrais titulares. Que Vitinha e João Neves são um só, embora joguem por quatro, e que não faltará mais ninguém para defender se a equipa alinhar em uníssono. Já que Ronaldo não é um problema para Martínez, haverá quatro nomes para três posições: Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Neto e João Félix. E residirá aqui o equilíbrio e o desequilíbrio, e talvez o segredo do sucesso. Ou a razão do insucesso.

Bruno Fernandes é tão bom que não é fácil entendê-lo como problema. É vítima do contexto. A falta de química futebolística com Vitinha e Neves, sobretudo com o primeiro, é notória. Ambos querem a bola e não jogam no mesmo tom. O diabo vermelho quer acelerar, Vitinha espera pelo momento certo, tanto quanto o faz — e de que maneira — Bernardo Silva. Talvez funcionasse melhor no triângulo do meio-campo. Seria a comunicação perfeita entre o modelo de Luis Enrique e do Guardiola. Entre os melhores interlocutores das duas ideias.

Vitinha-Neves-Bernardo pode ser curto para Martínez, que começou destemido e se tornou inseguro, ao ponto de querer juntar aí outro Neves, o Rúben, ou Samú, o que faria derivar o 15 para lateral direito, como aconteceu na Liga das Nações. Só que, por mais voltas que dê à cabeça, continua a ser criminoso.

Na frente, Bruno Fernandes, já se disse, tem lugar indiscutível. Resta saber onde. Neto tem argumentos se o selecionador quiser manter o 1x1, no entanto, a fortalecida ligação Félix-Ronaldo também carrega peso. Com Neto, Bruno pode alinhar à esquerda. Com o melhor da liga saudita, talvez surja à direita. Em tese, os laterais terão capacidade de chegada, protegidos pelo trio do meio-campo. E com Félix, Bernardo e Bruno a explorar canais e espaço entre linhas, e Ronaldo a colaborar, poder-se-á formar um ataque muito difícil de marcar.

Os sonhos viraram racional. Por defeito profissional, mas não só. Martínez não tem razão. Sonhámos sempre, mesmo quando tudo o que nos sustentava implodiu em Saltillo. É hora agora de cumprir objetivos. E esperar que nos mostrem algo que ainda não tenhamos visto.

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