Frederico Varandas, presidente do Sporting, e Pedro Proença, homólogo da FPF - Foto: Miguel Nunes
Frederico Varandas, presidente do Sporting, e Pedro Proença, homólogo da FPF - Foto: Miguel Nunes

Entre a competência e o ruído

'O Mundo Sabe Que' é o espaço de opinião em A BOLA de Nuno Saraiva, consultor e sócio do Sporting Clube de Portugal

Há momentos em que vale a pena parar e olhar para o futebol português sem preconceitos e ensaiar algum distanciamento. O mercado de transferências do Sporting e a recente polémica em torno da arbitragem são dois bons exemplos de como, no nosso futebol, convivem duas realidades profundamente diferentes: a competência na gestão e o ruído permanente que continua a contaminar as instituições.

O Sporting sabe o que faz

Há uma diferença fundamental entre gastar e investir. E é precisamente essa diferença que explica por que razão o Sporting continua a afirmar-se como uma das instituições desportivas mais bem geridas do país e da Europa.

Neste mercado de transferências, Frederico Varandas voltou a demonstrar uma qualidade que distingue os bons dirigentes dos ocasionais: coerência. No Sporting não há decisões ditadas pela ansiedade, nem cedências à pressão mediática ou vendas feitas à primeira proposta financeiramente apelativa. Há uma estratégia definida e um princípio que já todos os grandes clubes europeus conhecem: quem quiser contratar os melhores jogadores do Sporting paga o valor que a SAD determina. Caso contrário, os jogadores permanecem em Alvalade.

Esta firmeza negocial não é um ato de teimosia. É uma demonstração de respeito pelo património do clube.

Também por isso causa alguma estranheza ouvir, uma vez mais, a velha narrativa de que o Sporting anda a gastar sem critério. Basta olhar para os números para perceber que essa ideia não resiste a cinco minutos de análise.

As vendas já concretizadas representam um encaixe imediato de cerca de 106,40 milhões de euros, enquanto o investimento realizado nas contratações ronda os 101,53 milhões. O saldo é positivo mesmo antes de se equacionarem eventuais transferências de Ousmane Diomande, Pedro Gonçalves ou Daniel Bragança e sem contabilizar a significativa redução da massa salarial resultante das saídas de jogadores como Francisco Trincão e Morten Hjulmand.

O Sporting não compra porque vendeu. Compra porque planeou. E vende quando entende que é o momento certo e pelo valor que considera adequado.

Mais importante ainda é a qualidade dos reforços.

O meio-campo ganhou novas soluções com Issa Doumbia, Sergi Altimira e Silas Andersen, três jogadores de caraterísticas distintas, mas complementares. Doumbia acrescenta intensidade física e capacidade de recuperação. Altimira oferece inteligência tática, qualidade de passe e leitura do jogo. Andersen combina versatilidade, técnica e dimensão física. Em conjunto, representam um reforço qualitativo evidente para um setor absolutamente decisivo.

Na defesa, Ibrahima Ba chega depois de se afirmar como um dos centrais mais consistentes da Liga Portugal, reunindo velocidade, agressividade e qualidade na construção. No ataque, Rodrigo Zalazar é um jogador cuja qualidade dispensa apresentações. Criativo, competitivo e decisivo, acrescenta imprevisibilidade e talento ao último terço. Jesse Derry, por seu turno, tem sido uma das agradáveis revelações da pré-temporada, justificando plenamente a aposta feita pela estrutura Leonina.

Mas talvez o maior elogio que possa ser feito ao trabalho da administração liderada por Frederico Varandas seja outro.

Apesar do investimento realizado, o Sporting continua a olhar para a Academia como a principal fonte de talento do Clube. Eduardo Felicíssimo, João Simões, Flávio Gonçalves, Lucas Anjos ou Rafael Nel são alguns dos jovens que demonstram que Alcochete continua a produzir jogadores preparados para competir ao mais alto nível. Alguns deles têm qualidade suficiente para discutir a titularidade em muitos encontros desta época.

Pode discutir-se se todas as contratações terão sucesso. O futebol nunca oferece garantias. O que dificilmente pode ser contestado é que existe uma estratégia, uma disciplina financeira e uma competência de execução que fazem hoje do Sporting uma referência na forma como gere o seu presente sem hipotecar o seu futuro.

Exigir das instituições

Infelizmente, a competência que alguns clubes revelam na sua gestão nem sempre encontra correspondência na forma como o futebol português se organiza e se apresenta.

A polémica em torno dos alegados áudios envolvendo Pedro Proença é um bom exemplo disso.

Como defensor do Estado de Direito, não posso deixar de rejeitar práticas de vazamento de conversas privadas obtidas por meios que desconhecemos e divulgadas de forma aparentemente truncada, criando julgamentos públicos sem contexto e sem contraditório. A justiça faz-se nos tribunais, não nas redes sociais nem através de fugas de informação seletivas.

Dito isto, também não deixa de ser curioso assistir à indignação de tantas virgens ofendidas que hoje se escandalizam com críticas dirigidas à arbitragem. Durante anos, muitos dos que agora rasgam as vestes foram precisamente aqueles que mais contribuíram para descredibilizar os árbitros portugueses com declarações bem mais violentas do que aquelas que agora dizem condenar. A memória não pode ser seletiva.

O que verdadeiramente preocupa é que iniciemos mais uma época desportiva mergulhados num ambiente de suspeição, conflito e desgaste institucional. Não é este o futebol que os adeptos merecem nem aquele de que os clubes precisam para valorizar a competição. E, desta vez, que ninguém se atreva a apontar o dedo a comentadores ou dirigentes de clubes. A culpa é mesmo da cúpula do futebol nacional.

Perante as suspeitas de alegados crimes de tráfico de influências e corrupção e existindo uma investigação judicial em curso, Luciano Gonçalves tornou-se, objetivamente, um fator de toxicidade não só para a arbitragem portuguesa. A presunção de inocência é um princípio inegociável do Estado de Direito. Mas a responsabilidade institucional exige um padrão ainda mais elevado. Não podendo ser demitido, em respeito pela autonomia do Conselho de Arbitragem, deveria afastar-se, protegendo a credibilidade da instituição que representa e a integridade das competições da nova época desportiva.

Também Pedro Proença deve retirar ensinamentos deste episódio. Quem preside ao futebol português não tem apenas de agir com independência. Tem igualmente de preservar, em todas as circunstâncias, a perceção dessa independência. A prudência na linguagem, a escolha dos interlocutores e a consciência do peso institucional de cada palavra são hoje exigências inerentes ao cargo, mesmo em períodos de natureza pré-eleitoral.

Os clubes, por seu lado, não podem limitar-se a assistir e a criticar. Todos, sem exceção, deveriam encontrar em sede da Liga Portugal um espaço de convergência para promover reformas estruturais que reforcem a transparência, a confiança e a credibilidade das competições.

Os campeonatos conquistam-se dentro das quatro linhas. Mas a credibilidade do futebol constrói-se todos os dias através da qualidade das suas instituições. O Sporting parece ter encontrado um caminho de estabilidade, competência e visão estratégica. O futebol português, esse, continua a precisar de encontrar o seu.

A iniciar sessão com Google...