Rafael Leão em ação no último Espanha-Portugal no Mundial - Foto: MIGUEL NUNES
Rafael Leão em ação no último Espanha-Portugal no Mundial - Foto: MIGUEL NUNES

Há cinco anos, a seleção norueguesa de andebol de praia foi multada em 1500 euros por recusar jogar de biquíni, como determinava o regulamento do Europeu, que dizia que a parte de baixo devia «ser justa ao corpo e com um recorte na direção do topo da perna», com largura máxima lateral de 10 centímetros!

A multa (re)acendeu a polémica, já que, no caso dos homens, os mesmo regulamentos permitiam o uso de calções compridos. Apesar da ameaça de desqualificação, as norueguesas conquistaram o bronze, milhares de mensagens de apoio e até a cantora Pink anunciou que estava capaz de pagar a multa. Nessa altura, a equipa alemã de ginástica artística apresentou-se no Europeu de fatos de corpo inteiro, decisão apoiada pela federação.

Estas histórias não são únicas nem novas, mas esta semana, a European Broadcasting Union — entidade que regula as transmissões televisivas — publicou um documento chamado 'Raising the Bar', com regras para acabar com a sexualização das atletas nas transmissões. Assim, simples e sem rodeios.

O diretor executivo não fugiu ao assunto e disse que a escolha dos ângulos da câmara e da montagem continua a ser um problema em muitas transmissões desportivas. As regras entram em vigor já nos Europeus de Atletismo de Birmingham, em agosto, e acabam os planos contrapicados, as repetições obsessivas de certas partes do corpo, e os comentadores passam a ter de falar de técnica, não de estética. Felizmente e finalmente caminhamos para acabar com o Ronaldo de saias ou as miúdas jogam bem!. É preciso isto tudo? Sim, é preciso e não é exagero.

Há dias, Rafael Leão, o internacional português que tem 27 anos — e não o meu querido avô Belmiro ou o meu avô Henrique, criados em outros mundos e outros tempos — publicou nas redes sociais, e apagou pouco depois, com críticas de todos os lados, uma mensagem que deixa claro como certas cabeças precisam de melhores lentes e objetivas fotográficas para ver o Mundo: «Raparigas, o Mundial acabou, podem parar de fingir que percebem de futebol.»

As adeptas entusiasmadas nas bancadas, as atletas em pista são imagens bonitas? Claro que são, mas não quando o espetáculo desportivo passa para segundo plano porque o foco está no decote ou no cabelo das mesmas.

Isto tem nome e não é bonito: pervcam. É o hábito de transformar qualquer mulher que apareça num evento desportivo em algo que merece ser observado de vários ângulos, não como parte do espetáculo. Na bancada, o estrago é simbólico: reduz uma mulher adepta a uma imagem de consumo, como fica claro nas palavras eruditas de Rafael Leão. Numa atleta, é ainda pior, porque o alvo é o corpo de quem está a competir, a dar o seu melhor profissionalmente.

Closes em câmara lenta a pernas, cintura, glúteos não explicam nada do jogo. Trocam a leitura do gesto técnico pela imagem do corpo, e escolhem fazer isso exatamente quando ela está a mostrar do que é capaz. A câmara nunca é inocente, quem escolhe o enquadramento está sempre a decidir o que merece ser visto, e isso é sempre uma opinião disfarçada de imagem.

Uma opinião que molda outras opiniões, que perpetua imagens e representações como aquela que tem Rafael Leão. As regras chegam tarde, mas chegam, e, já agora:

— Jorge Jesus, pode, por favor, dar um biquíni ao Rafael Leão no próximo jogo?

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