Silêncio, que vai começar um jogo de futebol!
E foi logo a abrir na primeira jornada do campeonato que o silêncio voltou a impedir que o colorido do estádio do SL Benfica voltasse a contar com o cântico dos adeptos, sedentos de ao vivo reencontrar o seu espaço de aplauso pela sua cor clubística, gritando e vibrando com o peso da sua bandeira, numa profunda relação de apoio participativo.
Parece que se voltava a repetir o que na época de 2019/20, em tempos de COVID, o mundo do espetáculo desportivo impedia a satisfação de um dos legados mais importantes na competição desportiva, que é a presença dos adeptos.
Todos sabemos que as equipas fazem do público o seu 12.º jogador e, desse eco desencadeado do empenhamento e discussão de cada lance até à última gota de suor, fazem a reconstrução substantiva do rendimento para o êxito. O futebol sem adeptos transforma-se num jogo sem alma. Contudo, em equipas habituadas a ter pouco público, ou até com adeptos de difícil controlo pelo abuso duma discussão permanente, com o uso do seu dedo em riste e vozeirão com gritos lancinantes contra os jogadores que falham, pode não parecer nada favorável. Sem público, os jogadores podem entrar mais relaxados, acusando um défice de concentração, na esperança de ver escondidos alguns erros cometidos pelo medo de perder, ou encobertos os sentimentos de coragem e ousadia de quem tudo faz para ganhar, podendo causar tábua rasa do elogio através do aplauso ou da confrontação crítica por via da represália.
Ainda recordando esse largo tempo da impossibilidade de presença dos adeptos nos estádios, verificaram-se de forma genérica, em alguns dos campeonatos, resultados em queda significativa no rendimento das equipas que jogavam em casa. Enquanto antes desta tomada de decisão de imposição de ausência dos adeptos nos estádios, as equipas que jogavam em casa obtinham 45% de vitórias, 20% de empates e 35% de derrotas, sem público o registo de observação tomou uma configuração praticamente invertida, assumindo 45% as vitórias dos visitantes, etc.
Pela ausência dos adeptos ainda se viram beneficiados as posições dos guarda-redes e dos árbitros. Os primeiros pela maior possibilidade de comunicação com a equipa e os segundos pela maior tranquilidade na gestão do julgamento dos lances, dada a inexistência da pressão externa que geralmente faz aumentar o estado de tensão a quem compete julgar o jogo. No âmbito da observação e qualificação do jogo, observou-se um maior número de passes, diminuindo-se o número de dribles, sendo a qualificação da dinâmica do jogo justificada pela lei da espectativa, diminuindo o domínio de pressão em zonas de ataque e defesa, vendo-se ainda diminuídas o número de faltas e penáltis assinalados para as equipas que jogavam em casa e, no setor da arbitragem, um aumento de mostragem de cartões a essa equipas comparativamente às equipas visitantes.
Daí, e voltando à atualidade, a presença do adepto no espetáculo ser um dos aspetos mais significativos para o desenvolvimento do jogo. O futebol vai ganhando vida pelo eco gerador de expressões de afeto, envoltos duma vibrante coreografia, acumulando vivências admiráveis cobertas de alegria e paixão.
Mas, neste caso do jogo que marcou de forma nefasta a primeira jornada do nosso campeonato, a culpa da sua origem não pode morrer solteira. Quem foi ou foram os responsáveis pela sentença da ausência de adeptos ou o tal jogo de castigo? Qual a identificação desse estado de malvadez que levou a esses inqualificáveis imbecis que atiçaram o ato em repetição constante? Os ditos adeptos, que se dizem amantes do clube, foram devidamente identificados? Qual a pena que lhes foi vaticinada? Apenas lhes foi impedido durante um curto espaço de tempo de assistir a espetáculos desportivos? O clube, que se viu fustigado por esse ato de malvadez, se é que tem de responder e arrecadar com as consequências, que medidas deverá tomar para que tal não volte a acontecer?… São tudo questões, quanto a mim, a ter em conta para respostas absolutamente categóricas em relação a essas bestas esplêndidas que de forma frequente se envolvem em situações conflituosas, explorando as suas razões através de estados de cólera e euforia, provocando situações que dão origem a uma labareda de situações com efeitos verdadeiramente escaldadas de dramatismo.
Temos de encontrar no belo jogo de futebol um ato de cultura, vida e festa. E ainda tudo fazer para que da sua prática possam sobrar notícias de generosidade e duma inatacável honestidade de processos, podendo ver-se aglutinada um nível de relação entre as pessoas, onde as noções do belo, do estético e do ético possam estabelecer acordos duma admirável existência.
Quem não pretender fazer parte deste desejo coletivo, refinado pelos valores da honestidade de comportamentos e firmeza de convicções éticas, haverá sempre um lugar alternativo para estar, ou adormecer no silêncio da sua frágil existência, ou ouvir o relato numa qualquer Esquadra de Polícia, repensando o futuro, encostados às grades da ocasião.