O FC Porto terminou a temporada 2025/26 com uma média de 45.612 espectadores no Dragão - Foto: IMAGO
O FC Porto terminou a temporada 2025/26 com uma média de 45.612 espectadores no Dragão - Foto: IMAGO

O adepto no centro do jogo

#Minuto 92 é o espaço de opinião de Ricardo Gonçalves Cerqueira, jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto

Num momento em que se discutem os pressupostos para a alienação dos direitos audiovisuais da Liga portuguesa, há uma dimensão do ecossistema do futebol nacional que merece particular reflexão. A relação, paradoxalmente frágil, entre a extraordinária popularidade da modalidade em Portugal e a mobilização de público para os estádios.

Portugal é um país que segue apaixonadamente o futebol. Jogadores, treinadores, SAD´s, comentadores e toda uma indústria gravitam em torno de um fenómeno com inequívoco peso económico, social e cultural. Ainda assim, os estádios continuam longe de refletir essa comunhão.

Na temporada 2025/26, a Liga Portugal registou uma média de 11.781 espectadores por jogo, num total de 2,96 milhões em 306 partidas, abaixo dos 12.295 da época anterior. A comparação com o contexto internacional torna o retrato ainda mais desconfortável: o Championship inglês, equivalente à nossa Liga 2, ultrapassou os 22 mil espectadores por jogo, enquanto a League One, terceiro escalão, atingiu cerca de 10.647. Ou seja, uma competição do terceiro nível, em Inglaterra, mobiliza praticamente o mesmo público que a primeira divisão portuguesa.

O paradoxo torna-se ainda mais evidente quando confrontado com as audiências televisivas. Em 2025/26, a Liga Portugal alcançou 41,3 milhões de espectadores, o melhor resultado das últimas seis temporadas e muito acima dos 34,1 milhões de 2024/25. Há, portanto, mais pessoas a ver futebol, mas não necessariamente mais pessoas a ir aos estádios de futebol.

O problema não será o interesse pela modalidade, mas a dificuldade em transformar esse interesse em presença regular nos recintos. Os motivos são vários e todos conhecidos: preços elevados dos ingressos, horários pouco razoáveis com jogos a realizarem-se ao domingo e segunda-feira à noite, acessibilidades rudimentares em muitos estádios, pouco conforto e, sobretudo, uma experiência extrajogo que muitos clubes ainda não conseguiram tornar suficientemente atrativa para o adepto. A isto acresce uma dificuldade estrutural dos pequenos e médios clubes de consolidar uma relação de proximidade com as comunidades locais.

O exemplo francês é, a este propósito, elucidativo. A Ligue 1 terminou 2025/26 com uma média de 27.588 espectadores por jogo e uma taxa de ocupação de 87,4%, tendo oito clubes ultrapassado os 90%. Em Inglaterra, como observa Tim Wigmore no The Telegraph, a transformação da Premier League num produto televisivo de dimensão planetária não impediu a preservação da ida ao jogo de futebol como uma experiência social, cultural e comunitária. O Championship e a League One são disso exemplos particularmente expressivos.

Em Portugal, pelo contrário, a assistência permanece excessivamente dependente do adversário, da classificação e da dimensão histórica do clube. O FC Porto, por exemplo, terminou 2025/26 com uma média recorde de 45.612 espectadores no Dragão, mais 12,3% do que na temporada anterior. O número demonstra que o público existe. Mas também evidencia a concentração dessa capacidade de mobilização nos clubes de maior dimensão, embora o Vitória Sport Clube tenha igualmente contribuído com assistências recorrentemente sólidas.

A questão decisiva está, por isso, nos restantes clubes e como podem, estes, alimentar uma cultura de estádio em cidades onde a equipa não disputa títulos, não possui centenas de milhares de seguidores nem participa regularmente nas competições europeias?

A resposta não pode limitar-se à redução dos preços dos bilhetes e a campanhas promocionais ocasionais. É necessário repensar o produto disponibilizado. O adepto não deve ser visto apenas como um elemento que compra um bilhete para assistir a 90 minutos de futebol, mas como parte integrante do espetáculo.

O jogo deve ser uma experiência familiar e social agradável. Um ritual de pertença à cidade, vivido em conforto e segurança e emocionalmente enriquecedora. Naturalmente que o preço dos bilhetes também é relevante. Para uma família, adquirir quatro bilhetes, garantir transporte, estacionamento e alimentação representam uma despesa considerável. Perante a alternativa de assistir ao jogo confortavelmente em casa, usufruir do sistema multicâmaras e contar com análise permanente, o estádio tem de oferecer aquilo que a televisão jamais poderá reproduzir: ambiente festivo, emoções, proximidade aos atletas e treinadores, sentido de comunidade e envolvimento no espetáculo do princípio ao fim da partida.

Há ainda a herança dos estádios construídos ou remodelados para o Euro 2004. Muitas destas infraestruturas têm qualidade, mas nem todas foram concebidas para uma rentabilização económica e social intensa ao longo de toda a temporada. Em alguns casos, a sua dimensão tornou-se parte do problema, com bancadas desenhadas para multidões que hoje recebem poucas dezenas ou centenas de adeptos o que conduz a uma experiência vazia, desconfortável e descaracterizada.

O futebol português não vive um problema de popularidade. Apresenta, isso sim, desafios de conversão da popularidade em comunidade. Ultrapassar esta questão deve ser um dos focos centrais da Liga Portugal e dos clubes que a compõem: transformar os estádios em locais onde os adeptos, as famílias e as comunidades locais querem estar e conviver com regularidade. Porque a vitalidade do futebol também se mede pelo número de pessoas que ao fim de semana se predispõe a sair de casa, por vezes com condições atmosféricas difíceis, atravessar a sua cidade, enfrentar o trânsito caótico e dirigir-se ao estádio para vibrar com o jogo do seu clube. O desafio é transformar esta experiência em memórias inesquecíveis.

SINAL MAIS

O Estádio do Dragão tem vindo a sofrer intervenções estruturais muito relevantes permitindo aos adeptos usufruir de uma experiência de jogo cada vez mais confortável e segura.

SINAL MENOS

Gianni Infantino encara a presidência da FIFA como se de um reinado se tratasse a que só o próprio tem direito. Nem diante de manifestações transversais de desagrado relativamente à forma como vem exercendo o seu mandato, pondera recuar na apresentação de nova candidatura ao cargo. Uma espécie de lapa que não abdica das sinecuras que a função proporciona.

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