Um mau relvado prejudica o negócio-futebol. Foto Rui Raimundo
Um mau relvado prejudica o negócio-futebol. Foto Rui Raimundo
Alexandre Pereira Alexandre Pereira

Os clubes fazem as regras e depois assobiam para o lado

Enquanto não percebermos que há um desígnio comum, o produto continuará a valer pouco. E a centralização está aí a bater à porta. Mas há mesmo um desígnio comum?...

Semana após semana, e às vezes dia após dia, vemos protagonistas do futebol português a insurgirem-se contra tudo e um par de botas. Normalmente o «par de botas» pode trazer algo de original (um exemplo: porque não vender cerveja nos estádios?), mas o «tudo» acaba sempre nos regulamentos da Liga Portugal, que como o próprio conceito indica regulam as provas profissionais.

Ora, o mais engraçado para quem vê de fora será (até que a voz nos doa) lembrar que esses regulamentos são não só aprovados como redigidos e pensados pelos clubes profissionais. A Liga não é mais do que a soma dos clubes profissionais, com uma direção executiva para fazer cumprir o que eles, clubes, decidem soberanamente em assembleias.

Está vertido nos regulamentos que um relvado que tenha duas avaliações negativas consecutivas fica automaticamente interditado até nova ordem. Foram os clubes que aprovaram esta norma. Mas assim que um deles é apanhado nessa curva «ai Jesus que nos estão a tentar prejudicar». Não: os maus relvados é que prejudicam o futebol português. Como a má iluminação ou as bancadas vazias. São três pilares essenciais para o sucesso do negócio. Ou o futebol só é negócio quando nos convém?

Se está escrito que esta suspensão automática existe, não consigo entender, sequer, que se reclame. A não ser que o Estrela da Amadora coloque em causa a avaliação feita ao relvado, mas isso parece-me que ninguém poderá, de boa fé, contestar.

O mesmo quanto aos calendários. A queixa do treinador do Moreirense sobre ter tido que jogar a meio da semana chega a ser risível. Os regulamentos — finalmente e de forma clara — privilegiam as equipas que representam o País na Europa. O Moreirense, clube altamente profissionalizado, dotado de meios suficientes para jogar ao mais alto nível (foi licenciado, certo?), vê-se forçado a jogar três partidas numa semana e queixa-se disso como aparente tentativa de justificação de uma derrota pesada frente ao Benfica.

O Moreirense fez, até ontem, cinco jogos esta época. O Benfica jogou 11.

Podemos tentar encontrar mil e uma razões de queixa para os desequilíbrios do futebol português, mas por favor não sejamos demagógicos.

Aliás: enquanto não percebermos que há (há?) um desígnio comum, o produto continuará a valer pouco. E a centralização está aí a bater à porta...

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